OCDE projeta 31% mais doenças crônicas até 2050 — e o Brasil, que não está na OCDE, vai sentir ainda mais

OCDE projeta 31% mais doenças crônicas até 2050 — e o Brasil, que não está na OCDE, vai sentir ainda mais

Relatório mostra que, entre 1990 e 2023, a prevalência de câncer subiu 36% e a de DPOC, 49%. A multimorbidade — ter duas ou três doenças crônicas ao mesmo tempo — deve crescer 75% nas próximas décadas.

SaúdeCidade ·

Uma pessoa com 70 anos hoje tem, em média, duas ou três doenças crônicas simultâneas. Tem hipertensão e diabetes, ou diabetes e DPOC, ou DPOC e insuficiência cardíaca, ou todas as quatro. Se você está achando isso exagero, converse com qualquer cardiologista ou geriatra. Ou leia o relatório que a OCDE publicou esta semana, que transformou essa percepção clínica em projeção demográfica para as próximas duas décadas.

A conclusão pode ser resumida em uma frase: estamos vivendo mais, mas estamos chegando aos 70, 80 e 90 carregando uma mala cada vez mais pesada de diagnósticos.

O que os números mostram de 1990 até agora

Entre 1990 e 2023, nos países da OCDE, a prevalência de câncer cresceu 36%, a de DPOC cresceu 49% e a de doenças cardiovasculares, 27%. Em 2023, uma em cada dez pessoas nos países-membros tinha diabetes. Uma em cada oito, doença cardiovascular. O número só vai crescer.

A projeção até 2050 é de mais 31% de novos casos de doenças não transmissíveis. E a palavra-chave aqui é envelhecimento: esse aumento aconteceria mesmo que nada mais piorasse — mesmo que parássemos hoje de fumar, de engordar e de poluir o ar. É o envelhecimento populacional sozinho empurrando as curvas para cima.

Os números que o relatório trouxe:

+36% de câncer entre 1990 e 2023
+49% de DPOC no mesmo período
+27% de doenças cardiovasculares
1 em 10 pessoas da OCDE com diabetes hoje
1 em 8 com doença cardiovascular
+31% de novos casos de doenças crônicas projetados até 2050
+75% de multimorbidade na OCDE nas próximas décadas
• Despesa per capita em saúde deve subir mais de 50%

O que é multimorbidade, e por que é o verdadeiro problema

Multimorbidade é quando uma pessoa tem duas ou mais doenças crônicas ao mesmo tempo. Parece óbvio, mas o sistema de saúde foi construído para tratar uma doença por vez. Você tem um cardiologista, um endocrinologista, um pneumologista, cada um com seu protocolo, seu remédio, sua recomendação de estilo de vida. Quando o paciente tem três problemas, ele sai do consultório com oito caixas de medicamento, cinco orientações conflitantes e um calendário de consultas que parece escala de piloto.

Isso não é hipotético. A OCDE projeta que a prevalência de multimorbidade vai crescer 75% nas próximas décadas. Na União Europeia, 70%. No Brasil, se o IBGE continuar dizendo a verdade sobre a transição demográfica — e continua —, vai ser pelo menos tanto quanto isso.

A conta que ninguém quer pagar

O relatório estima que a despesa per capita com saúde nos países da OCDE vai subir mais de 50% só pelo efeito do envelhecimento. Isso significa que um governo que hoje gasta R$ 5 mil por habitante-ano em saúde vai precisar, em 2050, gastar R$ 7,5 mil — em moeda constante. Não é aumento de preço, é aumento de demanda.

O Brasil, que gasta cerca de 4% do PIB em saúde pública contra uma média de 6% a 8% dos países com sistema universal, chega a essa transição demográfica com a conta já apertada. A pergunta não é se o SUS aguenta o cenário atual — aguenta com dificuldade —, é como ele aguenta o cenário de 2040 sem um ajuste de financiamento estrutural.

O que dá para fazer (além de envelhecer)

A OCDE não é neutra na recomendação. O relatório é direto: prevenção primária funciona, e funciona mais barato que tratar. Redução de tabagismo, combate à obesidade, vacinação, rastreamento de câncer de colo e mama, controle de hipertensão e diabetes na atenção primária. Nada disso é novidade. Mas a diferença é que, sem isso, a projeção de 31% de aumento vira 50% ou mais.

A obesidade, em particular, é o motor escondido de quase todas essas curvas. Diabetes, doença cardiovascular, alguns cânceres, DPOC indiretamente pela inatividade — a obesidade alimenta todos. E é onde a medicina nova tem feito barulho (as canetas emagrecedoras), mas onde as intervenções de saúde pública ainda engatinham.

Envelhecer com duas doenças é o novo normal

Não é derrotismo, é aritmética. Vivemos mais porque cardiologia, oncologia e infectologia funcionaram melhor. Mas o corpo que sobrevive ao infarto aos 55 chega aos 75 com fração de ejeção reduzida. Quem sobrevive ao câncer de mama aos 50 chega aos 70 com osteoporose induzida por hormonioterapia. A medicina do século XX nos deu décadas extras — a medicina do século XXI precisa aprender a tratar essas décadas de uma forma que não seja um corredor de especialistas desconexos.

O relatório da OCDE, no fundo, é um pedido para reorganizar o sistema de saúde em torno do paciente que não existia em 1950: o idoso com três diagnósticos, oito remédios e noventa anos na frente. Esse paciente agora é maioria. Alguém precisa construir um SUS que saiba cuidar dele sem tratá-lo como uma soma de órgãos separados.

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