Quase mil médicos agredidos no Rio em sete anos — e a maioria das vítimas é mulher

Quase mil médicos agredidos no Rio em sete anos — e a maioria das vítimas é mulher

Dados do Cremerj registram 987 casos de violência contra médicos entre 2018 e 2025. A agressão verbal lidera, mas a física não some. E há 89 episódios em que alguém entrou num hospital e bateu numa pessoa de jaleco.

SaúdeCidade ·

Você já entrou numa emergência cheia, esperou horas e teve vontade de gritar com alguém? Provavelmente sim. A diferença entre essa vontade e os números que o Cremerj acabou de publicar é que, no Rio de Janeiro, em sete anos, 987 pessoas converteram a vontade em ato — e a outra ponta da conversa era um médico ou uma médica.

O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro divulgou nesta semana o levantamento que cobre 2018 a 2025. São 459 agressões verbais, 208 episódios de assédio moral e 89 agressões físicas dentro de unidades de saúde. Em encontro com o Conselho Federal de Medicina realizado em 5 de maio, o tema foi tratado pelo que é: uma crise de segurança do trabalho que ninguém quer encarar.

A maioria das vítimas, segundo o relatório, é composta por médicas mulheres. Não é detalhe. É padrão.

O que esses números querem dizer, em português claro

Setecentos e dezessete dos 987 casos aconteceram em unidades públicas. Outros 270, em particulares. A leitura fácil seria culpar o SUS pela superlotação que estressa todo mundo. A leitura honesta é que o SUS atende a maior parte da população, e por isso concentra mais episódios — mas a violência também acontece onde o paciente paga plano caro e ainda assim quer descontar a frustração em alguém de bata branca.

O dado mais cru é o das 89 agressões físicas. Significa que, em média, mais de uma vez por mês, um cidadão entrou num hospital, num posto, numa clínica do Rio e encostou a mão em quem estava atendendo. Empurrou. Bateu. Em alguns casos, esperou no estacionamento.

Por que "agressão verbal" não é mimimi

É comum reduzir a agressão verbal a "ah, mas foi só um xingamento". O problema é que 459 episódios formais de xingamento, ao longo de sete anos, num único estado, não cabem mais no rótulo de "estresse de plantão". Vira ambiente de trabalho. E ambiente de trabalho que normaliza grito termina convertendo grito em soco.

Os 208 casos de assédio moral entram na mesma chave. São situações em que pacientes, acompanhantes ou superiores hierárquicos transformaram o expediente da médica numa rotina de humilhação. Comentário sobre aparência. Sobre idade. Sobre competência. Sobre cor. Sobre voz. O recado é o mesmo: o consultório é território público, e quem está atendendo precisa engolir.

Violência contra médicos no RJ — números do Cremerj (2018–2025):

987 casos de agressão registrados em sete anos
459 agressões verbais
208 casos de assédio moral
89 agressões físicas em unidades de saúde
717 ocorrências em unidades públicas, 270 em privadas
• Maioria das vítimas: médicas mulheres
• Levantamento divulgado em maio de 2026 por Cremerj e CFM

Antônio Braga Neto, presidente do Cremerj, foi direto: "Estamos falando de profissionais na linha de frente. É absolutamente inaceitável que médicas sejam vítimas de violência física dentro de unidades de saúde." Tradução: o fato de a maioria das agredidas ser mulher não é coincidência demográfica — é sintoma de quem o agressor escolhe atacar quando decide atacar.

O recorte de gênero que ninguém quer ler

Mais de 60% dos médicos formados no Brasil hoje são mulheres. A medicina está se feminilizando há quase duas décadas. Mas as estatísticas de violência contra profissionais de saúde continuam recaindo desproporcionalmente sobre elas — e isso é coerente com tudo que se sabe sobre violência de gênero em qualquer outro setor.

A médica é desautorizada antes mesmo de abrir a boca. Pacientes pedem para falar com "o doutor de verdade". Acompanhantes interrompem. Superiores cortam a palavra. E quando a frustração transborda, o corpo da mulher é o alvo mais fácil — porque o agressor calcula, mesmo que sem saber que calcula, que terá menos resistência.

Por que isso é problema de saúde pública (não só dos médicos)

Médico agredido vira médico que pede demissão, médico que muda de área, médico que evita o plantão noturno, médico que entra na consulta esperando o pior. E médico desestabilizado erra mais. A literatura internacional sobre violência em saúde é farta nesse ponto: ambientes hostis aumentam erro clínico, encurtam tempo de consulta e empurram profissionais para fora do sistema público — onde o problema é maior.

O Brasil já tem dificuldade de fixar especialistas no SUS. Em UBS de periferia, em interior, em emergências de hospital geral, a rotatividade é gigantesca. Adicionar agressão à equação é entregar para o sistema privado o profissional que o público formou.

O que o Cremerj e o CFM estão pedindo

O encontro do dia 5 de maio entre Cremerj e CFM colocou três pontos na pauta: protocolos de notificação obrigatória de agressão dentro do SUS, presença de segurança em emergências de alta demanda e responsabilização criminal mais rápida do agressor. Não há, hoje, lei específica nacional que tipifique agressão a profissional de saúde como crime de pena mais dura — apesar de mais de uma proposta tramitar no Congresso.

Enquanto isso, médicas continuam ouvindo, entre uma consulta e outra, que sua função é "se acalmar e atender". A função delas é atender. A função do paciente, do acompanhante e do gestor é não bater. Parece óbvio até virar estatística.

Quase mil médicos foram agredidos no Rio em sete anos. A maioria mulheres. A maioria em hospital público. E o que muda no fim do mês, depois do levantamento divulgado, não é a estatística — é se alguém vai parar de tratar a violência contra quem trata como um problema individual de quem está de jaleco.

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