O SUS foi até a aldeia: 13 mil atendimentos em terras indígenas, com cirurgia de catarata e médico que fala a língua

O SUS foi até a aldeia: 13 mil atendimentos em terras indígenas, com cirurgia de catarata e médico que fala a língua

Mutirões de saúde estão percorrendo terras indígenas em quatro estados em junho. Levam de pediatria a cirurgia de catarata — e, em pelo menos um território, profissionais que falam o idioma local. O detalhe que parece mínimo é o que define se o atendimento funciona.

SaúdeCidade ·

Imagine precisar de uma cirurgia de catarata morando a horas de barco do hospital mais próximo. Ou levar um filho ao pediatra quando o pediatra está a um voo de avião de táxi de distância. Para uma parcela da população indígena brasileira, essa não é uma situação hipotética — é a geografia da saúde no dia a dia. E é contra essa distância que o SUS resolveu se mover, em vez de esperar que a distância se mova sozinha.

Ao longo de junho, mutirões de saúde vão realizar mais de 13 mil atendimentos em terras indígenas — entre consultas, exames diagnósticos e procedimentos cirúrgicos. A operação faz parte do programa Agora Tem Especialistas e é executada pela AgSUS, a agência que dá suporte à gestão do sistema público.

O que cabe num mutirão no meio da floresta

Mais coisa do que se imagina quando se pensa em "atendimento itinerante". A lista de especialidades é a de um hospital de porte médio, montada onde antes não chegava quase nada.

O que os mutirões oferecem:

Pediatria, ginecologia/obstetrícia e cardiologia
• Clínica geral, dermatologia e cirurgia geral
Oftalmologia: exames de vista e cirurgias de catarata e pterígio
• Exames de imagem e anestesiologia
13 mil+ atendimentos previstos só em junho; 14 mutirões desde o início do programa, em agosto de 2025

Fonte: AgSUS / Ministério da Saúde. Ações em Ceará, Pernambuco, Amapá e norte do Pará, e Tocantins.

A geografia da operação dá a dimensão do esforço: bases no Ceará (territórios Anacé, Potyrô Tapeba, Aquiraz e Maracanaú), o território Xukuru do Ororubá em Pernambuco (mais de 30 aldeias atendidas), as terras do Amapá e norte do Pará (incluindo o Tumucumaque) e o território Zo'é, no Tocantins. Não é uma carreta parada numa praça — é logística de chegar onde a estrada acaba.

O detalhe que decide se o atendimento funciona

Há um ponto nessa história que merece mais atenção do que costuma receber: no território Zo'é, a equipe terá profissionais que falam o idioma local, fazendo mediação cultural e comunicação. Pode soar como nota de rodapé, mas é o oposto disso. De que adianta o melhor cardiologista do país se o paciente não entende a orientação e o médico não entende a queixa?

Saúde não é só procedimento — é conversa, confiança e contexto. Levar quem fala a língua é reconhecer que atender um povo indígena não é "atender qualquer um, só que mais longe". É respeitar uma cultura que tem seu próprio jeito de adoecer, cuidar e nomear o corpo. O secretário de Saúde Indígena, Sesai, resumiu o objetivo: aproximar o SUS desses territórios, reduzindo desigualdades.

Por que isso é também uma questão de justiça

O Brasil gosta de se gabar de ter um sistema de saúde universal. Universal, na teoria, quer dizer "para todos" — mas "para todos" só vale de verdade quando alcança quem está na ponta mais difícil do mapa. A saúde indígena costuma ser exatamente essa ponta: a que aparece nas estatísticas, raramente nas prioridades, e quase nunca perto de um centro cirúrgico.

Como disse o diretor da AgSUS, André Longo, a iniciativa derruba barreiras de acesso, diminui o tempo de espera por atendimento e fortalece o cuidado integral respeitando as especificidades culturais. A operação tem o apoio de parceiros como o projeto Aldeia em Foco, a Associação Médicos da Floresta e o Hospital Einstein. Coordenação pública, execução com quem conhece o terreno.

O que dá para aprender com isso

Você provavelmente não mora numa terra indígena. Mas a lógica desses mutirões diz algo sobre o SUS que vale para todo mundo: a barreira de acesso à saúde no Brasil quase nunca é a consulta em si — é tudo que existe entre você e a consulta. A distância, a fila, a marcação, a língua, o transporte. Atacar essas barreiras, e não só "ter o serviço no papel", é o que transforma um sistema universal numa coisa que de fato chega.

Treze mil atendimentos não resolvem séculos de desigualdade. Mas cada catarata operada é alguém que volta a enxergar o próprio território. E há poucas imagens mais exatas do que deveria ser um sistema de saúde público: ir até onde a estrada termina, e levar junto quem fala a língua de quem mora lá.

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