Fiocruz patenteia composto que pode matar malária resistente — e é barato de produzir
O DAQ, desenvolvido pelo Instituto René Rachou em Minas Gerais, age contra cepas de Plasmodium falciparum e vivax resistentes aos tratamentos existentes. A patente foi concedida pelos EUA em março de 2026 e vale até 2041.
A malária resistente aos medicamentos é um dos pesadelos mais bem documentados da medicina tropical — e um dos mais subestimados fora das áreas endêmicas. O Plasmodium falciparum, parasita responsável pelos casos mais graves, desenvolveu resistência à cloroquina nas décadas de 1950 e 60, e desde os anos 2000 começou a apresentar resistência crescente à artemisinina, o tratamento padrão atual. Cada vez que o parasita escapa de um medicamento, milhões de pessoas ficam sem opção terapêutica eficaz.
É nesse cenário que a notícia da Fiocruz tem peso real. O Instituto René Rachou, unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais, obteve em março de 2026 uma patente do escritório americano USPTO para um composto chamado DAQ. A patente é válida até setembro de 2041. O que torna o DAQ diferente não é só o que ele faz — é como ele faz, e contra quem funciona.
O mecanismo: atacar o calcanhar de Aquiles do parasita
Para sobreviver dentro das hemácias humanas, o Plasmodium precisa digerir hemoglobina — a proteína que transporta oxigênio no sangue. Esse processo gera subprodutos tóxicos para o próprio parasita. A solução que o parasita evoluiu foi neutralizar esses subprodutos antes que causem dano. É exatamente esse mecanismo de defesa que o DAQ bloqueia.
Ao interferir na neutralização dos subprodutos tóxicos da digestão de hemoglobina, o composto faz o parasita se envenenar com seu próprio metabolismo. O resultado é morte celular do Plasmodium. A vantagem sobre os medicamentos tradicionais é que o DAQ age em fases iniciais da infecção, quando o parasita ainda está em estágio que a maioria dos tratamentos estabelecidos não alcança com eficiência.
O diferencial químico é a presença de uma tripla ligação na cadeia molecular do DAQ — uma característica estrutural que, segundo os pesquisadores, é responsável pelo perfil de ação único do composto.
• Desenvolvido por: Instituto René Rachou / Fiocruz (MG), pesquisadora Antoniana Krettli
• Patente: USPTO (EUA), concedida março de 2026, válida até setembro de 2041
• Age contra: Plasmodium falciparum (casos graves) e P. vivax (maioria dos casos no Brasil)
• Mecanismo: bloqueia defesa do parasita durante digestão de hemoglobina
• Eficácia: resultados promissores contra cepas sensíveis e resistentes
• Custo estimado de produção: baixo — estratégico para países de baixa e média renda
• Status atual: fases de toxicidade, dose e formulação farmacêutica ainda em andamento
Por que isso importa para o Brasil
O Brasil concentra mais de 99% dos casos de malária da América do Sul. Em 2024, foram registradas mais de 160 mil notificações, quase todas na Amazônia Legal. A espécie predominante no país é o Plasmodium vivax — responsável por cerca de 85% dos casos — e o falciparum responde pelos restantes 15%, mas pelos casos mais graves e com maior mortalidade.
A resistência ao tratamento padrão (artemisinina combinada com outros fármacos, ou ACT) ainda não atingiu o Brasil na escala que assola partes da Ásia e da África, mas o risco é real. A malária resistente no Sudeste Asiático foi detectada primeiro como falha terapêutica pontual — o mesmo padrão que a resistência à cloroquina seguiu décadas atrás. Ter um composto alternativo no horizonte não é luxo acadêmico: é prevenção estratégica.
O longo caminho entre patente e remédio disponível
A patente é uma conquista real, mas não significa que o DAQ estará na farmácia em breve. A pesquisadora Antoniana Krettli e sua equipe precisam ainda passar por testes de toxicidade em modelos animais, determinação de dose terapêutica, formulação farmacêutica adequada (comprimido, xarope, injetável) e, eventualmente, ensaios clínicos em humanos. O processo completo pode levar de 10 a 15 anos e custar centenas de milhões de dólares.
O que a patente garante é que, se o DAQ chegar lá, a tecnologia pertence ao Brasil — e à Fiocruz, uma fundação pública. Isso significa que o licenciamento, o preço e a prioridade de acesso para países de baixa renda ficam sob controle de uma instituição com histórico de não cobrar fortunas por tecnologia que desenvolveu com dinheiro público. Para comparação: os medicamentos originais contra malária patenteados por farmacêuticas privadas levam anos para chegar aos sistemas públicos de saúde dos países mais afetados.
O DAQ pode não ser o próximo remédio para malária. Pode ser. O que a Fiocruz fez foi colocar uma opção real no horizonte — em um campo onde as opções estão diminuindo, não aumentando. Para a Amazônia, isso não é notícia pequena.
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