A pílula diária que metade abandona pode virar injeção bimestral — se o SUS disser sim

A pílula diária que metade abandona pode virar injeção bimestral — se o SUS disser sim

A Conitec abriu consulta pública para incorporar o cabotegravir injetável de longa duração como PrEP no SUS. O dado que sustenta o pedido é brutal: dos 153 mil brasileiros que começaram a PrEP em comprimido, 82 mil pararam. Entre adolescentes, 7 em cada 10 abandonam.

SaúdeCidade ·

A medicina resolveu um problema extraordinário na última década: existe um remédio que, tomado corretamente, reduz em mais de 99% o risco de contrair HIV por via sexual. Chama-se PrEP — profilaxia pré-exposição. O SUS distribui de graça desde 2018. E o Brasil registrou mais de 39 mil novos casos de HIV em 2024.

Como as duas coisas coexistem? Porque a farmacologia resolveu a parte dela, mas sobrou a parte humana: tomar um comprimido todos os dias, durante anos, exige uma constância que a vida real raramente oferece. Dos 153.529 brasileiros cadastrados na PrEP oral, 82.730 descontinuaram o uso. Mais da metade. O remédio funciona; a rotina, não.

É esse buraco que a Consulta Pública nº 76/2026 da Conitec quer fechar: está em avaliação a incorporação do cabotegravir injetável de longa duração — uma injeção a cada dois meses, em vez de 365 comprimidos por ano. Se aprovado, será a primeira PrEP injetável do SUS.

O problema não é o remédio — é a segunda-feira

Os números de abandono da PrEP oral contam uma história sobre quem mais precisa de proteção. Entre menores de 18 anos, 71% abandonam. Entre jovens de 18 a 24, 53%. Mulheres cis: 54%. Travestis: 42%. Mulheres trans: 40%. Repare no padrão — o abandono é maior exatamente nos grupos mais vulneráveis à infecção.

E a vulnerabilidade não é abstração estatística: jovens de 15 a 24 anos somam cerca de 175 mil casos de HIV notificados desde 1991 — um em cada quatro casos do país. Entre travestis e mulheres trans, a prevalência estimada é de 19,9%, com chance 66 vezes maior de infecção que a população geral. Homens de 20 a 29 anos concentraram 44,7% dos diagnósticos masculinos em 2024.

Tomar comprimido diário parece trivial para quem tem rotina estável, casa estável, sigilo garantido. Para um adolescente que esconde o frasco da família, para quem vive em situação de rua ou para quem enfrenta o estigma de ser visto com "remédio de HIV", cada comprimido é uma pequena batalha diária. A injeção bimestral transforma 365 batalhas em seis.

PrEP no Brasil — o tamanho do desafio:

39 mil+ novos casos de HIV no Brasil em 2024
153.529 pessoas cadastradas na PrEP oral — 82.730 descontinuaram (54%)
• Abandono entre menores de 18 anos: 71%; jovens de 18-24: 53%
• Prevalência de HIV entre travestis e mulheres trans: 19,9% — risco 66x maior
• Em São Paulo, a PrEP oral já derrubou novas infecções em 55% em sete anos
• Cabotegravir: injeção a cada 2 meses — 6 aplicações/ano no lugar de 365 comprimidos
• Consulta Pública nº 76/2026: contribuições até 31 de agosto, via gov.br

A prova de que prevenção funciona quando cabe na vida real

Quem duvida do impacto de uma política de PrEP bem executada pode olhar para São Paulo: redução de 55% nas novas infecções por HIV em sete anos com a PrEP oral. Isso com todo o problema de adesão embutido. A pergunta que a Conitec está fazendo, no fundo, é: quanto mais dá para reduzir quando a prevenção não depende mais da memória e da rotina de cada um?

Os estudos internacionais com cabotegravir injetável apontaram superioridade em relação à PrEP oral justamente por isso — não porque a molécula seja mais potente contra o vírus, mas porque a injeção aplicada no serviço de saúde elimina a variável que mais falha: o humano esquecendo, desistindo ou escondendo o comprimido.

Como resume o infectologista Álvaro Costa, do Hospital das Clínicas de São Paulo, avaliar novas alternativas preventivas em processos transparentes e baseados em evidências "permite ampliar a discussão sobre acesso, equidade e sustentabilidade". Tradução: não basta a tecnologia existir — ela precisa chegar a quem o comprimido não alcançou.

O elefante na sala: o preço

Sejamos adultos: medicamento de longa duração patenteado não é barato, e a Conitec existe exatamente para fazer a conta fria — quanto custa cada infecção evitada versus quanto custa tratar uma pessoa com HIV pelo resto da vida. O tratamento antirretroviral de uma única pessoa custa ao SUS dezenas de milhares de reais ao longo dos anos, sem contar internações e complicações.

A aritmética tende a favorecer a prevenção quando o remédio é direcionado a quem tem risco alto e adesão baixa — exatamente o desenho proposto. Mas o preço final negociado com o fabricante vai decidir se a incorporação sai do papel. Consulta pública também serve para isso: pressão social documentada é ingrediente de negociação.

O que fazer (de verdade)

A consulta pública é aberta a qualquer cidadão — profissional de saúde, pesquisador, paciente, sociedade civil ou você que simplesmente tem opinião. O caminho: acessar a Consulta Pública nº 76/2026 no site da Conitec, entrar com a conta gov.br, ler o relatório técnico e enviar sua contribuição no formulário. Prazo: 31 de agosto.

Enquanto a injetável não chega: a PrEP oral continua disponível, gratuita, nos serviços do SUS — e funciona muito bem para quem consegue manter o uso. Se você tem vida sexual ativa com exposição de risco, procure um serviço de IST/HIV. E a prevenção combinada segue valendo: preservativo, testagem regular, PEP de emergência.

O Brasil já provou que sabe fazer política de HIV grande — foi referência mundial nos anos 1990 ao distribuir antirretroviral quando ninguém distribuía. A PrEP injetável é a chance de repetir o gesto: pegar a melhor ciência disponível e entregá-la exatamente para quem a pílula diária deixou para trás. A janela para opinar fecha dia 31.

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