Depressão e ansiedade já são o 2º motivo de afastamento do trabalho no Brasil
2025 bateu o recorde da década em licenças por transtorno mental. E o país investe só 2% do orçamento de saúde nisso — um quinto do que países europeus destinam.
Se você conhece alguém que tirou licença do trabalho por ansiedade ou depressão nos últimos meses, não é coincidência estatística. É tendência nacional, e ela está em curva ascendente há anos.
O Brasil registrou em 2025 o maior número de afastamentos por transtornos mentais em uma década, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão juntas cresceram 15% em relação a 2024 e já são o segundo maior motivo de licença do país — perdendo apenas para doenças da coluna, que reinam há anos no topo do ranking por razões mais óbvias (são físicas, visíveis, fáceis de atestar).
O que muda agora é que o sofrimento invisível alcançou a dor nas costas. E o sistema de saúde mental brasileiro não estava — e ainda não está — pronto para isso.
Por que agora, especificamente
Rodrigo Martins Leite, psiquiatra e professor do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq/FMUSP), aponta a raiz do problema sem rodeios: "A necessidade de adaptação às demandas sociais é crescente. Existe uma sensação natural de desadequação, fruto de um aumento excessivo da carga de trabalho."
Andrés Antúnez, professor de Psicologia Clínica também na USP, completa o quadro: "As pessoas não têm mais tempo para lazer, para atividade física, para vida comunitária. Tudo isso acaba tendo peso e gera adoecimento mental." Tradução: não é frescura, é sobrecarga sistêmica — e o corpo (porque ansiedade e depressão são, sim, condições do corpo) está cobrando a conta.
Some a isso a hipermedicalização das redes sociais, onde qualquer oscilação de humor vira autodiagnóstico de TDAH ou transtorno bipolar antes de passar por um profissional, e você tem uma geração simultaneamente mais consciente da saúde mental e mais confusa sobre o que, de fato, precisa de tratamento.
A conta em dias de trabalho perdidos — e em dólares
A Organização Internacional do Trabalho calcula 45 milhões de DALYs (anos de vida ajustados por incapacidade) perdidos anualmente por transtornos mentais. Em escala global, depressão e ansiedade somam 12 bilhões de dias úteis perdidos por ano — um custo estimado em US$ 1 trilhão para a economia mundial.
No Brasil, a Organização Mundial da Saúde estima que 18,6% da população convive com algum transtorno de ansiedade — quase um em cada cinco brasileiros. Não é exagero de internet. É o país com uma das maiores prevalências de ansiedade do planeta.
• +15% em afastamentos por ansiedade e depressão vs. 2024
• 2º maior motivo de licença do país, atrás só de doenças da coluna
• 18,6% dos brasileiros convivem com transtorno de ansiedade (OMS)
• 12 bilhões de dias úteis perdidos por ano no mundo por depressão/ansiedade
• Orçamento brasileiro de saúde mental: apenas 2% do total da saúde
• Verba caiu de R$ 15,6 bi para R$ 10,2 bi em 2025 — recuo de 34,7%
Dois por cento — o número que explica tudo
Aqui está o contraste que deveria constranger quem decide orçamento público: enquanto países europeus destinam entre 5% e 8% do orçamento total de saúde à saúde mental, o Brasil investe 2%. E em vez de crescer para acompanhar a demanda, a verba encolheu — de R$ 15,6 bilhões para R$ 10,2 bilhões em 2025, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Uma queda de 34,7% justamente no ano em que os afastamentos bateram recorde.
Antúnez não disfarça a indignação calculada: "Não é possível fazer saúde com 2% do orçamento público sendo destinado para a saúde mental." É aritmética básica — você não trata uma epidemia crescente com um orçamento que diminui.
Quem fica para trás nessa conta
O acesso a tratamento no Brasil é, como em quase tudo na saúde, desigual entre quem paga plano e quem depende do SUS. Quem tem plano de saúde consegue psiquiatra e psicólogo com relativa rapidez. Quem depende da rede pública enfrenta filas nos CAPS, escassez de psiquiatras e uma oferta de psicoterapia gratuita que não chega perto da demanda.
A reportagem também aponta lacunas específicas: ausência de política formal de prevenção ao suicídio e falta de programas voltados à população idosa, que envelhece rápido no Brasil e carrega um sofrimento mental frequentemente ignorado por ser confundido com "coisa da idade".
O trabalho não vai parar de cobrar. A pergunta é se o orçamento da saúde mental vai, algum dia, parar de encolher diante de uma curva que só sobe.
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