Uma vacina contra todas as malárias? A Fiocruz pode ter achado o mapa que faltava

Uma vacina contra todas as malárias? A Fiocruz pode ter achado o mapa que faltava

Pesquisadores brasileiros identificaram 453 fragmentos de proteínas do parasita que ativam um tipo de defesa até agora ignorado pelas vacinas atuais — e que funciona contra as cinco espécies que causam a doença em humanos. O estudo, publicado na Nature, ainda está longe da farmácia, mas muda o alvo da caçada.

SaúdeCidade ·

As vacinas contra malária que existem hoje têm um problema incômodo: funcionam mais ou menos. A RTS,S, a primeira aprovada pela OMS, protege cerca de 30% a 40% das crianças vacinadas — e só contra o Plasmodium falciparum, a espécie mais letal, mas não a única que circula pelo mundo. É como blindar a porta da frente da casa e deixar as janelas de todos os outros cômodos escancaradas.

Um estudo brasileiro publicado em 1º de julho na revista Nature pode ter encontrado o motivo dessa limitação — e um caminho para resolvê-la. Pesquisadores da Fiocruz, liderados pela imunologista Caroline Junqueira, identificaram 453 fragmentos de proteínas do Plasmodium (derivados de 166 proteínas diferentes do parasita) capazes de provocar uma resposta imune que nenhuma vacina atual havia explorado direito.

O erro de mira das vacinas atuais

Praticamente todo o esforço vacinal contra malária até hoje mirou os anticorpos: ensinar o corpo a reconhecer o parasita na superfície e neutralizá-lo antes que ele entre nas células do fígado. Funciona, até certo ponto. O problema é que o Plasmodium é escorregadio — muda de forma entre as fases no mosquito, no fígado e no sangue, e os anticorpos treinados para uma fase não reconhecem as outras.

A equipe da Fiocruz foi atrás de outra frente de defesa: os linfócitos T CD8+, células que não neutralizam o invasor à distância, mas caçam e destroem diretamente as células humanas já infectadas pelo parasita — inclusive as do fígado, onde o Plasmodium se esconde nos primeiros dias antes de cair na circulação sanguínea. "Um dos principais desafios sempre foi encontrar bons alvos vacinais", resume Junqueira. Eles encontraram 453 deles.

O que os pesquisadores encontraram:

453 peptídeos (fragmentos de proteína) capazes de ativar linfócitos T CD8+
• Derivados de 166 proteínas diferentes do parasita Plasmodium
• Resposta imune confirmada em 5 espécies de Plasmodium que infectam humanos
• Testado em humanos naturalmente infectados, humanos com infecção experimental controlada e modelos animais
• Ação em múltiplos estágios do parasita — fígado e sangue, não só um deles

Por que funcionar em cinco espécies muda o jogo

Existem cinco espécies de Plasmodium capazes de infectar humanos. A falciparum é a mais perigosa e concentra a atenção da ciência havia décadas, mas a vivax é a mais comum fora da África — inclusive na Amazônia brasileira, onde vive a maior parte dos cerca de 130 mil casos de malária registrados no país todos os anos. Uma vacina que protege só contra uma espécie deixa a porta aberta para as outras quatro continuarem circulando, adoecendo e, ocasionalmente, matando.

Os alvos identificados pela equipe brasileira provocaram resposta imune cruzada nas cinco espécies testadas. Traduzindo: em vez de cinco vacinas diferentes para cinco parasitas diferentes, o caminho aberto aponta para uma única vacina — mais abrangente do que qualquer coisa disponível hoje, inclusive contra a vivax, historicamente relegada a segundo plano nas prioridades globais de pesquisa por matar menos, mesmo adoecendo mais gente.

O tamanho real do problema

A malária ainda mata mais de 600 mil pessoas por ano no mundo, a maioria crianças com menos de cinco anos na África Subsaariana. No Brasil, a doença é endêmica na região amazônica e, embora raramente apareça nas manchetes do Sudeste, segue sendo um dos principais motivos de internação em municípios do Norte — muitas vezes em áreas onde o posto de saúde mais próximo fica a horas de barco. Uma vacina eficaz não é luxo de laboratório: é infraestrutura de saúde pública para quem vive longe de tudo.

O caminho que ainda falta andar

Antes de comemorar, vale o freio de mão: os achados precisam passar por novas validações e, depois, pelas fases clássicas de testes clínicos em humanos — processo que, historicamente, leva anos, às vezes uma década inteira, entre a descoberta do alvo e a vacina na prateleira do posto de saúde. A ciência básica de hoje é o pré-requisito, não o produto final.

Ainda assim, é a esse tipo de achado — silencioso, técnico, sem data para virar produto — que se deve a existência de qualquer vacina que hoje salva vidas. A malária resistiu a mil anos de tentativas de erradicação porque é um parasita, não um vírus: mais complexo, mais versátil, mais difícil de mirar. Encontrar 453 novos alvos onde antes havia poucos não é a cura. É o mapa que faltava para procurar por ela direito.

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