O sarampo, doença que o Brasil já tinha eliminado, voltou a bater à porta de São Paulo

O sarampo, doença que o Brasil já tinha eliminado, voltou a bater à porta de São Paulo

Quinze casos confirmados no estado em 2026, concentrados em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo. A cobertura vacinal que deveria estar em 95% mal passa dos 77%. A resposta começou nesta segunda-feira, e ela tem nome: multivacinação.

SaúdeCidade ·

Existe uma categoria de notícia que dá um arrepio específico em quem trabalha com saúde pública: a doença que já tínhamos vencido, voltando pela porta dos fundos. O sarampo é o campeão nacional dessa categoria. O Brasil recebeu o certificado de eliminação da Organização Pan-Americana da Saúde em 2016. Perdeu esse status em 2019. E agora, em pleno 2026, São Paulo confirma 15 casos — concentrados em três cidades que, juntas, formam um dos maiores adensamentos populacionais do país.

Os municípios afetados são São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo. Não é coincidência que sejam justamente ali que a cobertura vacinal andou capenga nos últimos anos.

Traduzindo o burocratês da vigilância epidemiológica: o vírus do sarampo não inventou nada de novo. Ele só está fazendo o que sempre fez — encontrar o primeiro bolsão de gente não vacinada e se instalar. O problema é que, num país de 213 milhões de habitantes com fronteiras abertas e aeroportos internacionais, esse bolsão nunca fica isolado por muito tempo.

Por que 77% de cobertura é um número assustador

Aqui está o detalhe que separa o sarampo de praticamente qualquer outra doença: ele é a mais contagiosa que a humanidade conhece. Um único infectado, num ambiente fechado sem ninguém vacinado, transmite para em média 12 a 18 pessoas. Para comparação, a gripe transmite para 1 a 2.

Essa contagiosidade monstruosa é exatamente por que a meta de cobertura vacinal não é 90%, nem 93%. É 95%, para as duas doses da tríplice viral. Abaixo disso, existe gente suficiente sem proteção para o vírus circular e criar cadeias de transmissão sustentadas — não é mais "um caso isolado importado", vira surto.

Em 2026, São Paulo está em 77,5% na primeira dose e 65,5% na segunda. Bem abaixo do platô de segurança. E o retrato municipal de 2025 mostra por que os três focos apareceram exatamente ali: Guarulhos com 91,59% (D1) e 83,90% (D2), São Bernardo com 90,84% e 83,62%, a capital com 90,79% e 83,63%. Números que parecem bons até você lembrar que a régua de corte é 95%, não 90%.

O tamanho do problema:

15 casos confirmados de sarampo em São Paulo em 2026
• Meta de cobertura vacinal: 95% para D1 e D2
• Cobertura estadual 2026: 77,5% (D1) e 65,5% (D2)
• Cobertura nacional 2025: 92,9% (D1) e 78,3% (D2)
• Um infectado sem controle transmite para 12 a 18 pessoas
• Campanha de multivacinação: 3 de agosto a 1º de setembro

A resposta: vacinar tudo que se move, e de novo

Foi por isso que, nesta segunda-feira, o Brasil inteiro começou a Campanha Nacional de Multivacinação, com duração até 1º de setembro. Não é uma campanha temática de uma vacina só — é uma varredura ampla, oferecendo de uma vez tríplice viral, BCG, hepatite B, pentavalente, poliomielite, rotavírus, pneumocócica, meningocócica, influenza, covid-19, febre amarela, varicela, DTP, hepatite A e HPV.

Em São Paulo, a resposta tem uma camada extra. A campanha cobre os 645 municípios paulistas para menores de 15 anos, mas nos três focos identificados — capital, Guarulhos e São Bernardo — a faixa de vacinação foi ampliada para toda a população entre 6 e 59 anos. Isso inclui gente que, em condições normais, já teria a caderneta completa há décadas, mas que pode ter ficado de fora por algum motivo — mudança de cidade, perda de registro, hesitação vacinal.

Como resumiu Tatiana Lang, da secretaria estadual de Saúde, a atualização da caderneta é fundamental para proteger a população contra o retorno de doenças que o Brasil já havia controlado. Não é retórica de posto de saúde: é a diferença entre um caso isolado e um surto que fecha escola.

O sarampo não é "só uma erupção de pele"

Existe uma percepção equivocada, especialmente entre quem nunca viu um caso de perto, de que sarampo é febre com manchinha vermelha que passa em uma semana. Na maioria das vezes, é isso mesmo. O problema é a minoria.

O sarampo pode causar pneumonia, encefalite (inflamação do cérebro) e, em casos raros, morte — principalmente em crianças pequenas, gestantes e imunossuprimidos. Ele também tem um efeito colateral pouco conhecido e assustador: o chamado "apagão imunológico", em que o vírus destrói parte da memória do sistema imune contra outras doenças que a pessoa já havia enfrentado antes. Quem se recupera do sarampo pode ficar, por meses, mais vulnerável a outras infecções comuns.

Não é exagero dizer que vacinar contra sarampo protege contra mais do que sarampo.

O que fazer com a sua caderneta

Se você nasceu depois de 1960 e não sabe ao certo se tomou as duas doses da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), a recomendação é simples: procure a UBS mais próxima e regularize. A vacina está disponível gratuitamente durante toda a campanha — e, na prática, o SUS oferece essas doses o ano inteiro, campanha ou não.

Para quem tem filhos pequenos, o calendário infantil prevê a primeira dose da tríplice viral aos 12 meses e a segunda (na forma de tetra viral, com catapora) aos 15 meses. Atrasar essas doses, mesmo que pareça um detalhe administrativo, é abrir uma janela para o vírus.

O Brasil já provou, em 2016, que sabe eliminar o sarampo. A pergunta que os números de São Paulo colocam sobre a mesa agora é se o país ainda lembra como se faz isso — ou se vai precisar reaprender, caso a caso, cidade a cidade.

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