"Isso é da idade" é o diagnóstico mais preguiçoso da ginecologia

"Isso é da idade" é o diagnóstico mais preguiçoso da ginecologia

São 30 milhões de brasileiras na faixa da menopausa e 82% delas têm sintomas que atrapalham a vida. Dor na relação, secura e perda de desejo têm causa identificável e tratamento — mas continuam sendo despachadas no consultório como fatalidade biológica.

SaúdeCidade ·

Tem uma frase que milhões de mulheres brasileiras já ouviram sentadas numa maca, com os pés no estribo, depois de reunir coragem para contar que sexo passou a doer: "é normal na sua idade". A consulta termina ali. Não vem exame, não vem exame físico direcionado, não vem encaminhamento. Vem uma sentença disfarçada de acolhimento.

O Brasil tem 30 milhões de mulheres na faixa etária da menopausa, e 82% delas relatam sintomas que impactam a qualidade de vida. Não é um nicho. É uma em cada sete pessoas do país convivendo com algo que, na maioria dos casos, tem nome, mecanismo e tratamento.

O que realmente acontece com o corpo

A queda do estrogênio na menopausa não afeta só a temperatura corporal e o humor. Ela muda a estrutura do tecido genital: a mucosa vaginal afina, perde elasticidade, produz menos lubrificação e o pH se altera. Isso tem nome técnico — síndrome geniturinária da menopausa — e consequências bem concretas: secura, ardência, dor durante a relação, mais infecção urinária de repetição.

É importante entender que isso não é "falta de vontade" nem questão psicológica. É tecido mudando de propriedade física. Esperar que desejo apareça enquanto a relação dói é como esperar que alguém queira almoçar num restaurante onde já queimou a boca três vezes — o corpo aprende rápido a evitar dor.

E o círculo se fecha: a dor gera antecipação de dor, a antecipação gera contratura dos músculos do assoalho pélvico, e a contratura gera mais dor. A essa altura, o problema já não é só hormonal. Virou também muscular e neurológico.

Nem toda dor é da menopausa — e essa é a parte perigosa

Aqui está o motivo pelo qual "é da idade" não é só desrespeitoso: é clinicamente arriscado. Dor profunda na pelve durante o sexo pode ter causas que nada têm a ver com estrogênio.

Endometriose, aderências pélvicas (frequentemente pós-cirúrgicas) e doença inflamatória pélvica produzem exatamente essa queixa. São condições que exigem investigação, imagem e, às vezes, cirurgia. Quando a dor é carimbada como "menopausa" no primeiro atendimento, o diagnóstico correto pode levar anos — e a endometriose brasileira já tem um histórico vergonhoso nesse quesito, com médias de sete a dez anos entre o primeiro sintoma e o diagnóstico.

Menopausa e queixas sexuais: o que os números mostram

30 milhões de brasileiras estão na faixa etária da menopausa
82% apresentam sintomas com impacto na qualidade de vida
• Queixas mais comuns: secura vaginal, dor na relação, perda de libido, dor pélvica profunda
• Causas frequentemente confundidas com "idade": endometriose, aderências, doença inflamatória pélvica
• Componente muscular: contratura do assoalho pélvico, tratável com fisioterapia pélvica
• Ferramentas terapêuticas: hormônios (sistêmicos ou locais), fisioterapia, abordagem sexológica, exercício e alimentação

"A sexualidade não morre"

A frase é da ginecologista Jussimara Souza Steglich, membro da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Febrasgo. A citação completa merece ser lida devagar: "A sexualidade não morre. Ela pode ficar obscurecida por algum fator que não deixa a mulher viver a sua sexualidade."

É uma reformulação importante do problema. A pergunta clínica correta não é "por que essa mulher perdeu o desejo aos 52 anos", como se houvesse um cronômetro biológico se esgotando. É "o que está no caminho" — dor, ressecamento, remédio, depressão, insônia, relação ruim, sobrecarga de cuidado com pais idosos e filhos adultos. Cada um desses obstáculos tem manejo próprio.

O arsenal existe (e não é só hormônio)

O tratamento das queixas sexuais na menopausa é multidisciplinar por natureza, e vale conhecer as peças:

Terapia hormonal, com orientação médica e avaliação individual de risco. Existe também a opção do estrogênio de uso local, aplicado na vagina, que age no tecido com absorção sistêmica muito baixa — uma alternativa para mulheres que não podem ou não querem terapia hormonal sistêmica.

Fisioterapia pélvica, essencial quando existe contratura muscular. É a parte mais subutilizada do arsenal no Brasil, apesar de ser justamente a que resolve o componente de dor que os hormônios não alcançam.

Abordagem sexológica e trabalho multidisciplinar, principalmente nos quadros de dor crônica, em que o cérebro já aprendeu a associar aquele contexto a ameaça.

Atividade física, alimentação e sono, que não são conselho de encerramento genérico: influenciam diretamente disposição, imagem corporal, sintomas vasomotores e humor.

O que fazer se você está nessa

Chegue à consulta com o sintoma específico, não com o resumo educado. "Tenho ressecamento e dor na penetração há oito meses" produz uma conduta diferente de "as coisas mudaram um pouco". Descreva se a dor é na entrada ou profunda — essa distinção sozinha já separa hipóteses diagnósticas.

Se a resposta que você receber for "é da idade", sem exame físico e sem plano, procure outra opinião. Ginecologistas com formação em climatério e sexologia existem, inclusive na rede pública, e a Febrasgo mantém comissões especializadas justamente porque essa área tem conhecimento acumulado que não chega ao consultório médio.

Trinta milhões de mulheres não podem estar todas condenadas ao mesmo desconforto por decreto biológico. A menopausa é inevitável. O sofrimento que vem junto, na maior parte das vezes, não é.

Compartilhar: