Salvar um rim custa 500 litros de água por sessão — e ninguém tinha feito essa conta
Uma sessão de hemodiálise de quatro horas gasta meio metro cúbico de água. São 78 mil litros por paciente ao ano, mais 323 quilos de resíduo sólido. Com 173 mil brasileiros em diálise, o tratamento que salva vidas consome o equivalente a 5,4 mil piscinas olímpicas por ano. Um hospital de São Paulo cortou 65% disso.
Imagine que a máquina que mantém você vivo três vezes por semana precise, a cada sessão, de uma caixa d'água inteira de 500 litros. Não para você beber — para atravessar um filtro, limpar seu sangue e ir embora pelo ralo. Agora multiplique por três sessões semanais, por 52 semanas, por uma vida.
Essa é a aritmética silenciosa da hemodiálise, e ela acaba de virar pauta oficial da nefrologia brasileira. Cada sessão de quatro horas consome cerca de 500 litros de água. Ao longo de um ano, um único paciente em hemodiálise consome aproximadamente 78 mil litros — e gera cerca de 323 quilos de resíduo sólido.
Ninguém aqui está sugerindo economizar água deixando de tratar gente. O tratamento é inegociável: sem diálise, o paciente com doença renal crônica em estágio terminal morre em semanas. A questão que a Sociedade Brasileira de Nefrologia colocou na mesa é outra, e bem mais interessante — quanto dessa água está sendo desperdiçada por pura inércia de engenharia?
Por que a diálise bebe tanto
A água que entra numa máquina de hemodiálise não é água de torneira. Ela precisa ser ultrapura: sem bactérias, sem endotoxinas, sem alumínio, sem cloro, sem flúor. Qualquer contaminante que passe do filtro entra em contato direto com o sangue do paciente através de uma membrana. O Brasil aprendeu isso da pior forma possível em Caruaru, em 1996, quando 60 pacientes morreram após a água de uma clínica ser contaminada por cianotoxinas.
Para chegar a esse grau de pureza, usa-se osmose reversa: a água é empurrada sob pressão contra uma membrana que retém praticamente tudo. O problema é o rendimento. Uma parte da água atravessa purificada e vai para a máquina; o resto — o chamado "rejeito" — carrega os sais concentrados e, na esmagadora maioria das clínicas brasileiras, vai direto para o esgoto.
Repare no detalhe: esse rejeito não é água suja. É água potável com sal a mais. Ela poderia lavar chão, alimentar descarga, irrigar jardim, resfriar equipamento. Vai pelo ralo porque o projeto original da clínica nunca previu que alguém fosse querer usá-la.
• 500 litros de água por sessão de 4 horas
• ~78 mil litros por paciente ao ano
• ~323 kg de resíduo sólido por paciente ao ano
• +173 mil brasileiros em tratamento dialítico (Censo Brasileiro de Diálise 2025)
• Conta do país: cerca de 13,5 bilhões de litros de água por ano — o equivalente a 5,4 mil piscinas olímpicas
• O setor saúde responde por 5% a 10% das emissões globais de carbono (Ministério da Saúde/OPAS)
• As recomendações de nefrologia sustentável foram aprovadas com 98,5% de concordância na 2ª Convenção da SBN
O hospital que cortou 65% e provou que dá
Enquanto a discussão corria no plano das recomendações, o Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo, foi fazer. Instalou um sistema inteligente de recuperação de água depois da etapa de osmose reversa: em vez de descartar o rejeito, a tecnologia faz um tratamento secundário e devolve a maior parte do volume ao processo produtivo.
Os números da operação são específicos o suficiente para não deixar dúvida. O consumo diário caiu de aproximadamente 28.600 litros para cerca de 10 mil litros. São 18.618 litros reaproveitados por dia, com perda de apenas 200 litros. No mês, mais de 558 mil litros economizados — o consumo de 55 residências. Redução total: 65%.
O rejeito secundário, aquele que sobra depois de tudo, ainda é usado para limpeza dos filtros dos equipamentos. É a definição de eficiência: a água só sai do prédio quando não há mais nada útil a fazer com ela.
"A sustentabilidade na saúde passa necessariamente pela adoção de soluções inteligentes que preservem os recursos naturais sem comprometer a qualidade e a segurança assistencial", resume Silvia Aline Ferreira Andrade, diretora de operações do hospital. A frase-chave é a segunda metade: nada disso mexeu na pureza da água que chega ao paciente. O hospital entrou em 2026 no ranking World's Greenest Hospitals, da Newsweek com a Statista.
A nefrologia decidiu encarar o assunto
A Sociedade Brasileira de Nefrologia criou em 2023 um Comitê de Nefrologia Sustentável e agora publicou, no Brazilian Journal of Nephrology, um conjunto de recomendações para reduzir o impacto ambiental do tratamento renal. As diretrizes foram aprovadas com 98,5% de concordância durante a 2ª Convenção da entidade — nível de consenso raro em qualquer assembleia médica do planeta.
"O cuidado com os rins não pode estar separado do cuidado com o meio ambiente", afirma a nefrologista Cinthia Vieira, gestora da Clinefro e coordenadora do comitê. Não é frase de efeito ambientalista: existe uma ironia clínica embutida nessa história. A doença renal crônica é agravada por desidratação, por calor extremo e por poluição — e o tratamento dela é uma das terapias mais intensivas em água e energia da medicina. O remédio pressiona a causa.
Vale lembrar a escala do problema no Brasil. O Censo Brasileiro de Diálise 2025 aponta mais de 173 mil pacientes em tratamento dialítico, número que cresce ano após ano na esteira da hipertensão e do diabetes mal controlados. Multiplique 173 mil por 78 mil litros e você chega a algo em torno de 13,5 bilhões de litros por ano. É água suficiente para abastecer uma cidade média inteira.
O argumento que convence quem não se comove com meio ambiente
Se o apelo ambiental não sensibiliza, o financeiro costuma resolver. Água tratada custa dinheiro. Esgoto industrial custa dinheiro. Energia para bombear e aquecer custa dinheiro. Clínica de diálise no Brasil opera com margens apertadíssimas — a tabela SUS para a sessão de hemodiálise é reajustada com a frequência de um cometa, e a maioria das clínicas vive reclamando, com razão, de subfinanciamento.
Nesse contexto, cortar 65% da conta de água não é gesto verde: é sobrevivência do negócio. É provavelmente o único caso em saúde no qual o interesse do planeta, do caixa da clínica e da segurança do paciente apontam exatamente para o mesmo lado — e ainda assim a prática é exceção, não regra.
O que isso significa para quem faz diálise
Se você ou alguém da sua família está em hemodiálise, nada disso muda a sessão. Não há redução de tempo, de volume filtrado ou de qualidade — e desconfie de qualquer clínica que sugira o contrário em nome de "economia". A água que toca a membrana continua tendo que ser ultrapura, ponto final.
O que dá para fazer é perguntar. Clínicas que reaproveitam rejeito costumam ter orgulho disso e responder na hora. E, no plano mais amplo, vale lembrar que a melhor política de água em nefrologia é a que evita a diálise: controle de pressão, controle de glicemia e o exame de creatinina com cálculo da taxa de filtração glomerular, que o SUS oferece e quase ninguém pede.
Um paciente em diálise consome, em água, o equivalente a uma família inteira. Trezentos mil brasileiros a mais na fila renal nos próximos anos não é só uma tragédia clínica — é uma conta hídrica que o país ainda não sabe que vai pagar.
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