A covid matou 700 mil brasileiros sem que houvesse um "bombeiro" de epidemias — o Brasil vai criar um

A covid matou 700 mil brasileiros sem que houvesse um "bombeiro" de epidemias — o Brasil vai criar um

O governo vai estruturar até o fim de 2026 o Centro Brasileiro de Emergências em Saúde Pública, sediado na Fiocruz, para monitorar e responder a epidemias, surtos e crises climáticas. A ideia é trocar o reflexo nacional de só correr quando a casa já está pegando fogo por algo raro por aqui: prevenção permanente.

SaúdeCidade ·

Existe um jeito brasileiro de lidar com catástrofe sanitária: esperar ela chegar, entrar em pânico, improvisar no susto e, quando passa, esquecer tudo até a próxima. Foi assim com a covid — que deixou mais de 700 mil mortos no país, cerca de 10% de todas as mortes do mundo pela doença — e o governo agora quer quebrar esse ciclo com uma estrutura permanente.

Trata-se do Centro Brasileiro de Emergências em Saúde Pública (Cbesp), que deve ser oficialmente criado até o fim de 2026, com operação prevista para 2027. A função, em uma frase: ser o corpo de bombeiros das epidemias — a estrutura que vigia a fumaça antes de o incêndio começar, em vez de só chegar com a mangueira quando o telhado já caiu.

Por que isso nasce agora

A memória da covid é o pano de fundo óbvio. Mas não é só ela. Os anos de 2024 a 2026 foram um teste de estresse atrás do outro para o sistema de saúde: epidemias de dengue simultâneas, surtos de mpox e oropouche, e a ameaça constante da gripe aviária batendo na porta. Cada uma dessas crises chegou e encontrou o país montando a resposta às pressas, do zero, como quem nunca tivesse passado por aquilo antes.

O recado da pandemia foi duro: faltou coordenação entre União, estados e municípios, sobrou desinformação científica, e o preço veio em vidas. Um centro permanente existe justamente para que a inteligência acumulada numa crise não evapore quando ela acaba.

Como vai funcionar

O Cbesp será ligado ao SUS e ao Ministério da Saúde, e ficará sediado administrativamente na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — o que faz sentido, já que a Fiocruz é o cérebro científico da saúde pública brasileira há mais de um século. O modelo é de rede: em vez de um prédio isolado, uma teia conectando secretarias estaduais e municipais, universidades e institutos de pesquisa.

O que será o Centro Brasileiro de Emergências em Saúde Pública (Cbesp):

• Criação prevista até o fim de 2026; operação em 2027
• Sede administrativa na Fiocruz, ligado ao SUS e ao Ministério da Saúde
• Modelo em rede: estados, municípios, universidades e institutos
• Funções: monitorar riscos, prevenir surtos e coordenar resposta rápida
• Inteligência epidemiológica permanente, não improvisada na crise
• Financiamento: Orçamento da União, convênios internacionais e receita própria

A ideia é manter uma inteligência epidemiológica permanente — gente vigiando dados, detectando sinais cedo e coordenando a resposta — em vez do modelo atual, em que cada surto remonta a estrutura na correria. Como resumiu Gerson Penna, diretor do instituto envolvido, "uma estrutura permanente com foco em prevenção, preparação e resposta vai ajudar o Brasil a reagir mais rapidamente às crises".

O elo entre clima e epidemia

Um ponto que merece destaque é a inclusão explícita das crises climáticas no escopo do centro. Não é modismo: dengue, chikungunya e zika avançam com o calor e as chuvas fora de hora; ondas de calor matam; enchentes espalham leptospirose. Clima e epidemia deixaram de ser assuntos de pastas separadas — o Cbesp nasce já assumindo que coordenar saúde, meio ambiente, agricultura e ciência é parte do trabalho.

Entre o anúncio e a entrega

Vale o ceticismo saudável. O Brasil tem um histórico de anunciar estruturas robustas que depois minguam por falta de orçamento ou de vontade política — e o financiamento do Cbesp depende, em boa parte, do Orçamento da União, esse senhor de humor instável. Centro no papel não salva ninguém; centro com verba, equipe e autonomia, sim.

Mas a direção é a correta. Prevenir epidemia é como pagar seguro: parece dinheiro jogado fora até o dia em que a casa pega fogo — e aí você descobre que sair barato era ter o bombeiro de prontidão. O Brasil pagou 700 mil vezes para aprender essa lição. Que pelo menos dessa vez ele não rasgue o boleto.

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