A influenza A está matando mais que a covid — e a campanha de vacinação mal começou
O Boletim InfoGripe da Fiocruz mostra que a maior parte dos estados do Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste está em alerta por síndrome respiratória aguda grave. Entre os óbitos, o vírus influenza A responde por mais mortes que o Sars-CoV-2. A campanha de vacinação gratuita começou em 28 de março e vai até 30 de maio.
Existe uma versão da gripe que a maioria das pessoas não teme como deveria — aquela que não te deixa mal por três dias, te manda de volta ao trabalho, e some. E existe outra versão, que derruba idosos, grávidas e pessoas com comorbidades de forma grave, enche UTIs e mata. O Brasil está lidando, agora, com a segunda versão.
O Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgado na quarta-feira com dados da semana epidemiológica 12 (22 a 28 de março de 2026), é direto: "a maior parte dos estados das regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste está em alerta por síndrome respiratória aguda grave." E o principal responsável pelos óbitos não é o coronavírus — é a influenza A.
Quem está matando mais: a gripe ou a covid
Nas últimas quatro semanas, entre os casos confirmados de síndrome respiratória aguda grave, o rinovírus liderou em casos positivos (45,3%), seguido pela influenza A (27,4%), VSR (17,7%), Sars-CoV-2 (7,3%) e influenza B (1,5%). O rinovírus causa muita gente doente, mas raramente mata em adultos saudáveis.
Entre os óbitos, o retrato muda — e fica mais sombrio. A influenza A respondeu por 36,9% das mortes. O rinovírus, por 30%. O Sars-CoV-2, por 25,6%. O VSR, por 5,9%. Traduzindo: o vírus da gripe comum está matando mais gente que o coronavírus neste momento no Brasil. É o tipo de dado que deveria estar em todo jornal e não está, porque "influenza" soa menos urgente que "covid" — e urgência, no jornalismo de saúde, costuma ser construída por nome, não por mortalidade.
Por que a influenza A é diferente da gripe comum
Toda influenza é gripe, mas nem toda gripe é influenza. O subtipo A é o mais mutante, o mais distribuído globalmente e o responsável pelas grandes pandemias do século XX (incluindo a de 1918, a mais letal da história). Ele continua circulando todos os anos, em versões ligeiramente diferentes — é por isso que a vacina contra gripe precisa ser atualizada anualmente.
A influenza A é particularmente perigosa para quem já tem o sistema imunológico comprometido por idade, doenças crônicas ou gravidez. Nesses grupos, o que começa como uma gripe pode evoluir rapidamente para pneumonia viral, falência respiratória e morte. Tatiana Portella, pesquisadora da Fiocruz, foi clara: "É fundamental que pessoas dos grupos prioritários como idosos, crianças, pessoas com comorbidades e profissionais da saúde e da educação estejam em dia com a vacina contra a influenza."
Casos de SRAG por vírus:
• Rinovírus: 45,3%
• Influenza A: 27,4%
• VSR: 17,7%
• Sars-CoV-2: 7,3%
• Influenza B: 1,5%
Óbitos por vírus:
• Influenza A: 36,9%
• Rinovírus: 30%
• Sars-CoV-2: 25,6%
• VSR: 5,9%
• Influenza B: 2,5%
A campanha que começou — e que ninguém parece saber que começou
Em 28 de março, o Ministério da Saúde iniciou a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe. A imunização é gratuita nas Unidades Básicas de Saúde e vai até 30 de maio. O público prioritário desta edição inclui crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes, puérperas, idosos com 60 anos ou mais, trabalhadores da saúde, professores, pessoas com comorbidades, povos indígenas e pessoas privadas de liberdade.
Se você se encaixa em alguma dessas categorias e não tomou a vacina ainda, a UBS mais próxima está com doses disponíveis. Sem agendamento, sem fila online, sem aplicativo. Você vai lá, apresenta um documento, toma a vacina, vai embora. É o procedimento mais simples de saúde pública que existe — e historicamente é o que menos gente faz por achar que "não vai precisar".
E o VSR — o vírus que está derrubando bebês
O vírus sincicial respiratório (VSR) aparece em 17,7% dos casos e 5,9% dos óbitos — e merece atenção específica porque atinge principalmente crianças pequenas e idosos. Em bebês abaixo de 6 meses, o VSR é a principal causa de hospitalização por doença respiratória.
A novidade é que existe vacina para gestantes. A imunização contra o VSR a partir da 28ª semana de gestação gera anticorpos que passam para o bebê ainda no útero, protegendo-o nos primeiros meses de vida — quando ele é mais vulnerável e ainda não pode tomar vacina. Se você está grávida e está nesse período, pergunte ao seu obstetra ou na UBS.
O que fazer além de se vacinar
A Fiocruz e o Ministério da Saúde recomendam o óbvio que a maioria ignora até adoecer: máscara PFF2 ou N95 em locais fechados com aglomeração, lavagem frequente das mãos, isolamento em caso de sintomas. Se você está com febre, tosse e mal-estar, não vá ao trabalho — não por você, mas pelas outras pessoas que você vai infectar antes de saber que está doente.
A janela de contágio da influenza começa um dia antes dos sintomas aparecerem. Isso significa que você já está espalhando o vírus quando ainda se acha bem. É exatamente por isso que vacinação em massa funciona melhor que distanciamento individual: se a maioria está protegida, o vírus não encontra hospedeiro para circular, independentemente de quem decidiu sair de casa com tosse.
O inverno brasileiro ainda não começou. A gripe está em alta com o outono ainda na semana de estreia. Daqui a dois meses, quando as temperaturas caírem de verdade e as pessoas fecharem as janelas, o vírus vai adorar. A vacina que você tomar hoje leva duas semanas para gerar proteção plena. O calendário está aí — faça as contas.
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