R$ 60 milhões para pesquisar a dor que 1 em cada 10 mulheres sente
O governo e o Instituto Alana vão financiar estudos sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual — temas que afetam milhões e que a ciência historicamente ignorou. A frase que resume o problema: o que não é pesquisado, não é compreendido. E o que não é compreendido, não é tratado.
Quantas mulheres você conhece que passaram anos ouvindo que cólica forte "é normal", que "toda mulher sente", que era "frescura" ou "coisa da cabeça" — até descobrirem, tarde, que tinham endometriose? Essa cena se repete em consultórios do Brasil inteiro há décadas. Não porque os médicos sejam vilões, mas porque a ciência simplesmente não estudou direito a dor das mulheres. Isso começa, enfim, a mudar.
No dia 9 de junho, em Brasília, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Instituto Alana anunciaram R$ 60 milhões para financiar pesquisas em saúde da mulher. O dinheiro tem endereço claro: endometriose, dor pélvica e saúde menstrual — exatamente os campos que sempre ficaram no fim da fila do orçamento da pesquisa.
Para onde vai o dinheiro
A divisão é direta. R$ 50 milhões sairão do CNPq, o conselho nacional de pesquisa, distribuídos por meio de editais de pesquisa e inovação. Os outros R$ 10 milhões vêm do Instituto Alana e vão bancar a criação de uma rede nacional de pesquisa em saúde da mulher — ou seja, não é só pagar estudos soltos, é conectar grupos pelo país para que parem de trabalhar isolados.
Três frentes concentram o foco: o diagnóstico e o tratamento da endometriose, a pesquisa sobre dor pélvica crônica e a saúde menstrual. Não por acaso: são justamente as áreas onde a paciente brasileira mais ouve "não sei o que você tem" depois de peregrinar por médicos.
O tamanho do problema que ninguém via
A endometriose é a estrela dessa lista por um motivo numérico: ela atinge cerca de 10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Uma em cada dez. Não é doença rara — é doença comum tratada como rara, o que talvez seja pior.
Na endometriose, um tecido parecido com o que reveste o útero cresce fora dele, provocando uma reação inflamatória crônica. O resultado é dor — às vezes incapacitante —, sangramento e, com frequência, dificuldade para engravidar. E aqui está o escândalo silencioso: a mulher média leva anos entre o primeiro sintoma e o diagnóstico, somando consultas, exames e a sensação humilhante de não ser levada a sério.
• R$ 60 milhões no total (MCTI + Instituto Alana)
• R$ 50 milhões via CNPq, em editais de pesquisa e inovação
• R$ 10 milhões do Instituto Alana para uma rede nacional de pesquisa
• Foco: endometriose, dor pélvica e saúde menstrual
• Endometriose atinge ~10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva (OMS)
Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação / Instituto Alana.
"O que não é pesquisado, não é compreendido"
A CEO do Instituto Alana, Flavia Doria, resumiu o problema numa frase que merece ficar: "o que não é pesquisado não é compreendido; o que não é compreendido não é tratado". É a explicação mais honesta para o atraso histórico. Não é que a medicina não consiga tratar a endometriose — é que ela investiu pouquíssimo em entendê-la, comparado a doenças que afetam principalmente homens.
A ministra Luciana Santos enquadrou o anúncio como "compromisso do governo com a ciência como instrumento de cuidado, inclusão e qualidade de vida para as mulheres brasileiras". Bonito no discurso — e, pela primeira vez em muito tempo, com cifra real atrás.
Por que isso chega até o SUS
Pode parecer distante: editais, CNPq, rede de pesquisa. O que isso muda para a mulher que está com dor agora? O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez questão de amarrar a ponta prática: o objetivo é avaliar a qualidade do atendimento e desenvolver novas tecnologias para melhorar os serviços do SUS voltados às mulheres. Diagnóstico precoce significa tratamento melhor, menos dor e menos progressão da doença.
É uma cadeia simples e que costuma ser ignorada: pesquisa vira protocolo, protocolo vira atendimento, atendimento vira menos sofrimento. Por enquanto, são R$ 60 milhões e uma promessa. Mas para uma área que passou gerações ouvindo que a dor das mulheres era exagero, sair do "é normal, querida" para um edital de pesquisa nacional já é, por si só, um diagnóstico tardio que finalmente saiu do papel.
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