O Brasil tem cinco hepatites virais, e cada uma escolheu um endereço diferente
Pesquisadores do Einstein revisaram 200 estudos publicados em onze anos, com dados de mais de 14,5 milhões de pessoas, e montaram o mapa das hepatites A, B, C, D e E no país. O resultado é um retrato da desigualdade brasileira transmitido por via sanguínea, sexual, alimentar — e por CEP.
Hepatite é uma daquelas palavras que o brasileiro médio guarda numa gaveta mental junto com "coisa que dá em quem se descuida". Vem sempre acompanhada de uma vaga ideia de fígado amarelo, comida estragada e alguma culpa. É por isso que quase ninguém faz o exame — e é por isso que a maioria das pessoas infectadas no Brasil não sabe que está.
Um estudo do Hospital Israelita Albert Einstein publicado na revista científica PLOS ONE acaba de dar a esse conjunto de doenças o tratamento que ele merecia há tempos: pesquisadores analisaram 200 trabalhos científicos publicados entre 2013 e 2024, reunindo dados de mais de 14,5 milhões de pessoas, para montar um panorama de como as hepatites virais se distribuem pelo país.
O que saiu não é um mapa de doença. É um mapa social com nomes de vírus.
Hepatite A: a que se pega pela torneira
A hepatite A se transmite, principalmente, por água ou alimento contaminado, segundo o coordenador do estudo, João Renato Rebello Pinho. É a hepatite do saneamento — ou da falta dele.
Na população geral brasileira, a soroprevalência (a proporção de pessoas que já tiveram contato com o vírus) variou de 33,3% a 67,8%, dependendo da região e do estudo. Em dois grupos, porém, os números explodem: 88,1% entre pessoas privadas de liberdade e 87,4% entre imigrantes.
Não há mistério epidemiológico nisso. Onde falta esgoto tratado, água encanada e espaço, o vírus circula. A cadeia pública brasileira e as rotas de migração precária são, do ponto de vista sanitário, o mesmo ambiente: muita gente, pouca água limpa.
O estudo também aponta um padrão novo de transmissão que a maioria dos brasileiros desconhece: contato sexual, especialmente entre pessoas não vacinadas. A hepatite A saiu do território exclusivo do "comeu algo estragado" — e a vacina, disponível no SUS para crianças, segue sendo a forma mais barata de encerrar o assunto.
B e C: as silenciosas que viram cirrose
A hepatite B apareceu com prevalência entre 0% e 7,5% na população geral, com as maiores taxas concentradas na região amazônica. A hepatite C variou de 0,04% a 2,2% — mas salta para 36,9% entre pessoas que usam drogas injetáveis, mais de um terço de um grupo inteiro.
Essas duas são as que mais matam, e por um motivo cruel: elas não doem. Podem passar décadas destruindo o fígado sem nenhum sintoma, até que o quadro se apresente já como cirrose ou câncer de fígado — quando as opções terapêuticas encolheram drasticamente.
A transmissão é por contato sexual e exposição a sangue, incluindo uso de drogas injetáveis, compartilhamento de material de manicure, alicate, lâmina, agulha de tatuagem e piercing mal esterilizados. A transmissão de mãe para filho durante a gestação continua sendo preocupação, embora o Brasil tenha conseguido controlar bem essa via com testagem no pré-natal e vacinação do recém-nascido.
Aqui vai a informação prática mais importante deste texto: a hepatite C tem cura, com comprimidos, em oito a doze semanas, e o tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS. A hepatite B tem vacina gratuita para todas as idades e tratamento que controla o vírus. O maior obstáculo não é científico nem financeiro — é diagnóstico. Ninguém trata quem não sabe que tem.
• 200 estudos analisados, publicados entre 2013 e 2024
• Dados de mais de 14,5 milhões de pessoas
• Hepatite A: 33,3%–67,8% na população geral; 88,1% em presos e 87,4% em imigrantes
• Hepatite B: 0%–7,5%, maior na Amazônia
• Hepatite C: 0,04%–2,2% em geral; 36,9% entre usuários de drogas injetáveis
• Hepatite D: até 23,9%, concentrada na região amazônica
• Hepatite E: 0,9%–59,4%, maior no Sul, ligada à criação de porcos
• Meta da OMS: eliminar as hepatites virais até 2030
Hepatite D: a que só existe onde o Brasil não olha
Se você nunca ouviu falar da hepatite D, não é falha sua. Ela é praticamente invisível no debate nacional — e concentrada quase inteiramente na região amazônica, onde a prevalência chegou a 23,9% em alguns estudos.
O vírus D é um parasita do vírus B: só consegue infectar quem já tem hepatite B. E a combinação das duas é a forma mais agressiva de hepatite viral conhecida, com evolução rápida para cirrose e insuficiência hepática, inclusive em pessoas jovens.
O estudo é explícito ao classificar a hepatite D como um desafio de saúde pública em comunidades ribeirinhas amazônicas com acesso limitado à assistência. Traduzindo: uma doença grave, que já tem prevenção conhecida (a vacina contra hepatite B protege contra a D, já que sem B não há D), continua devastando exatamente as populações que estão a dias de viagem do hospital mais próximo.
É a mesma história de sempre. O que falta ali não é ciência. É barco, geladeira para vacina, técnico de enfermagem e presença do Estado.
Hepatite E: a zoonose do Sul que ninguém procura
O achado mais surpreendente do levantamento vem da hepatite E, com prevalência variando de 0,9% a 59,4% — a maior amplitude de todas — e as taxas mais altas na região Sul, associada à criação de suínos.
A hepatite E é uma zoonose: circula entre porcos e chega ao humano por contato ou por carne malcozida. Na maioria das pessoas é uma infecção leve e autolimitada. Em gestantes, especialmente no terceiro trimestre, pode ser grave. E em pessoas imunossuprimidas, pode cronificar.
A variação absurda entre estudos diz menos sobre o vírus e mais sobre o país: quando quase ninguém testa, cada pesquisa que resolve testar encontra um número diferente. Hepatite E simplesmente não faz parte da rotina diagnóstica brasileira — o que significa que casos existem, mas recebem outro nome.
A meta de 2030 e o que ela exige de você
O objetivo declarado da pesquisa é ajudar o Brasil a cumprir a meta da Organização Mundial da Saúde de eliminar as hepatites virais como ameaça à saúde pública até 2030. Faltam quatro anos.
Eliminar significa reduzir drasticamente novas infecções e mortes — e isso depende muito menos de descoberta científica do que de duas coisas banais: vacinar e testar.
A parte que cabe a você leva quinze minutos. O teste rápido para hepatites B e C é gratuito em qualquer unidade básica de saúde, sai em cerca de 30 minutos, com uma gota de sangue no dedo. A vacina contra hepatite B também é gratuita, para qualquer idade, em três doses. Se você nunca fez o teste, você faz parte da estatística que impede o Brasil de chegar a 2030 com essa história resolvida.
Cinco vírus, cinco geografias, um denominador comum: as hepatites brasileiras se concentram exatamente onde há menos saneamento, menos vacina, menos médico e menos exame. O vírus não escolhe endereço — o país é que já escolheu por ele.
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