O vírus 100 vezes mais contagioso que o HIV — e que ninguém sabe curar
O Brasil entrou em um estudo internacional liderado pela Johns Hopkins que busca a cura da hepatite B. São 600 pacientes em cinco países, 150 deles brasileiros. O país tem 276,6 mil casos confirmados, uma vacina gratuita que quase ninguém lembra de tomar e um prazo da OMS que vence em 2030.
Você provavelmente tomou a vacina contra hepatite B e não faz ideia disso.
Se nasceu depois de 1998, tomou a primeira dose ainda na maternidade, antes de saber o próprio nome. Se nasceu antes, talvez tenha tomado, talvez não — e é justamente esse "talvez" que sustenta um vírus que infecta cerca de 240 milhões de pessoas cronicamente no mundo e que a medicina, até hoje, sabe controlar mas não sabe eliminar.
Agora dois hospitais universitários brasileiros entraram em um estudo que quer mudar isso.
O que exatamente está sendo testado
A pesquisa é liderada pela Johns Hopkins School of Medicine, nos Estados Unidos, e reúne pacientes de cinco países: Brasil, Índia, Senegal, Uganda e os próprios EUA. Ao todo, 600 participantes, acompanhados por cerca de cinco anos.
No Brasil, a cota é de 150 pacientes, divididos entre o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-Ufes), e a Universidade de São Paulo — 75 em cada. Até agora, 40 pessoas foram recrutadas. A meta é chegar a 75 ainda em 2026 e fechar o recrutamento até meados de 2027.
O desenho do estudo é observacional, e essa palavra esconde algo interessante. Em vez de testar um remédio pronto, os pesquisadores estão olhando para duas coisas ao mesmo tempo: como o vírus se comporta em populações geneticamente muito diferentes e como o sistema imune de cada uma dessas populações responde a ele — incluindo pacientes coinfectados por HIV.
Traduzindo: antes de fabricar a chave, eles querem entender a fechadura. E a fechadura de um paciente do Vale do Rio Doce pode não ser a mesma de um paciente de Kampala.
"O primeiro objetivo é eliminar as hepatites virais, no nosso caso a hepatite B, como problema de saúde pública até 2030", diz a professora Tânia Reuter, do Hucam-Ufes.
Repare no verbo. Não é "curar todo mundo". É deixar de ser problema de saúde pública. São coisas diferentes, e a segunda é mais honesta.
Por que a hepatite B é tão difícil de eliminar
Comece pelo dado que assusta: segundo a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, o vírus da hepatite B é cerca de 100 vezes mais contagioso que o HIV.
Cem vezes. A mesma exposição que teria uma chance remota de transmitir HIV transmite hepatite B com folga. Ele resiste fora do corpo, sobrevive em quantidades minúsculas de sangue, passa por sexo sem proteção, por objetos cortantes compartilhados, por alicate de unha mal esterilizado, por agulha de tatuagem reaproveitada e da mãe para o bebê no parto.
E o problema não para na transmissão. Uma vez instalado, o vírus se esconde dentro do núcleo das células do fígado em uma forma circular de DNA que os antivirais atuais não alcançam. Os remédios existentes seguram a replicação — o paciente vive bem, com carga viral indetectável — mas se ele parar de tomar, o vírus volta. É controle vitalício, não cura.
O desfecho de quem não trata, ou trata tarde, tem nome: cirrose e carcinoma hepatocelular. A hepatite B é a principal causa de câncer primário de fígado no mundo.
• 276.600 casos confirmados no Brasil entre 2000 e 2022
• 240 milhões de pessoas com infecção crônica no mundo (OMS, 2024)
• O vírus é 100 vezes mais contagioso que o HIV
• 84% de cobertura vacinal infantil global em 2024
• Queda de 32% nas novas infecções anuais desde 2015
• 600 pacientes no estudo internacional; 150 no Brasil
• Prazo da OMS para eliminação como problema de saúde pública: 2030
A vacina que o Brasil já tem e usa pouco
Aqui mora a ironia. Existe uma vacina eficaz contra hepatite B desde os anos 1980. Ela está no SUS. É gratuita. É para qualquer pessoa, de qualquer idade, que não tenha tomado.
Crianças recebem quatro doses — ao nascer, aos 2, aos 4 e aos 6 meses. Adultos não vacinados fazem um esquema de três doses e pronto: proteção que dura décadas contra um vírus que mata devagar.
A cobertura infantil global chegou a 84% em 2024, e as novas infecções caíram 32% desde 2015. São números bons. O buraco está na geração adulta que nasceu antes da vacinação universal e nunca completou o esquema — e que hoje descobre a infecção por acaso, num exame pré-operatório ou numa doação de sangue.
Se você tem mais de 30 anos e não sabe dizer com certeza se tomou as três doses, a resposta prática não é procurar a caderneta de 1994. É ir ao posto e tomar. Dose a mais não faz mal; dose a menos faz.
O silêncio é o problema
A hepatite B crônica costuma não doer. Não amarela a pele na maioria dos casos. Não dá febre. Ela passa vinte, trinta anos corroendo o fígado enquanto a pessoa vai à academia e faz check-up sem pedir o exame certo.
O teste é simples: HBsAg, disponível gratuitamente na rede pública, inclusive em formato de teste rápido nas unidades básicas de saúde. Resultado em minutos, sem jejum, sem agulha grossa.
Quem tem indicação clara de testar: qualquer pessoa que nunca testou, quem tem parceria sexual com pessoa infectada, quem compartilhou seringas, quem fez tatuagem ou piercing fora de estabelecimento licenciado, gestantes (o teste é rotina no pré-natal) e quem recebeu transfusão antes de 1993.
Vale lembrar que existe uma janela de proteção para o recém-nascido de mãe infectada: vacina mais imunoglobulina nas primeiras doze horas de vida reduzem drasticamente a transmissão vertical. Isso depende inteiramente de a mãe ter sido testada no pré-natal.
Por que importa que o estudo passe pelo Brasil
Historicamente, boa parte da pesquisa clínica mundial descreve o comportamento de vírus em populações do norte global e depois assume que o resultado se aplica ao resto. Nem sempre se aplica.
A hepatite B tem genótipos diferentes com distribuição geográfica distinta, e a resposta imune varia com a ancestralidade, com a idade de infecção e com coinfecções. Um estudo que junta Brasil, Índia, Senegal e Uganda não está sendo generoso com o sul global — está sendo metodologicamente correto.
E há um ganho concreto para o país que raramente entra na conta: pesquisa clínica instalada em hospital universitário público treina gente, monta laboratório, cria protocolo e deixa infraestrutura. O Hucam e a USP saem desse estudo diferentes de como entraram, independentemente do resultado.
O prazo de 2030 está a quatro anos. A cura ainda não existe e talvez não chegue a tempo. Mas a ferramenta que elimina a hepatite B como problema de saúde pública já existe há quarenta anos, custa quase nada e está a uma caminhada do posto de saúde mais próximo.
É constrangedor precisar de um consórcio internacional de cinco países para lembrar disso.
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