Guerra no Oriente Médio ameaça abastecimento de medicamentos no Brasil

Guerra no Oriente Médio ameaça abastecimento de medicamentos no Brasil

A escalada do conflito entre EUA/Israel e Irã pode interromper rotas marítimas que transportam insumos farmacêuticos. O Brasil importa 90% dos princípios ativos que usa — e não tem estoque de segurança.

SaúdeCidade ·

Quando você compra um comprimido de paracetamol na farmácia da esquina, provavelmente não pensa na cadeia logística que o trouxe até ali. E não deveria — esse é o tipo de complexidade que a civilização moderna existe para esconder. Mas hoje, essa complexidade está sob ameaça, e o resultado pode ser prateleiras vazias em farmácias brasileiras nos próximos meses.

A intensificação da guerra no Oriente Médio, que agora opõe diretamente Estados Unidos e Israel ao Irã, está ameaçando uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o comércio de insumos farmacêuticos: o Estreito de Ormuz. Por ali passam não apenas 20% do petróleo mundial, mas também navios carregados de princípios ativos produzidos na Índia e na China — os dois maiores fornecedores de matéria-prima farmacêutica do planeta.

O Brasil, segundo reportagem da Agência Brasil publicada neste sábado, está monitorando a situação. "Monitorar" é o verbo que os governos usam quando sabem que têm um problema, mas ainda não têm solução.

90% importado: a dependência que ninguém resolveu

Eis o dado que deveria tirar o sono de qualquer gestor de saúde pública: o Brasil importa aproximadamente 90% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) que utiliza na produção de medicamentos. A maioria vem da China (60%) e da Índia (25%). São moléculas como paracetamol, ibuprofeno, amoxicilina, losartana, metformina, omeprazol — os medicamentos mais consumidos do país.

Não estamos falando de medicamentos sofisticados ou caros. Estamos falando do básico. O paracetamol que você toma para dor de cabeça. A amoxicilina que o pediatra prescreve para a otite do seu filho. A metformina que 20 milhões de diabéticos tomam todo dia. Se a cadeia de suprimentos for interrompida, não são os tratamentos de ponta que param primeiro — são os essenciais.

Dependência farmacêutica do Brasil:

90% dos IFAs (princípios ativos) são importados
60% vêm da China, 25% da Índia
95% dos antibióticos usados no SUS dependem de IFA importado
• Estoque estratégico do governo: inexistente para a maioria dos itens
• Tempo médio de reposição por via marítima: 45-60 dias
• Tempo de reposição se rota marítima bloqueada: 90-120 dias (rota alternativa pelo Cabo)

O que pode acontecer (e quando)

Se o conflito se mantiver no nível atual — ataques aéreos e retaliações limitadas —, o impacto no Brasil tende a ser indireto: aumento no custo dos fretes marítimos (que já subiram 40% desde janeiro), atrasos pontuais em entregas e pressão inflacionária sobre medicamentos.

Se o conflito escalar para um bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz — cenário que analistas consideram improvável mas não impossível —, o Brasil enfrentaria desabastecimento de dezenas de medicamentos essenciais em 90 a 120 dias. A alternativa seria redirecionar navios pelo Cabo da Boa Esperança (sul da África), o que adiciona 15 a 20 dias à viagem e eleva o custo do frete em 60-80%.

A farmacêutica privada tem estoques maiores — geralmente 3 a 6 meses de IFA. O SUS opera com margens mais apertadas. Programas como o Farmácia Popular e a distribuição de medicamentos em UBS dependem de compras centralizadas com prazos longos. Uma interrupção de 3 meses na cadeia de suprimentos poderia afetar diretamente o fornecimento de anti-hipertensivos, antidiabéticos e antibióticos no sistema público.

O complexo industrial que nunca saiu do papel

A dependência brasileira de IFAs importados não é novidade. O governo fala em "complexo industrial da saúde" desde pelo menos 2008, quando o tema entrou no PAC da Saúde. De lá para cá, houve investimentos pontuais — a Fiocruz produz vacinas, o Butantan produz soros e imunobiológicos, a Farmanguinhos produz antirretrovirais —, mas a produção nacional de IFAs de uso geral permaneceu negligenciável.

A razão é econômica: produzir paracetamol no Brasil custa 3 a 5 vezes mais do que importar da China. A escala chinesa é imbatível. Mas "custo mais barato" e "cadeia de suprimentos segura" são objetivos diferentes — e a guerra atual está demonstrando, em tempo real, o preço de ter otimizado apenas o primeiro.

A Índia, que enfrentou problema similar durante a pandemia de COVID-19, reagiu investindo US$ 3 bilhões em produção doméstica de IFAs desde 2020. O Brasil investiu — bem, o Brasil está "monitorando".

O que o cidadão comum pode fazer

No curto prazo: nada de pânico. O abastecimento atual está normal. Não compre medicamentos em quantidade para estocar — além de desnecessário, tira dos outros e acelera exatamente o desabastecimento que se tenta evitar.

Se você depende de medicamentos de uso contínuo (anti-hipertensivos, antidiabéticos, anticoncepcionais, antidepressivos), mantenha pelo menos 1 mês de reserva em casa — o que já é recomendação médica padrão, independentemente de guerras. Se tiver receita válida e puder comprar o equivalente genérico, faça — em caso de escassez, o genérico é o primeiro a desaparecer, mas também o primeiro a ser reposto.

No longo prazo, a discussão é política: o Brasil precisa decidir se quer continuar dependendo de navios que cruzam o Estreito de Ormuz para manter seus 200 milhões de habitantes medicados. A guerra vai acabar. A dependência, não — a menos que alguém decida, finalmente, que segurança farmacêutica é tão estratégica quanto segurança alimentar ou energética. E que "monitorar" não é plano de contingência.

Compartilhar: