As enchentes do RS fizeram crianças voltarem a chupar dedo — e o Brasil quer uma política de saúde mental para isso
Uma campanha pede aprovação do PL 6151/25, que criaria o Sistema Nacional de Saúde Mental Climática. O projeto parte de um fato concreto: desastres climáticos deixam feridas psicológicas que o SUS ainda não sabe tratar de forma sistemática — e a crise climática vai multiplicar a frequência desses desastres.
Depois das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, os professores voltaram à sala de aula e encontraram algo desconcertante. Crianças de 10 anos — que há meses não faziam isso — voltaram a chupar o dedo. Algumas voltaram a fazer xixi na cama. Os professores não precisavam de manual de psicologia para reconhecer o que estavam vendo: era regressão, a resposta do psiquismo infantil a um trauma que não tinha sido processado.
As enchentes do RS foram o maior desastre climático da história do Brasil. Mais de 400 mortos, 800 mil desalojados, cidades inteiras submersas. O país mobilizou recursos para reconstruir casas, pontes, estradas. Não mobilizou, de forma equivalente, recursos para reconstruir o que as águas inundaram dentro das pessoas. É exatamente esse vácuo que o Projeto de Lei 6151/25 pretende preencher.
O que é saúde mental climática
O termo pode soar acadêmico, mas o fenômeno é concreto. Saúde mental climática é o conjunto de danos emocionais, psicológicos e comunitários causados pela crise climática — tanto pelos eventos extremos agudos (enchentes, secas, ondas de calor) quanto pela ansiedade crônica de quem vive em território de risco ou acompanha o noticiário de colapso ambiental.
Não é um problema novo. O que é novo é a frequência e a escala: o IPCC projeta que eventos climáticos extremos vão aumentar em intensidade e regularidade ao longo das próximas décadas. O Brasil — com sua exposição a secas no Nordeste, enchentes no Sul e Sudeste, e ondas de calor crescentes — é particularmente vulnerável. E o SUS, que já tem déficit crônico em saúde mental, vai receber essa demanda sem estrutura específica para ela.
O que o projeto propõe
O PL 6151/25, de autoria dos deputados Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) — ambos gaúchos que vivenciaram as enchentes de perto — propõe criar um arcabouço nacional para isso. A iniciativa conta com o apoio da organização Time To Act, fundada pela produtora e advogada Luciana Brafman, que lançou uma campanha para pressionar pela aprovação do projeto na Câmara.
• Criar um Sistema Nacional de Saúde Mental Climática
• Estabelecer Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades
• Integrar saúde, assistência social, educação e defesa civil em resposta a desastres
• Garantir atendimento a grupos vulneráveis: crianças, idosos, pessoas com deficiência
• Desenvolver ações de prevenção e divulgação científica sobre impactos climáticos na saúde mental
• Autores: dep. Pompeo de Mattos (PDT-RS) e dep. Fernanda Melchionna (PSOL-RS)
Fonte: Câmara dos Deputados / Time To Act, 2026.
O que as enchentes do RS revelaram sobre o psiquismo
O pedagogo Reinaldo Nascimento documentou o que observou nas escolas afetadas pelas enchentes gaúchas: crianças que voltaram a comportamentos abandonados há anos. Não só o chupar dedo e o xixi na cama — houve aumento nas denúncias de violência sexual infantil, intensificação de medos, dificuldade de concentração, agressividade. A escola virou o lugar onde o trauma apareceu — mas os professores não tinham treinamento para lidar com isso, e o sistema de saúde não tinha protocolo específico.
Isso não é surpresa para a literatura científica. Desastres naturais estão consistentemente associados a aumento de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), depressão, ansiedade e comportamento suicida nas populações afetadas. O que é surpreendente é que o Brasil tenha chegado ao maior desastre climático da sua história sem uma política nacional de resposta psicológica.
A conexão que o SUS ainda não fez
O SUS tem uma rede de saúde mental — os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), os serviços de emergência psiquiátrica, a atenção básica. Mas essa rede não foi desenhada para escalar rapidamente em resposta a desastres geográficos. Ela foi construída para demanda crônica e difusa, não para o pico de necessidade aguda que um desastre climático cria em uma região específica em curtíssimo tempo.
A proposta do PL 6151/25 não é substituir o que existe — é criar a camada de resposta específica que falta. Centros de Resiliência que possam ser ativados em situação de desastre, com equipes treinadas para trauma coletivo, integradas com a defesa civil e com a assistência social.
O tempo que a política não tem
O Rio Grande do Sul reconstruiu casas. Ainda está reconstruindo vidas. A próxima enchente — e haverá uma próxima, em algum lugar do Brasil — vai encontrar o país com ou sem política de saúde mental climática. A diferença entre ter e não ter esse sistema não é filosófica: é a criança de 10 anos que volta a chupar dedo por meses sem ter com quem conversar sobre o rio que engoliu tudo que ela conhecia.
O clima não vai esperar o legislativo votar. Mas o legislativo ainda pode votar antes da próxima enchente.
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