Ele compôs 62 das 65 músicas do grupo — e está internado no sistema psiquiátrico desde 1984

Ele compôs 62 das 65 músicas do grupo — e está internado no sistema psiquiátrico desde 1984

O Harmonia Enlouquece, formado por pacientes e profissionais do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, chega aos 25 anos com o quinto álbum, "O Quinto dos Infernos". Treze faixas, 13 integrantes, mais de 75 pessoas que passaram pelo grupo. E uma ideia que o SUS levou décadas para aceitar: oficina de arte é tratamento, não recreação.

SaúdeCidade ·

Hamilton de Jesus Assunção começou tratamento psiquiátrico em 1984. Naquele ano, o Brasil ainda era uma ditadura, os manicômios brasileiros ainda funcionavam na lógica do depósito e o conceito de "protagonismo do paciente" era, na melhor das hipóteses, uma nota de rodapé acadêmica.

Quarenta e dois anos depois, Hamilton é compositor. Não "faz musiquinhas na oficina": assina 62 das 65 músicas gravadas pelo grupo Harmonia Enlouquece. Nas contas do diretor do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, "95% das canções são dele". É uma taxa de autoria que a maioria das bandas profissionais brasileiras não alcança.

O grupo acaba de lançar o quinto álbum, "O Quinto dos Infernos" — 13 faixas, 11 delas inéditas e assinadas por Hamilton. E completa 25 anos em 2026, o que significa que ele existe há mais tempo do que a esmagadora maioria dos projetos de saúde pública deste país.

O que é o Harmonia Enlouquece

O grupo nasceu em 7 de abril de 2001 — Dia Mundial da Saúde, escolha que não foi acidente — dentro do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade da Secretaria de Estado de Saúde. Hoje reúne 13 integrantes: nove pessoas em tratamento na unidade e quatro colaboradores. Ao longo de um quarto de século, mais de 75 pessoas passaram pela formação.

Repare na estrutura: pacientes e profissionais tocam juntos, no mesmo palco, sem hierarquia de crachá. Não é o médico apresentando os pacientes. É uma banda.

No CPRJ, a arte não é a atividade de sexta-feira à tarde para ocupar o tempo. Todos os pacientes com condição de participar entram em oficinas artísticas desde o primeiro dia de tratamento. A unidade trabalha com cultura, escuta ativa e autonomia do paciente como componentes do cuidado — e não como cortesia oferecida depois que o remédio faz efeito.

Harmonia Enlouquece em números:

• Fundado em 7 de abril de 2001, Dia Mundial da Saúde
25 anos de atividade contínua em 2026
13 integrantes atuais — 9 em tratamento, 4 colaboradores
• Mais de 75 pessoas passaram pelo grupo
65 músicas gravadas em 5 álbuns
62 composições de Hamilton de Jesus Assunção
• Novo álbum: "O Quinto dos Infernos", 13 faixas, lançado em 15 de agosto de 2026
• Reconhecimento recente: Prêmio Asas (Aldir Blanc-RJ)

Por que isso é tratamento e não passatempo

Existe um preconceito persistente — inclusive dentro da própria saúde — de que oficina de música em serviço psiquiátrico é entretenimento simpático, um adorno que fica bem em foto de prestação de contas. É uma leitura preguiçosa da coisa.

A reforma psiquiátrica brasileira, consolidada na Lei 10.216 de 2001 — o mesmo ano em que o grupo nasceu, o que diz algo sobre o clima da época —, trocou o modelo de internação de longa permanência por uma rede de cuidado em liberdade. O pilar dessa mudança não é apenas fechar leito de manicômio. É devolver ao paciente algo que a institucionalização historicamente retirava: papel social, produção, identidade que não seja o diagnóstico.

Quando alguém para de ser "o esquizofrênico do leito 12" e passa a ser "o compositor do grupo", isso não é metáfora terapêutica. É reconstrução de vínculo, de rotina, de pertencimento e de autoestima — variáveis que a literatura de saúde mental associa diretamente a menos crises, menos reinternações e melhor adesão ao tratamento medicamentoso.

"Levanta o astral da gente, mesmo quando está lá embaixo", resume Hamilton. É uma descrição de mecanismo de ação mais honesta do que a de muita bula.

Um lançamento que virou evento de saúde pública

O disco foi lançado no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab), com uma programação que diz muito sobre a ambição do projeto: exposição com a linha do tempo do grupo de 2001 a 2026, exibição do documentário "Harmonia Enlouquece — Um mergulho musical pela saúde mental", dirigido por Flávia Lima, e uma mesa de debate sobre música, inclusão e saúde mental.

Ou seja: não foi um sarau interno com plateia de familiares. Foi um lançamento cultural público, num museu, com filme e debate. A diferença entre as duas coisas é exatamente a distância entre tratar loucura como algo a ser escondido e tratá-la como parte da vida da cidade.

O grupo também acaba de receber o Prêmio Asas, do edital Aldir Blanc-RJ — reconhecimento vindo do circuito cultural, não do circuito da saúde. Vale sublinhar isso: eles não ganharam um prêmio de "melhor projeto terapêutico". Ganharam um prêmio de cultura.

O que isso tem a ver com você

Se você acompanha alguém em tratamento de saúde mental, vale uma pergunta na próxima consulta ou no CAPS de referência: quais atividades além da medicação estão disponíveis? Oficinas de arte, música, geração de renda, grupos de convivência e acompanhamento terapêutico fazem parte do que a Rede de Atenção Psicossocial deveria oferecer pelo SUS. Nem toda unidade oferece, mas a pergunta pressiona — e o que ninguém pede, ninguém prioriza no orçamento.

E se você é do tipo que acha que o país gasta demais com "essas coisas": o CPRJ mantém um grupo há 25 anos, com cinco discos, um documentário e um prêmio cultural. Não existe orçamento de saúde mental no Brasil que sustente esse tipo de resultado por engano.

Em 1984, um homem entrou no sistema psiquiátrico brasileiro. Em 2026, ele lança o quinto álbum. A distância entre essas duas frases é a história inteira da reforma psiquiátrica — e é por isso que ela precisa continuar de pé.

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