A SRAG está caindo no Brasil — mas em 9 capitais ainda sobe, e quem mais mata neste inverno não é a covid

A SRAG está caindo no Brasil — mas em 9 capitais ainda sobe, e quem mais mata neste inverno não é a covid

O boletim InfoGripe da Fiocruz mostra tendência de queda da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Só que o mapa é irregular: nove capitais crescem, o vírus que mais interna é o VSR das crianças, e a influenza responde por um terço das mortes.

SaúdeCidade ·

"A SRAG está caindo" é o tipo de manchete que dá vontade de guardar o casaco e esquecer a vacina. Guarde o entusiasmo junto com o casaco. O boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgado nesta semana, confirma a tendência de queda nacional da Síndrome Respiratória Aguda Grave — aquela que enche prontos-socorros e UTIs no inverno —, mas o Brasil, como sempre, se recusa a ter um número só. São 27 realidades diferentes debaixo de uma média que engana.

Enquanto a média desce, nove capitais ainda sobem: Belo Horizonte, Boa Vista, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, Manaus, Palmas, Porto Alegre e Rio Branco. Se você mora numa delas, o inverno não pediu trégua — ele está no meio.

O vírus que mais interna não é o que você imagina

Pergunte a qualquer pessoa qual vírus respiratório mais preocupa e a resposta virá automática: covid. Os dados dizem outra coisa. Nas últimas quatro semanas, entre os casos que deram positivo, o campeão de internações é o vírus sincicial respiratório (VSR), com 55,9% — mais da metade. O rinovírus (o do resfriado comum) vem com 23,3%, a influenza A com 12,7%, a influenza B com 8,4%, e o SARS-CoV-2, o vilão de outrora, aparece lá embaixo com apenas 2,2%.

O VSR é o terror silencioso dos bebês. Para um adulto saudável, é um resfriado chato. Para uma criança com menos de dois anos, pode fechar as vias aéreas finas o suficiente para exigir oxigênio e internação. Por isso a maior incidência de SRAG se concentra justamente nos menores de 2 a 4 anos — e por isso a vacina materna e o anticorpo monoclonal para recém-nascidos importam tanto.

Quem circula e quem mata (últimas 4 semanas — Fiocruz):

Vírus que mais internam:
• VSR: 55,9%  • Rinovírus: 23,3%
• Influenza A: 12,7%  • Influenza B: 8,4%  • Covid: 2,2%

Vírus que mais matam:
• Influenza A: 33,1%  • Rinovírus: 26,3%
• VSR: 21,7%  • Influenza B: 15,4%  • Covid: 6,9%

Interna x mata: a inversão que assusta

Aqui está o dado que deveria ir para a geladeira de todo mundo. O VSR interna mais, mas quem mais mata é a influenza A, responsável por 33,1% dos óbitos, seguida pelo rinovírus (26,3%) e só então pelo VSR (21,7%). Ou seja: o vírus que mais lota a enfermaria não é o que mais leva ao pior desfecho. A gripe, aquela que muita gente ainda trata como "resfriadão", concentra a mortalidade — sobretudo entre idosos.

É a diferença entre o vírus que assusta a família e o vírus que mata o avô. E é exatamente por isso que a vacina da gripe, oferecida de graça pelo SUS aos grupos prioritários, continua sendo a intervenção com melhor custo-benefício do inverno brasileiro.

O que os números escondem

Desde o início do ano, o Brasil notificou 109.347 casos de SRAG. Desses, 56.530 (51,7%) confirmaram algum vírus, 37.770 deram negativo e mais de 8 mil ainda aguardam resultado. A influenza B, que costuma ser coadjuvante, mantém crescimento no Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina — um comportamento que os pesquisadores estão observando de perto.

A pesquisadora Tatiana Portella, da Fiocruz, resume a orientação sem rodeios: "A população dos grupos prioritários deve manter a vacinação contra a influenza em dia, pois ela reduz o risco de hospitalizações e mortes." Traduzindo: a vacina não impede necessariamente pegar o vírus, mas muda o final da história.

O que fazer neste meio de inverno

As recomendações são de um tédio comprovadamente eficaz. Vacine-se contra a gripe se você tem mais de 60 anos, é gestante, tem doença crônica ou é criança pequena. Evite levar quem está com sintomas respiratórios para perto de idosos, bebês e imunocomprometidos. E, se você mesmo está espirrando e tossindo, a máscara que todo mundo aprendeu a odiar na pandemia continua funcionando — ela não sabe que a emergência acabou.

A curva está descendo, é verdade. Mas curva que desce ainda tem gente em cima dela. Entre acreditar na média nacional e olhar o número da sua capital, olhe o da sua capital — é ele que decide se o casaco volta para o armário ou fica mais um mês na cadeira.

Compartilhar: