47 mil pessoas esperam um órgão no Brasil — e um exame de minutos pode evitar que corações bons sejam jogados fora
A Câmara aprovou um projeto que prevê ecocardiograma nos doadores de órgãos quando houver indicação clínica. A ideia é simples e a fila é longa: avaliar bem o coração nas primeiras horas evita que um órgão aproveitável seja descartado por falta de exame.
Existe um desperdício na medicina de transplantes que ninguém vê acontecer, porque ele acontece no silêncio de uma UTI, de madrugada, contra o relógio. Um possível doador tem morte encefálica confirmada. A família autoriza. E então, na correria de avaliar se aquele coração serve para alguém na fila, falta o exame que daria a resposta com segurança. Na dúvida, descarta-se. Um órgão que talvez salvasse uma vida vai embora por falta de uma imagem.
É esse buraco que um projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados quer fechar. O texto prevê a realização de ecocardiograma — o ultrassom do coração — em potenciais doadores de órgãos "sempre que houver indicação clínica e condições técnicas disponíveis". Parece detalhe burocrático. Para quem está na fila do transplante de coração, é a diferença entre o telefone tocar e não tocar.
A fila não é abstração — são 47 mil pessoas
Para entender por que um exame vira lei, é preciso olhar o tamanho da espera.
• Cerca de 47 mil pessoas aguardando um órgão na fila
• 14.904 transplantes realizados só no 1º semestre de 2025 — crescimento de 21% em três anos
• Apenas 55% das famílias autorizam a doação após a morte encefálica
• Meta do Ministério da Saúde: derrubar a recusa familiar de 45% para 10%
Fontes: Sistema Nacional de Transplantes e Ministério da Saúde (2025).
Repare no detalhe mais cruel desses números: quase metade das famílias diz não. Ou seja, cada doador que de fato chega ao sistema é raro — passou pela morte encefálica confirmada e por um "sim" da família num dos piores momentos da vida dela. Jogar fora um órgão desse doador por falta de avaliação adequada é desperdiçar um recurso que já era escasso de saída.
Por que o coração precisa do ultrassom — e rápido
O coração de um doador em morte encefálica passa por uma tempestade. A morte do cérebro desencadeia uma cascata de alterações que pode bagunçar temporariamente o funcionamento cardíaco. Sem olhar para dentro do órgão, a equipe não sabe se aquele coração está realmente comprometido ou só passando por um abalo passageiro e reversível.
O ecocardiograma é esse olhar para dentro: mostra como o músculo bombeia, se há lesão, se o órgão tem condição de ser transplantado. Segundo o autor do projeto, o deputado Zacharias Calil, o exame é "fundamental nas primeiras horas após o diagnóstico de morte encefálica" — justamente para proteger quem vai receber o órgão e para não descartar um coração que ainda servia.
O bom senso de não obrigar todo mundo a tudo
Aqui o projeto fez algo raro na legislação brasileira: não exagerou na dose. Em vez de criar uma obrigação universal e imediata, o texto valoriza o exame "sempre que houver indicação clínica e condições técnicas". O relator, deputado Osmar Terra, foi explícito ao dizer que uma exigência universal "geraria dificuldades em hospitais menores".
Faz sentido. Um hospital de interior pode não ter ecocardiografista de plantão às 3h da manhã. Por isso o texto também libera o exame por telemedicina, com laudo eletrônico assinado digitalmente e imagem arquivada para rastreabilidade — um especialista a distância lê o exame feito na ponta. É a tecnologia tampando o buraco da geografia, em vez de fingir que todo hospital do país é igual ao da capital.
Ainda não é lei — e isso importa
Antes de comemorar, o aviso de sempre: aprovação na Câmara não é o fim da linha. O projeto ainda passa pelas comissões de Finanças e de Constituição e Justiça, e precisa do aval do Senado para virar lei. Se chegar lá, os hospitais terão 30 dias para se ajustar.
É pouco para mudar a vida de quem está na fila amanhã. Mas mexe num ponto certo: num sistema em que o doador é raro e a família que autoriza é mais rara ainda, não dá para perder órgão bom por falta de exame. A fila de 47 mil pessoas não precisa só de mais "sim" — precisa que cada "sim" seja aproveitado até o fim.
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