O SUS triplicou o que paga para preparar quem vai entrar na diálise
Portaria assinada em 17 de setembro cria as Ofertas de Cuidados Integrados de Nefrologia dentro do Agora Tem Especialistas. Os valores sobem de 263% a 360%: só o preparo para hemodiálise pula de R$ 940,22 para R$ 3.000,63. A aposta é que pagar mais antes sai mais barato do que pagar a máquina para sempre.
A doença renal crônica é a doença que não avisa. Você não sente o rim falhando. Não dói, não incha no começo, não aparece no espelho. Quando aparece sintoma, na maioria das vezes já foi — restam duas saídas, e as duas são caras: a máquina três vezes por semana ou a fila do transplante.
É por isso que o Brasil tem 172.585 pessoas em diálise, segundo o Censo Brasileiro de Diálise da Sociedade Brasileira de Nefrologia referente a 2024. Um ano antes eram 157.357. Um crescimento de quase 10% em doze meses, num país que não ficou 10% mais velho nem 10% mais diabético nesse intervalo.
O Ministério da Saúde acaba de mexer exatamente no ponto onde essa conta é decidida: o pedaço do cuidado que acontece antes da primeira sessão.
O que foi assinado
Em 17 de setembro de 2026, o secretário de Atenção Especializada à Saúde, Mozart Sales, assinou a portaria que cria as Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs) de Nefrologia, dentro do programa Agora Tem Especialistas.
OCI é um conceito administrativo que vale a pena traduzir. Hoje o SUS paga o cuidado em fatias: a consulta é um código, o exame de creatinina é outro, o ultrassom é outro, a avaliação do nutricionista é outro. Cada fatia com seu valor, sua autorização, sua fila. O paciente vira carteiro dos próprios exames, indo e voltando entre unidades para juntar os pedaços de um único tratamento.
A OCI empacota tudo isso. Consultas especializadas, exames laboratoriais e de imagem, acompanhamento multiprofissional e procedimentos entram num conjunto só, definido conforme o estágio da doença. O serviço recebe pelo pacote e se responsabiliza por entregá-lo inteiro.
E o valor do pacote subiu — muito. Segundo o ministério, os novos valores são de 263% a 360% maiores que os pagos antes. O exemplo divulgado é o mais eloquente: a preparação para hemodiálise passa de R$ 940,22 para R$ 3.000,63.
• Portaria assinada em 17 de setembro de 2026 por Mozart Sales (SAES/MS)
• Criação das OCIs de Nefrologia no programa Agora Tem Especialistas
• Valores 263% a 360% maiores que os anteriores
• Preparo para hemodiálise: de R$ 940,22 para R$ 3.000,63
• Pacote inclui consultas, exames laboratoriais e de imagem, equipe multiprofissional e procedimentos por estágio
• 62 serviços habilitados entre janeiro de 2025 e agosto de 2026
• 963 veículos para transporte gratuito de pacientes com trajeto acima de 50 km
• PCDT de anemia na doença renal crônica atualizado: R$ 3,5 milhões em 2026 e R$ 13,5 milhões em 2027
Por que "preparar" custa R$ 3 mil
Quem nunca acompanhou um paciente renal olha para "preparação para hemodiálise" e imagina uma conversa e um folheto. Não é.
Preparar alguém para diálise significa, entre outras coisas, construir um acesso vascular — em geral uma fístula arteriovenosa, uma cirurgia que costura uma artéria numa veia do braço para que o vaso engrosse e aguente ser puncionado três vezes por semana durante anos. A fístula precisa ser feita com meses de antecedência, porque leva tempo para amadurecer.
Quem chega à diálise sem fístula pronta entra por cateter venoso central — um tubo no pescoço ou no tórax. Funciona, salva, e é muito pior: infecta mais, tromba mais, interna mais, mata mais. Começar diálise por cateter é o equivalente nefrológico de descobrir a doença na emergência.
Preparar também significa vacinar contra hepatite B antes de entrar num ambiente de circulação extracorpórea, tratar a anemia, ajustar fósforo e cálcio, controlar pressão e, principalmente, conversar com o paciente sobre qual modalidade ele quer — hemodiálise no centro, diálise peritoneal em casa, ou entrar direto na fila de transplante.
