Vinte mil pedidos por mês: a cannabis medicinal virou rotina no Brasil — só que importada

Vinte mil pedidos por mês: a cannabis medicinal virou rotina no Brasil — só que importada

A Anvisa autorizou 116.372 importações de produtos à base de cannabis no primeiro semestre de 2026, alta de 29% sobre 2025. O dado, obtido via Lei de Acesso à Informação, mostra um tratamento que deixou de ser exceção — enquanto o país segue sem produção nacional e com acesso praticamente restrito a quem pode pagar.

SaúdeCidade ·

Todo mês, cerca de 20 mil brasileiros pedem autorização à Anvisa para importar um medicamento à base de cannabis. Não é movimento de ativista nem moda de bem-estar: é receita médica, formulário de agência reguladora e cartão de crédito internacional.

No primeiro semestre de 2026, foram 116.372 autorizações29% a mais que no mesmo período de 2025, quando a média era de 15 mil pedidos mensais. O pico veio em março: 23.199 pedidos num único mês. Os dados são de levantamento da Cannect, plataforma de saúde voltada a pacientes crônicos, obtidos via Lei de Acesso à Informação.

A leitura da própria empresa resume bem: "a cannabis deixou de ser uma terapia alternativa de exceção para se consolidar como um tratamento de manutenção para milhares de brasileiros com doenças crônicas."

Consolidou. Mas repare no verbo que sustenta tudo isso: importar.

O que esses números realmente medem

Cada autorização representa um paciente que percorreu um circuito específico: consultou um médico disposto a prescrever, obteve a receita, cadastrou-se na Anvisa, comprou de um fornecedor estrangeiro e pagou — produto, frete e câmbio — do próprio bolso.

Epilepsias refratárias, dor crônica, transtorno do espectro autista, Parkinson, ansiedade grave, cuidados paliativos: o grosso das prescrições se concentra em condições crônicas nas quais os canabinoides têm evidência que vai de robusta (epilepsias raras, como Dravet e Lennox-Gastaut) a promissora-mas-em-construção (dor, ansiedade). O canabidiol purificado para epilepsia, vale lembrar, é aprovado por agências como o FDA americano desde 2018 — não é chá de internet, é fármaco com ensaio clínico.

Crescimento de 29% ao ano numa via que exige burocracia federal e dinheiro no câmbio não é histeria de consumo. É demanda clínica reprimida encontrando a única porta disponível.

Cannabis medicinal importada, em números:

116.372 autorizações de importação de janeiro a junho de 2026
+29% sobre o primeiro semestre de 2025
• Média de ~20 mil pedidos/mês em 2026, contra ~15 mil em 2025
• Pico em março: 23.199 pedidos; junho fechou com 18.255
• Nova regra: RDC 1.015/2026, em vigor desde 4 de maio, substituiu a RDC 327/2019
• Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (levantamento Cannect)

Fonte: Anvisa, via LAI, agosto de 2026.

A regra mudou em maio — e o mercado nem piscou

Em fevereiro, a Anvisa publicou a RDC 1.015/2026, que substituiu a resolução de 2019 e passou a valer em 4 de maio. Era a atualização mais aguardada do setor em sete anos — e os números mostram que a transição não freou nada: junho registrou 18.255 pedidos, dentro do novo patamar de 20 mil mensais.

O detalhe histórico ajuda a dimensionar a curva. Em 2015, quando a Anvisa começou a autorizar importações, contavam-se centenas de pacientes por ano — famílias de crianças com epilepsia grave que viraram notícia por judicializar o direito de importar óleo de canabidiol. Uma década depois, são 116 mil autorizações num semestre. Poucas terapias na história recente da saúde brasileira cresceram duas ordens de grandeza em dez anos com o paciente pagando tudo.

O elefante na sala: quem não tem cartão internacional

Agora a parte que os números da LAI não mostram — porque quem não pede autorização não vira estatística.

Importar um frasco de canabidiol custa, tipicamente, de algumas centenas a alguns milhares de reais por mês, dependendo de dose e produto. Tratamento de manutenção, por definição, é para sempre. Faça as contas: o universo real de pacientes que se beneficiariam não é o dos 20 mil que conseguem pedir por mês — é várias vezes isso.

O SUS não fornece esses produtos, salvo exceções pontuais conquistadas na Justiça ou em programas estaduais isolados. Não existe registro amplo de medicamentos nacionais à base de cannabis nas farmácias — os poucos produtos com autorização sanitária de venda em farmácia são igualmente caros. E o cultivo para fins medicinais e a produção nacional em escala seguem travados no Congresso há anos, com o PL 399 e sucessores hibernando em gaveta.

O resultado é um sistema com uma lógica curiosa: o país reconhece a legitimidade clínica do tratamento — a Anvisa autoriza 116 mil importações e ninguém em Brasília propõe fechar essa porta —, mas terceiriza a produção para Estados Unidos, Europa e Colômbia e o financiamento para a família do paciente.

Se você (ou alguém seu) tem indicação

O caminho existe e é legal. Consulta com médico prescritor (qualquer médico pode prescrever; neurologistas, psiquiatras e paliativistas são os mais habituados), receita em mãos, cadastro no site da Anvisa — a autorização hoje sai em dias e vale por prazo estendido pela nova RDC.

Desconfie dos dois extremos. De quem diz que cannabis cura tudo — não cura — e de quem trata como droga de traficante um fármaco com aprovação de agências regulatórias sérias para indicações específicas. A pergunta certa não é ideológica, é clínica: para esta condição, nesta dose, existe evidência?

Guarde os comprovantes. Decisões judiciais têm garantido fornecimento pelo SUS ou reembolso por planos em casos com indicação bem documentada e falha das alternativas convencionais. A papelada da importação é o alicerce desses processos.

Rotina sem política

Cento e dezesseis mil autorizações em seis meses fazem da cannabis medicinal importada uma das rotinas regulatórias mais movimentadas da Anvisa. O que era exceção humanitária em 2015 virou fluxo industrial em 2026 — sem que o país tenha decidido, em lei, o que fazer com isso.

Enquanto a decisão não vem, o arranjo segue funcionando do jeito que está: a ciência avançou, a agência regulou, o paciente paga.

Vinte mil por mês. Em dólar.

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