Existe criança de 10 anos que precisa de estatina — e ninguém está olhando
A Sociedade Brasileira de Cardiologia defende dosar o colesterol de todo mundo aos 10 anos. O motivo é desconfortável: crianças com hipercolesterolemia familiar podem infartar antes da adolescência, e a dieta sozinha resolve no máximo 10% do problema.
Você provavelmente fez seu primeiro exame de colesterol depois dos 30, num check-up de empresa, ou porque o médico pediu "já que você está aqui". É mais ou menos o padrão brasileiro: a gente descobre o colesterol quando ele já teve duas décadas de trabalho silencioso nas artérias.
A cardiologia acha isso tarde. Muito tarde. A recomendação defendida pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, com base em estudo publicado em setembro de 2025, é que todas as pessoas façam a dosagem de colesterol aos 10 anos de idade. Não crianças obesas. Não crianças com histórico familiar. Todas.
"Todas as pessoas façam a dosagem do colesterol aos 10 anos de idade", afirmou o vice-presidente do Departamento de Aterosclerose da SBC, Renato Jorge Alves. A frase soa exagerada até você entender o que a triagem está procurando.
A criança que infarta aos 10 anos
Existe uma condição genética chamada hipercolesterolemia familiar. Ela não é rara — atinge cerca de 1 em cada 250 pessoas, o que no Brasil significa algo perto de 900 mil indivíduos. A maioria absoluta não sabe que tem.
Nessa condição, o corpo tem um defeito na maquinaria que retira o LDL da circulação. O colesterol se acumula desde o nascimento, em níveis que uma pessoa comum só atingiria após décadas de má alimentação. E a artéria não distingue colesterol genético de colesterol de churrasco — ela vai formando placa do mesmo jeito, só que com quarenta anos de vantagem.
O resultado extremo, nos casos mais graves (a forma homozigótica), é o que cardiologistas relatam e ninguém quer imaginar: crianças que infartam aos 10 anos por obstrução das coronárias. Não é figura de linguagem. É a razão pela qual a recomendação de triagem existe.
Por que a dieta não vai salvar o dia
Aqui está o dado que mais incomoda o senso comum: cerca de 70% do colesterol do seu corpo é produzido pelo próprio organismo, principalmente no fígado. Só o restante vem da comida.
A consequência prática é dura de engolir para quem acredita que disciplina alimentar resolve tudo: mudanças na dieta, sozinhas, reduzem o colesterol em 5% a 10%. É real, é útil, e não é suficiente para quem tem uma alteração genética. Pedir para uma criança com hipercolesterolemia familiar "cortar a gordura" e esperar normalizar é como pedir para alguém empurrar um caminhão desligado ladeira acima — o esforço é honesto, a física é que não coopera.
Quando o colesterol total ultrapassa 300 mg/dL, a indicação de origem genética é forte, e o tratamento medicamentoso entra em cena junto com — não no lugar de — a mudança de estilo de vida.
• Idade recomendada para a primeira dosagem: 10 anos
• Parcela do colesterol produzida pelo próprio corpo: ~70%
• Redução obtida só com dieta: 5% a 10%
• Acima de 300 mg/dL: forte indício de causa genética
• Meta de atividade física: 150 a 300 minutos por semana
• Vilões da dieta: gordura saturada (carne vermelha, frios, chocolate) e gordura trans (ultraprocessados)
• Sono ruim aumenta colesterol e triglicérides — fator frequentemente ignorado
Estatina não é opcional quando o problema é genético
A estatina virou, no imaginário popular, um remédio de gente descuidada — algo que você toma porque não teve força de vontade. Há uma indústria inteira de conteúdo na internet dedicada a convencer as pessoas de que estatina faz mal, causa demência, destrói o fígado e é empurrada por laboratórios.
Para quem tem hipercolesterolemia familiar, essa narrativa é perigosa. Nesses casos, as estatinas são essenciais e não devem ser interrompidas — a interrupção devolve o paciente à trajetória de infarto precoce que o remédio estava travando. Estatina, nesse contexto, não é muleta de estilo de vida. É reposição de uma função que o corpo não faz sozinho, tão negociável quanto insulina para quem tem diabetes tipo 1.
O que fazer (além de cortar bacon)
Para a maioria das pessoas, sem alteração genética, o pacote de sempre funciona — e vale detalhar porque os detalhes são o que muda o exame:
Exercício: a meta é acumular entre 150 e 300 minutos semanais. Repare no verbo: acumular. Não precisa ser uma hora seguida na academia; caminhada rápida picotada durante a semana conta.
Gordura saturada e trans: a saturada está na carne vermelha, nos frios, no chocolate. A trans, nos ultraprocessados. A trans é a pior das duas — ela sobe o LDL e derruba o HDL ao mesmo tempo, uma combinação que nenhum alimento de verdade consegue fazer.
Sono: o item que ninguém associa a colesterol. Sono inadequado favorece o aumento tanto do colesterol quanto dos triglicérides. Se você dorme cinco horas por noite e está frustrado porque o exame não melhora apesar da dieta, aí está uma variável que a salada não resolve.
O exame que custa quase nada
Um perfil lipídico é um dos exames mais baratos do laboratório e está disponível no SUS pela atenção básica. É uma coleta de sangue, algumas horas de processamento e um número que pode reposicionar o risco cardiovascular de uma família inteira — porque hipercolesterolemia familiar é dominante: descobrir numa criança acende o alerta para pais, irmãos, tios.
A aterosclerose começa na infância em todo mundo — as primeiras estrias de gordura nas artérias já aparecem em autópsias de adolescentes. A diferença é a velocidade. Em algumas crianças, o processo corre trinta anos adiantado, e o único jeito de saber quais é medindo. O infarto avisa uma vez só, e a essa altura o aviso é o próprio evento.
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