Segundo o próprio ministério, é isso que as OCIs querem destravar: com acompanhamento especializado organizado, dá para identificar e encaminhar para avaliação de transplante antes mesmo de o paciente começar a dialisar. Transplante preemptivo, no jargão. É a melhor coisa que pode acontecer com um rim que está falhando, e é raríssima no Brasil justamente porque quase ninguém chega ao nefrologista com tempo de sobra.
R$ 940 não pagavam esse trabalho. Nem perto.
O problema que o dinheiro sozinho não resolve
Reajustar tabela é necessário. Mas repare no que está sendo reajustado: o cuidado de quem já chegou ao nefrologista.
O gargalo brasileiro está antes disso. A doença renal crônica é detectada com dois exames baratos e velhos — creatinina no sangue, para estimar a taxa de filtração glomerular, e albuminúria na urina. Custam centavos. Estão disponíveis em qualquer laboratório. E mesmo assim uma parte enorme dos casos só é descoberta em estágio avançado, porque ninguém pediu.
Quem deveria pedir? A atenção primária, em todo hipertenso, todo diabético, todo idoso, todo mundo com histórico familiar. Essa é a população onde a doença mora. Se o rastreamento acontecesse de verdade nesse nível, boa parte dos pacientes nem chegaria a precisar de OCI de preparo para diálise — porque a progressão teria sido freada anos antes com controle de pressão, controle glicêmico e as classes de medicamento que hoje comprovadamente retardam a perda de função renal.
A portaria organiza e financia melhor o meio do caminho. O começo do caminho continua sendo o elo fraco.
A fila que fica invisível
Tem um número que resume o tamanho do aperto na ponta: em levantamento conduzido pela Sociedade Brasileira de Nefrologia com suas regionais em maio de 2025, havia pelo menos 1.095 pacientes internados em hospitais de todo o Brasil apenas esperando vaga em clínica de diálise.
Leia de novo. Mil e noventa e cinco pessoas ocupando leito hospitalar — o recurso mais caro do sistema — não porque precisavam de hospital, mas porque não havia cadeira de diálise disponível. É desperdício e sofrimento na mesma frase.
Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, o ministério habilitou 62 serviços na área. E há 963 veículos destinados ao transporte gratuito de pacientes que moram a mais de 50 km do serviço — detalhe que parece burocrático e não é: num tratamento que exige três idas por semana, todas as semanas, para sempre, o transporte é o que separa a adesão do abandono.
A anemia que ninguém lembra
No mesmo pacote de medidas, o ministério atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da anemia na doença renal crônica, com impacto financeiro previsto de cerca de R$ 3,5 milhões em 2026 e R$ 13,5 milhões em 2027.
Anemia em doente renal não é detalhe. O rim é quem produz eritropoetina, o hormônio que manda a medula fazer glóbulos vermelhos. Rim ruim, menos eritropoetina, menos hemoglobina — e daí vem o cansaço, a falta de ar, a intolerância a esforço e a sobrecarga cardíaca que mata muito paciente renal antes de a diálise entrar em cena.
Atualizar protocolo aqui é decidir com que remédio, em que dose e a partir de qual hemoglobina o SUS trata essa anemia. Soa técnico. Na prática, é a diferença entre um paciente que consegue trabalhar e um que não sobe escada.
Vale o dinheiro?
"Não estamos apenas colocando mais recursos. Estamos mudando a forma de organizar e financiar o cuidado", disse Mozart Sales ao anunciar a medida.
É a frase certa, e é exatamente por isso que precisa ser cobrada. Pagar mais por procedimento não muda nada se o paciente continuar chegando tarde. Pagar por pacote muda tudo — se o pacote for auditado, se o serviço for cobrado pela entrega completa, e se houver nefrologista suficiente para atender.
Faça a conta do outro lado. Uma pessoa em hemodiálise custa ao SUS, em sessões, medicamentos, internações e complicações, muito mais por ano do que qualquer pacote de prevenção. Um transplante bem-sucedido custa caro no primeiro ano e barateia depois. Diálise não barateia nunca — ela só termina com transplante ou com óbito.
Gastar R$ 3 mil para preparar direito um paciente que vai passar dez anos na máquina não é generosidade orçamentária. É a aritmética mais básica que existe na saúde pública, e o Brasil demorou para fazê-la.
Enquanto isso, o exame que poderia ter evitado tudo continua custando alguns reais e continua não sendo pedido.
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