Seis em cada dez meninas faltam à aula com cólica — e o Brasil acabou de separar R$ 60 milhões para descobrir por quê

Seis em cada dez meninas faltam à aula com cólica — e o Brasil acabou de separar R$ 60 milhões para descobrir por quê

O CNPq abriu chamada pública para financiar pesquisa sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual. É a maior injeção de dinheiro que o tema já recebeu no país — e reconhece, com atraso, que "cólica forte" nunca foi só isso.

SaúdeCidade ·

Tem uma frase que qualquer mulher que já sofreu com cólica menstrual forte já ouviu pelo menos uma vez na vida: "é normal, toda mulher sente isso". É a versão médica do "deve ser coisa da sua cabeça" — só que travestida de conselho bem-intencionado.

Uma pesquisa de 2026 do Alana em parceria com o Instituto Equidade.info colocou números nessa frase que sempre soou incompleta. Seis em cada dez estudantes do ensino fundamental e médio que menstruam enfrentam cólicas fortes. Quatro em cada dez faltam às aulas mensalmente por causa da dor. E o impacto não para na escola: mulheres podem perder até 10,8 horas de trabalho por semana em razão de dor menstrual incapacitante.

Multiplique essas 10,8 horas por milhões de mulheres em idade produtiva e você não está mais falando de desconforto individual. Está falando de uma perda de produtividade em escala nacional que, até agora, ninguém tinha coragem — ou orçamento — de medir direito.

O que a chamada pública financia, de verdade

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação está colocando R$ 50 milhões na mesa. O grupo Alana entra com mais R$ 10 milhões. Total: R$ 60 milhões para criar uma rede nacional estruturante de pesquisa sobre o tema — não um punhado de bolsas avulsas, mas uma infraestrutura que deveria sobreviver ao próprio edital.

As inscrições vão até 12 de agosto de 2026 e o resultado sai em 2 de dezembro. Para se candidatar como responsável pela proposta, é preciso ter título de doutor, atuar como coordenador do projeto e ter vínculo formal com a instituição executora — o filtro padrão para garantir que o dinheiro chegue a quem tem estrutura para tocar pesquisa séria.

O edital organiza o financiamento em cinco eixos temáticos, que sozinhos já contam a história do que falta saber sobre a doença: causa e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositório e impacto social. Reparem que "causa" ainda está na lista de perguntas em aberto — depois de décadas de convivência da medicina com a endometriose, a origem exata do problema continua sendo, em boa parte, um mistério.

A chamada pública em números:

R$ 60 milhões no total (R$ 50 mi do MCTI + R$ 10 mi do Alana)
• Inscrições até 12 de agosto de 2026
• Resultado em 2 de dezembro de 2026
• 5 eixos: causa/prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositório, impacto social
• Pesquisas devem gerar soluções aplicáveis no SUS
6 em cada 10 estudantes que menstruam têm cólica forte
4 em cada 10 faltam à escola todo mês por dor menstrual

Por que "aplicável ao SUS" é a cláusula mais importante do edital

Um detalhe que passa despercebido em meio ao valor chamativo: o edital exige que as pesquisas mirem soluções que possam ser incorporadas ao SUS. Isso importa porque a endometriose, historicamente, tem sido tratada como doença de quem tem plano de saúde e acesso a especialista particular.

O diagnóstico costuma levar anos — em muitos relatos, entre 7 e 10 anos desde o início dos sintomas até a confirmação, um intervalo em que a paciente circula por diferentes médicos ouvindo variações de "é normal". Exames de imagem específicos e cirurgia laparoscópica, muitas vezes necessários para diagnóstico e tratamento definitivos, são caros e concentrados em grandes centros. Financiar pesquisa pensando no SUS é reconhecer que a solução não pode continuar dependendo do CEP de quem sente a dor.

Dor menstrual não é fraqueza, é sinal

O reflexo automático de naturalizar dor menstrual tem uma consequência concreta: atrasa o diagnóstico de uma doença que, sem tratamento, pode evoluir com aderências, comprometimento de órgãos pélvicos e infertilidade. A cólica "normal" é a que melhora com analgésico comum e não impede a rotina. A cólica que tira a estudante da sala de aula todo mês, ou a trabalhadora da função por horas seguidas, é sinal de alerta — não estatística de sorte.

Essa distinção parece óbvia escrita aqui. Na prática do consultório, ela se perdeu por gerações inteiras, porque ninguém tinha dados suficientes para bater de frente com o "sempre foi assim".

O que muda para quem sofre com isso hoje

Pesquisa financiada em 2026 não vira tratamento disponível amanhã — o prazo de resultado do próprio edital, dezembro deste ano, é só o começo de um processo que ainda passa por execução dos projetos, publicação e, na melhor das hipóteses, incorporação de protocolo ao SUS. Para quem convive com a dor agora, a orientação continua sendo procurar acompanhamento ginecológico e não aceitar "é normal" como resposta final quando a cólica interrompe a vida.

Mas R$ 60 milhões marcados para essa doença específica, com eixo de "impacto social" e obrigação de mirar o SUS, é o tipo de sinal que muda o que vem depois. Levou décadas para o Brasil admitir, com dinheiro público, que a dor menstrual de milhões de mulheres nunca foi rotina — era pergunta sem resposta.

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