Um projeto quer aposentar o Papanicolau como exame padrão — e tornar a vacina de HPV obrigatória
O PL 969/26 propõe duas mudanças de peso no combate ao câncer de colo do útero: colocar a vacina contra HPV na lista de imunizantes obrigatórios e obrigar o SUS a priorizar testes moleculares de DNA-HPV no lugar do preventivo tradicional. No Amazonas, esse é o câncer mais frequente entre mulheres em 2026.
Existe um câncer que a medicina sabe exatamente como evitar. Conhece a causa — um vírus, um só. Tem vacina contra esse vírus há quase duas décadas. Tem exame de rastreio barato há mais de setenta anos. E ainda assim ele continua matando milhares de brasileiras por ano.
O câncer de colo do útero é o fracasso mais bem documentado da saúde pública brasileira. 99% dos casos são causados por infecção persistente pelo HPV — o papilomavírus humano. Não é um "fator de risco". É a causa, quase sem exceção.
É contra esse absurdo que o deputado Fausto Jr. (União-AM) apresentou o PL 969/26, que mexe em duas engrenagens ao mesmo tempo: a vacina que previne e o exame que detecta.
Mudança 1: a vacina vira obrigatória
Hoje a vacina contra HPV está no Calendário Nacional de Vacinação e é oferecida de graça, mas não figura na lista de imunizantes obrigatórios. O projeto quer mudar isso — colocá-la no mesmo patamar de tríplice viral, poliomielite e as demais vacinas que a lei considera compulsórias na infância e adolescência.
Vale entender o que "obrigatória" significa na prática brasileira, porque a palavra soa mais dura do que é. Ninguém segura criança à força. A obrigatoriedade opera por outro caminho: exigência de caderneta em matrícula escolar, em programas sociais, em benefícios — e, principalmente, uma mudança de estatuto simbólico. Vacina obrigatória é vacina que o pai precisa justificar por que não deu, em vez de vacina que ele precisa lembrar de dar.
Não é detalhe menor num país onde a cobertura de HPV, especialmente entre meninos, patina bem abaixo da meta desde que o imunizante entrou no calendário público em 2014.
Mudança 2: o teste molecular no lugar do preventivo
Esta é a parte que mais interessa a quem já ouviu "está na hora do preventivo" a vida inteira.
O Papanicolau — o exame de citologia que existe desde os anos 1940 — procura alterações nas células do colo do útero. É barato, é acessível e salvou milhões de vidas no mundo. Também tem duas limitações incômodas: depende de leitura humana ao microscópio, com variação entre observadores, e detecta o problema quando ele já começou a se manifestar na célula.
O teste molecular de DNA-HPV faz o caminho inverso: procura o vírus, não o estrago. É um exame de biologia molecular, automatizável, com sensibilidade substancialmente maior. Detecta risco antes de existir lesão — e permite espaçar os intervalos entre exames com segurança, porque um resultado negativo tem valor preditivo muito mais forte. O projeto usa exatamente esse argumento: as tecnologias moleculares oferecem "maior sensibilidade e precisão".
Traduzindo o burocratês: menos exames, mais confiáveis, com detecção mais precoce. O Brasil já vinha caminhando nessa direção — o Ministério da Saúde tem trabalhado a incorporação do DNA-HPV como estratégia de rastreio —, mas o projeto quer transformar tendência em obrigação legal.
• Vacina contra HPV obrigatória no calendário nacional de imunização
• SUS obrigado a priorizar testes moleculares (DNA-HPV) sobre o Papanicolau tradicional
• Unidades móveis de vacinação em áreas rurais, ribeirinhas e indígenas
• Prioridade orçamentária para regiões com mortalidade acima da média nacional
O contexto:
• 99% dos casos de câncer de colo do útero são causados por HPV persistente
• No Amazonas, é projetado como o câncer mais frequente entre mulheres em 2026
• Tramitação: comissões de Saúde; Defesa dos Direitos da Mulher; e Constituição e Justiça, antes de Câmara e Senado
O detalhe que revela a geografia da desigualdade
O projeto vem de um deputado do Amazonas, e isso não é coincidência de agenda regional. No estado, o câncer de colo do útero é projetado como o tipo mais frequente entre mulheres em 2026.
Pare um segundo nessa frase. No Sudeste, o câncer mais comum entre mulheres é o de mama, o que é o padrão de países desenvolvidos. No Norte, é o de colo do útero, o que é o padrão de países sem rastreio organizado. Dentro do mesmo território nacional, com o mesmo SUS no papel, convivem dois perfis epidemiológicos separados por meio século de desenvolvimento sanitário.
A explicação não é genética nem cultural. É logística. Rastrear câncer de colo do útero exige coleta periódica, laboratório para processar a amostra, sistema para devolver o resultado e serviço para tratar a lesão detectada. Cada um desses elos é frágil em município ribeirinho, em terra indígena, em comunidade a oito horas de barco da capital.
Por isso o projeto prevê unidades móveis de vacinação para áreas rurais, ribeirinhas e indígenas, e prioridade de recursos para regiões com mortalidade acima da média. É a diferença entre oferecer o serviço e entregá-lo.
O argumento que convence o Tesouro
Fausto Jr. não vendeu o projeto pelo apelo humanitário — ou não só. "Buscamos a modernização do rastreamento e a ampliação da cobertura vacinal para garantir economia futura ao SUS", afirmou.
É um argumento sólido e vale conhecê-lo, porque ele é o que costuma destravar orçamento. Uma dose de vacina custa uma fração de um único ciclo de quimioterapia. Uma lesão precursora detectada e cauterizada em ambulatório custa uma fração de uma histerectomia radical seguida de radioterapia. E nenhum desses valores contabiliza o custo invisível: mulheres em idade produtiva afastadas, famílias desestruturadas, filhos sem mãe.
Prevenção é, em oncologia, a rara política pública em que economizar dinheiro e salvar vida apontam para o mesmo lado.
O que fazer enquanto o projeto tramita
O PL ainda precisa passar por três comissões — Saúde; Defesa dos Direitos da Mulher; e Constituição e Justiça — antes de ir a plenário na Câmara e depois ao Senado. Traduzindo: não conte com isso para este ano.
Enquanto isso, o que já está disponível de graça no SUS: vacina contra HPV para meninas e meninos de 9 a 14 anos em dose única, além de grupos especiais como pessoas vivendo com HIV, transplantados e vítimas de violência sexual até faixas etárias mais amplas. E o exame preventivo para mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram vida sexual, na unidade básica mais próxima, sem necessidade de encaminhamento.
Se você tem filho ou filha nessa faixa etária, cheque a caderneta hoje. Se você é mulher adulta e não faz preventivo há mais de três anos, marque. Nenhuma das duas coisas depende de o Congresso votar nada.
Temos a vacina, temos o exame e agora temos um teste molecular melhor. O câncer de colo do útero continua matando brasileiras não por falta de ciência — por falta de entrega.
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