88% dos presos já tiveram hepatite A — e o Brasil quer eliminar as hepatites até 2030
Um levantamento de 11 anos com dados de 14,5 milhões de brasileiros mapeou as cinco hepatites virais. O retrato que sai não é de um país com uma epidemia — é de um país com vários bolsões esquecidos, cada um com um vírus diferente.
Quando alguém diz "hepatite", a maioria das pessoas pensa em duas letras: B e C. São as famosas — as que aparecem em campanha, as que têm teste rápido no posto, as que a gente associa a sangue e agulha. É uma percepção correta e incompleta ao mesmo tempo.
Um estudo coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein e publicado na revista PLOS ONE reuniu 200 trabalhos científicos produzidos entre 2013 e 2024, cobrindo dados de mais de 14,5 milhões de pessoas, para montar o retrato mais completo já feito das hepatites virais no Brasil. Foram analisados os cinco tipos: A, B, C, D e E.
"As pessoas pensam mais nas hepatites B e C, porque são bem frequentes", observou o coordenador do estudo, João Renato Rebello Pinho. O levantamento mostra que o problema brasileiro é mais fragmentado — e mais geográfico — do que o senso comum sugere.
Hepatite A: o vírus do saneamento básico
Os números da hepatite A no Brasil são, na prática, um censo de esgoto. A prevalência na população geral varia de 33,3% a 67,8% — uma faixa enorme, que já denuncia o quanto o risco depende de onde a pessoa mora.
Mas o dado que corta é o de populações específicas: 88,1% entre pessoas encarceradas, 87,4% entre imigrantes e 75,6% entre pessoas transgênero. Repare que os três grupos não têm nada em comum biologicamente. Têm em comum condições de vida: aglomeração, saneamento precário, acesso interrompido à água tratada, e uma relação difícil com o sistema de saúde.
"A forma mais comum de contaminação pelo vírus da hepatite A é por via alimentar", explicou Pinho. Traduzindo: água e comida contaminadas por matéria fecal. Hepatite A não é uma doença de comportamento — é uma doença de infraestrutura. E existe vacina para ela no SUS, disponível para crianças a partir de 15 meses.
B, C e a diferença que a vacina faz
A hepatite B tem prevalência de 0% a 7,5% na população geral, com as taxas mais altas concentradas na região amazônica. É uma doença que o Brasil combate razoavelmente bem, e o motivo é simples: existe vacina eficaz, gratuita, aplicada desde as primeiras horas de vida no recém-nascido.
A hepatite C aparece com 0,04% a 2,2% na população geral — números baixos que escondem uma concentração brutal: 36,9% entre pessoas que usam drogas. Mais de um terço.
E aqui está a assimetria que define a política pública: "Embora as vias de transmissão sejam muito parecidas com as do tipo B, não existe vacina", apontou o coordenador. Para a hepatite C, o Brasil tem uma arma diferente e igualmente poderosa — os antivirais de ação direta, que curam mais de 95% dos casos em 8 a 12 semanas de comprimido, e estão disponíveis no SUS. O problema nunca foi o tratamento. É achar quem tem.
• Hepatite A — população geral: 33,3% a 67,8% | encarcerados: 88,1% | imigrantes: 87,4% | pessoas trans: 75,6%
• Hepatite B — população geral: 0% a 7,5% | taxas mais altas na região amazônica
• Hepatite C — população geral: 0,04% a 2,2% | pessoas que usam drogas: 36,9%
• Hepatite D — região amazônica: 0% a 23,9%
• Hepatite E — população geral: 0,9% a 59,4% | valores mais altos na região Sul
Base do estudo: 200 trabalhos científicos, dados de 14,5 milhões de pessoas, publicado na PLOS ONE
A hepatite D e o problema amazônico que ninguém discute
A hepatite D é a menos conhecida das cinco e a mais implacável. Ela é um vírus parasita: só consegue infectar quem já tem hepatite B, porque precisa do envelope viral do tipo B para se replicar. A coinfecção acelera drasticamente a evolução para cirrose e câncer de fígado.
No Brasil, ela é essencialmente um problema regional: a prevalência na região amazônica chega a 23,9% em alguns levantamentos. Quase um quarto. É uma das maiores concentrações de hepatite delta do mundo, e coincide exatamente com a região onde a hepatite B também é mais prevalente — o que não é coincidência nenhuma, é dependência biológica.
A boa notícia embutida: vacinar contra hepatite B protege automaticamente contra a D. A má notícia: quem já tem B crônica não ganha essa proteção, e é justamente a população amazônica com B crônica que forma o reservatório da delta.
A hepatite E e a surpresa do Sul
A hepatite E foi por muito tempo tratada como problema de outros continentes. O estudo mostra prevalência de 0,9% a 59,4% na população geral brasileira, com os valores mais elevados na região Sul — provavelmente relacionados à exposição a suínos, já que o vírus tem transmissão zoonótica em países de renda alta.
A variação de 0,9% a 59,4% é absurda e diz mais sobre a heterogeneidade dos estudos do que sobre o vírus. Mas o recado permanece: existe circulação de hepatite E no Brasil, e ela é particularmente perigosa para gestantes, com letalidade que pode chegar a 20% no terceiro trimestre.
2030 está logo ali
O objetivo declarado do estudo é gerar conhecimento para eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, meta assumida pelo Brasil junto à OMS. Faltam quatro anos.
O que os dados mostram é que a meta não será alcançada com campanha genérica de televisão. As prevalências não estão espalhadas uniformemente — estão empilhadas em grupos específicos: presos, usuários de drogas, imigrantes, pessoas trans, populações amazônicas. São exatamente os grupos que o sistema de saúde tem mais dificuldade (e, sejamos honestos, menos vontade política) de alcançar.
O que fazer, na sua vida
Teste rápido para hepatites B e C é gratuito no SUS, leva 30 minutos e não precisa de pedido médico na maioria das UBS e nos Centros de Testagem e Aconselhamento. Se você já compartilhou material de manicure, fez tatuagem ou piercing em local sem esterilização adequada, recebeu transfusão antes de 1993 ou teve qualquer exposição a sangue, o teste vale por si só.
Vacina de hepatite B está disponível gratuitamente para todas as idades no SUS — não só para bebês. Se você não sabe se tomou as três doses, tomar de novo não faz mal.
Hepatite C tem cura, hepatite B tem vacina, hepatite A tem vacina e saneamento, hepatite D some junto com a B. Praticamente tudo que seria preciso para eliminar essas doenças já existe e já está pago. O que falta é chegar até quem está fora do mapa — e o estudo acabou de dizer, com 14,5 milhões de dados, exatamente onde essas pessoas estão.
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