90% do que faz seu remédio funcionar vem de fora — o Brasil quer virar esse jogo usando a própria floresta

90% do que faz seu remédio funcionar vem de fora — o Brasil quer virar esse jogo usando a própria floresta

O país tem a maior biodiversidade do planeta e, ainda assim, importa quase todo o princípio ativo dos medicamentos que consome. Um novo centro de R$ 60 milhões em Campinas quer transformar a mata brasileira em ingrediente de remédio — e reduzir uma dependência que vira crise a cada solavanco cambial.

SaúdeCidade ·

Pegue a cartela de qualquer remédio que você toma. A substância que de fato faz efeito ali dentro — o princípio ativo — provavelmente atravessou um oceano antes de chegar à sua mão. Na indústria farmacêutica brasileira, 90% desses insumos são importados. Em alguns segmentos, chega a 95%. O país com a maior biodiversidade do mundo compra de fora quase tudo o que dá poder de cura aos seus medicamentos. É como morar em cima de uma mina de ouro e comprar aliança parcelada.

Na semana passada, o Ministério da Saúde anunciou um investimento de R$ 60 milhões para criar um Centro de Competência em Insumos Farmacêuticos Ativos, conduzido pelo CNPEM — o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas. A missão é ambiciosa e um tanto poética: transformar a floresta brasileira em farmácia.

O que é IFA, e por que você deveria se importar

IFA é a sigla de Insumo Farmacêutico Ativo. Em português de gente, é a molécula que faz o trabalho — o paracetamol dentro do comprimido de dor, o princípio que baixa sua pressão, o composto que combate a infecção. O resto do comprimido é embalagem química: excipiente, corante, o que dá forma. O IFA é a alma do remédio.

Agora entenda por que importar quase todo esse ingrediente é um problema que vai muito além do orgulho nacional. Quando 90% do princípio ativo vem de fora — sobretudo de poucos países fornecedores —, o preço do seu remédio fica refém de duas coisas sobre as quais o Brasil não tem controle nenhum: o câmbio e a geopolítica. O dólar sobe, o remédio encarece. Uma fábrica na Ásia para, e falta insumo na farmácia da esquina. A pandemia deu o aviso: cadeias globais de suprimento quebram, e quem depende delas fica na fila torcendo.

A dependência farmacêutica do Brasil em números:

90% dos princípios ativos usados pela indústria nacional são importados
• Em alguns segmentos, a dependência chega a 95%
• Investimento no novo centro: R$ 60 milhões do Ministério da Saúde
• Executor: CNPEM (Campinas), que abriga o acelerador de partículas Sirius
• Meta: descobrir moléculas na biodiversidade brasileira e criar rotas para produzi-las em escala

Fonte: Ministério da Saúde; Abiquifi. Vulnerabilidade a crises internacionais e oscilações cambiais destacada pelo setor.

A ironia da maior floresta do mundo

Aqui está o paradoxo que dá o nó. O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta — um estoque gigantesco de plantas, fungos e micro-organismos que a evolução passou milhões de anos aperfeiçoando em laboratórios químicos ambulantes. Metade dos medicamentos modernos tem origem, direta ou indireta, em produtos naturais. E, mesmo assim, como reconheceu o CEO do laboratório Aché, Hatylas Azevedo, "mesmo com a maior biodiversidade do planeta, o Brasil ainda ocupa uma posição modesta na geração de medicamentos inovadores".

Traduzindo o desperdício: o país tem a matéria-prima que o mundo inteiro cobiça e não a transforma em remédio. Descobrir uma molécula promissora numa planta amazônica é uma coisa; conseguir produzi-la em escala industrial, com pureza e custo viáveis, é outra bem mais difícil. É justamente esse segundo passo — a "rota tecnológica" — que o novo centro promete atacar.

Por que Campinas, e por que agora

A escolha do CNPEM não é acaso. O centro abriga o Sirius, um acelerador de partículas de última geração capaz de enxergar a estrutura das moléculas com precisão brutal — o tipo de ferramenta que separa palpite de ciência quando se desenha um fármaco. Some a isso laboratórios de biociências, nanotecnologia e bioinformática, e você tem a infraestrutura para fazer o caminho completo: achar a molécula, entendê-la e descobrir como fabricá-la.

O timing também conversa com uma virada mais ampla. Segundo o ministro Alexandre Padilha, o Brasil "agora faz parte de um seleto clube, dos poucos países do mundo que produzem insumos farmacêuticos", citando avanços recentes como a retomada da produção de insulina e o primeiro IFA de tacrolimo — um imunossupressor de transplantados — 100% brasileiro. O novo centro é a aposta de que dá para ir além de copiar o que já existe e passar a inventar moléculas novas.

Entre a promessa e o comprimido

Convém, porém, segurar a empolgação com uma dose de realismo. Desenvolver um IFA inédito a partir de uma planta e chegar ao comprimido na prateleira é um percurso de muitos anos, caro e cheio de becos sem saída — a maioria das moléculas promissoras não sobrevive aos testes. R$ 60 milhões financiam o começo da corrida, não a linha de chegada. E o próprio anúncio não cravou prazos: fala em "início de uma nova fase", que no vocabulário oficial pode significar tanto uma década quanto duas.

Ainda assim, a direção é a certa. Um país que depende de fora para 90% do que dá efeito aos seus remédios está a um solavanco cambial de ver o preço do tratamento explodir — e a uma crise internacional de faltar insumo básico. Plantar a semente da autonomia farmacêutica na própria floresta é, no mínimo, começar a resolver o problema pela raiz. Literalmente.

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