0,0111%: o Brasil praticamente eliminou a hepatite B que passa de mãe para filho
A meta internacional é ficar abaixo de 0,1%. O país fechou 2025 quase dez vezes melhor que isso e já pediu certificação à Opas. É o segundo feito do tipo em oito meses — e a receita não tem nada de sofisticada: teste no pré-natal, vacina nas primeiras 12 horas de vida e atenção primária funcionando.
Notícia boa em saúde pública brasileira tem um problema estrutural: ela é chata. Não tem vilão, não tem escândalo, não tem imagem forte. É um número pequeno num relatório e uma sigla de organismo internacional.
Então vamos traduzir esse número antes de qualquer coisa. 0,0111% é a taxa de transmissão vertical da hepatite B no Brasil em 2025 — ou seja, a proporção de bebês que pegam o vírus da mãe durante a gestação ou o parto. O patamar internacional para considerar o problema eliminado como questão de saúde pública é abaixo de 0,1%.
O Brasil não chegou perto da meta. Chegou a quase um décimo dela.
O anúncio veio no Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais, celebrado em 28 de julho, e o país já protocolou o pedido de certificação internacional junto à Opas, a Organização Pan-Americana da Saúde.
Por que a hepatite B do bebê é diferente da do adulto
Aqui está o detalhe que faz esse número valer tanto, e que quase ninguém sabe: a hepatite B se comporta de forma radicalmente diferente conforme a idade em que a pessoa é infectada.
Um adulto que contrai o vírus tem alta probabilidade de resolver a infecção sozinho — o sistema imunológico identifica o invasor, briga, vence, e a pessoa fica curada e imune. Cerca de 90% a 95% dos casos em adultos evoluem assim.
Com o recém-nascido acontece o oposto quase perfeito. O sistema imune do bebê ainda não sabe distinguir direito o que é dele e o que é invasor, e o vírus da hepatite B se aproveita disso para se instalar sem levantar alarme. Cerca de 90% dos bebês infectados ao nascer desenvolvem infecção crônica — para a vida inteira.
E infecção crônica pela hepatite B significa décadas de inflamação silenciosa no fígado, com risco substancial de cirrose e de carcinoma hepatocelular na vida adulta. O câncer de fígado que aparece aos 45 anos pode ter começado com uma infecção adquirida na primeira hora de vida, sem sintoma nenhum no caminho.
Por isso a transmissão vertical é o alvo prioritário. Evitar uma infecção no parto é evitar uma doença crônica de 60 anos.
• Taxa de transmissão vertical em 2025: 0,0111% (meta internacional: <0,1%)
• Crianças menores de 5 anos com infecção ativa por HBV nos últimos 2 anos: menos de 0,1%
• Cobertura de pré-natal: acima de 98% (meta: 95%)
• Vacinação contra hepatite B em recém-nascidos: 97% em 2024 e 100% em 2025 (meta mínima: 90%)
• Certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV: obtida em dezembro de 2025
• Próximas metas até 2030: sífilis, doença de Chagas, HTLV e hepatite B
A receita: quatro coisas, nenhuma delas cara
O que impressiona nesse resultado é a completa ausência de tecnologia de ponta. Não teve inteligência artificial, não teve terapia gênica, não teve equipamento importado. Teve rotina bem executada em escala continental.
1. Testagem no pré-natal. Toda gestante deve ser testada para hepatite B. O Brasil passou de 98% de cobertura pré-natal entre 2024 e 2025, superando a meta de 95%.
2. Tratamento antiviral na gestação quando necessário. Gestante com carga viral alta recebe antiviral no terceiro trimestre, o que reduz drasticamente a chance de o vírus passar para o bebê.
3. Vacina nas primeiras 12 horas de vida. Esta é a peça central. A primeira dose da vacina contra hepatite B é dada ainda na maternidade, idealmente na primeira hora. A cobertura em recém-nascidos foi de 97% em 2024 e chegou a 100% em 2025.
4. Imunoglobulina para o bebê de mãe infectada. Quando a mãe é portadora, o bebê recebe também a imunoglobulina específica (HBIG), que oferece anticorpos prontos enquanto a vacina não faz efeito. Vacina mais imunoglobulina nas primeiras horas evitam a esmagadora maioria das transmissões.
Quatro medidas simples, aplicadas de forma teimosa em milhões de partos por ano, em maternidade de capital e em hospital de município de 8 mil habitantes. Como resumiu o ministro Alexandre Padilha, "a recuperação dos investimentos na atenção primária foi decisiva" para o resultado.
Segunda certificação em oito meses
Este não é um caso isolado. Em dezembro de 2025, o Brasil já havia recebido certificação internacional pela eliminação da transmissão vertical do HIV — outro feito que ficou proporcionalmente pouco comentado para o tamanho que tem. O país assumiu ainda o compromisso de eliminar, até 2030, a transmissão vertical de sífilis, doença de Chagas, HTLV e hepatite B.
Vale registrar uma ressalva honesta: das quatro, a sífilis congênita é hoje a mais distante da meta e vem sendo um problema persistente no país, apesar de ser evitável com penicilina benzatina — um antibiótico dos anos 1940 que custa poucos reais. Comemorar a hepatite B não apaga essa pendência.
O que isso significa para você
Se a leitura parou aqui achando que é assunto só de gestante, uma correção: a hepatite B crônica existe em milhões de brasileiros adultos que nunca fizeram o teste. A maioria dos infectados não tem sintoma nenhum por décadas. Descobre-se por acaso, num exame pré-operatório, numa doação de sangue — ou tarde demais, já com o fígado comprometido.
• Teste rápido gratuito em qualquer UBS, resultado em cerca de 30 minutos
• Vacina gratuita no SUS para todas as idades, sem limite — 3 doses
• Transmissão: sangue, relação sexual sem preservativo e da mãe para o bebê
• Não se transmite por abraço, talher, copo, comida ou picada de mosquito
• Compartilhar alicate de unha, lâmina, escova de dente e material de tatuagem transmite
• Existe tratamento gratuito no SUS que controla o vírus e previne cirrose e câncer
• Se você nasceu antes de 1992, provavelmente não foi vacinado na infância — verifique
Existe uma vacina que previne câncer de fígado, é gratuita, está disponível para qualquer pessoa de qualquer idade em qualquer posto de saúde do Brasil, e a maioria dos adultos brasileiros não tomou. As três doses estão te esperando desde sempre.
Nos recém-nascidos, o país acabou de provar que sabe fazer isso quase à perfeição. O trabalho que falta agora é com os adultos — que, ao contrário dos bebês, precisam decidir ir.
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