27 milhões de brasileiros têm enxaqueca e não sabem — a dor que passa sem diagnóstico

27 milhões de brasileiros têm enxaqueca e não sabem — a dor que passa sem diagnóstico

Nova pesquisa estima que metade dos casos de enxaqueca no Brasil nunca foi diagnosticada. Nordeste, jovens e classes C, D e E são os mais afetados. O tratamento mais comum é ignorar a dor e tomar analgésico sem receita.

SaúdeCidade ·

Você provavelmente conhece alguém que "tem dor de cabeça toda hora". Que cancela compromisso, fecha a janela, some por um dia inteiro. Que toma dipirona como se fosse vitamina e diz que "é só enxaqueca, passa". Há uma boa chance de que essa pessoa tenha uma doença neurológica crônica sem diagnóstico, sem tratamento preventivo e sem nenhuma orientação médica — só analgésico, escuridão e espera.

Uma pesquisa conduzida pela farmacêutica Teva Brasil em parceria com a ABRACES (Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca) entrevistou 2.000 pessoas no Brasil e chegou a um número que diz muito sobre como o sistema de saúde trata a enxaqueca: 23 milhões têm diagnóstico confirmado; outros 27 milhões podem ter a doença sem nunca ter recebido esse diagnóstico. São 50 milhões de brasileiros potencialmente afetados — e metade deles não sabe o que tem.

Por que a enxaqueca é tão subdiagnosticada

A enxaqueca é uma doença neurológica, não "uma dor de cabeça forte". A distinção importa porque muda como se trata. A enxaqueca tem gatilhos, padrão de crise, fases (pródromo, aura, crise, pós-droma), e responde a medicamentos específicos — tanto para abortar a crise quanto para preveni-la. Uma pessoa que toma dipirona para enxaqueca não está tratando enxaqueca; está abafando a dor sem tocar no mecanismo subjacente.

O subdiagnóstico tem razões múltiplas. A dor é invisível — ninguém vê, e quem não tem enxaqueca frequentemente não acredita na intensidade. A pessoa normaliza as crises, acha que todo mundo tem isso. Consultar especialista (neurologista, cefaliatra) exige tempo, acesso a plano de saúde ou fila no SUS. E quando chega no médico, às vezes recebe só o famoso "tome analgésico e descanse" — que é tecnicamente correto para crise aguda leve, mas não é tratamento para quem tem crises frequentes.

Quem mais sofre — e mais silencia

Os dados da pesquisa mostram o padrão usual das doenças crônicas no Brasil: quem tem menos acesso sofre mais e trata menos. Setenta por cento dos diagnosticados não fazem acompanhamento médico regular. Sessenta e quatro por cento automedicam sem receita. E entre os que não têm diagnóstico, 80% pertencem às classes C, D e E.

A doença afeta desproporcionalmente mulheres — 75% dos diagnosticados são mulheres, reflexo das variações hormonais ao longo da vida fértil que influenciam diretamente a atividade cerebral, como explica Mario Peres, coordenador da ABRACES. O Nordeste concentra a maior proporção de casos sem diagnóstico: 35% dos entrevistados da região não têm confirmação médica — nove pontos percentuais acima da média nacional.

Enxaqueca no Brasil — Radar ABRACES/Teva 2025:

50 milhões de brasileiros potencialmente afetados
23 milhões com diagnóstico confirmado
27 milhões estimados sem diagnóstico
• Duração média de crise: 15 horas
• Escala de dor média: 5,9 de 10 — e 35% relatam "a pior dor que podem imaginar"
70% dos diagnosticados sem acompanhamento médico regular
64% automedicam sem receita
36% continuam trabalhando durante a crise com medo de represálias
• Nordeste: 35% dos afetados sem diagnóstico (vs. 26% de média nacional)

O que a crise de enxaqueca custa — sem que ninguém contabilize

Sessenta por cento dos afetados relatam queda de produtividade no trabalho ou nos estudos durante as crises. Oitenta por cento perdem eventos familiares e sociais. Trinta e seis por cento continuam trabalhando durante a crise com medo de represálias do empregador. Esse custo invisível raramente aparece em planilha de saúde pública — a enxaqueca não mata, então não vira estatística de mortalidade; não hospitaliza em massa, então não sobrecarrega a UTI de forma visível. Ela apenas corrói, semana após semana, a qualidade de vida de 50 milhões de pessoas.

Para comparação: o custo indireto da enxaqueca — faltas, queda de produtividade, tratamento de emergência em crise — é um dos maiores entre todas as doenças neurológicas no mundo, segundo a OMS. No Brasil, onde metade dos casos nem tem diagnóstico e a maioria não tem tratamento preventivo, esse custo é ainda mais alto. Só que ele sai do bolso do paciente e da sua vida, não do orçamento do Ministério da Saúde.

O que a medicina tem a oferecer — quando acessa o paciente

Para quem tem enxaqueca frequente (mais de quatro crises por mês, ou crises muito incapacitantes), existe tratamento preventivo eficaz. A classe mais nova são os anticorpos monoclonais anti-CGRP — fremanezumabe, erenumabe, galcanezumabe —, que reduzem a frequência das crises em 50% ou mais em boa parte dos pacientes. Nenhum deles está disponível no SUS. O preço mensal no setor privado gira em torno de R$ 800 a R$ 1.500.

Para a maioria dos 27 milhões sem diagnóstico, essa conversa é acadêmica: o primeiro passo seria conseguir um diagnóstico diferencial com neurologista ou médico treinado em cefaleia, e esse passo já tem fila. O sistema de saúde trata a enxaqueca como reclamação, não como doença. Enquanto isso, 15 horas de crise, fechado no quarto no escuro, com a família pedindo silêncio e o chefe enviando mensagem — essa é a realidade de metade dos 50 milhões.

Ignorar não é tratamento. É só o que sobra quando não há outro caminho.

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