84% das famílias se dizem preocupadas com alimentação saudável — metade dá ultraprocessado no lanche
Pesquisa do Unicef ouviu 600 famílias em comunidades de Belém, Recife e Rio de Janeiro. O resultado é um retrato cruel: quem mais quer alimentar bem é quem menos consegue. E a culpa não é da mãe.
Você conhece aquela mãe que corre entre o trabalho, o transporte público e a escola, e na hora do lanche do filho abre um pacote de biscoito recheado? Antes de julgá-la, saiba: 84% das famílias em comunidades urbanas brasileiras se consideram "muito preocupadas" em oferecer alimentação saudável. O problema é que preocupação não enche barriga — pelo menos não com o que deveria.
Uma pesquisa do Unicef, publicada nesta segunda-feira, entrevistou cerca de 600 famílias em três comunidades: Guamá (Belém), Ibura (Recife) e Pavuna (Rio de Janeiro). O achado central é tão óbvio quanto ignorado: as famílias sabem o que é saudável, querem o que é saudável, mas compram ultraprocessado porque é barato, rápido e — detalhe que nenhum nutricionista de Instagram menciona — carrega um componente afetivo que a cenoura simplesmente não tem.
O paradoxo do carrinho de supermercado
Os números são de uma sinceridade constrangedora. Metade dos lares pesquisados inclui ultraprocessados no lanche das crianças. Um em cada quatro coloca no café da manhã. Os campeões: iogurte com sabor, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo — o quinteto fantástico da indústria alimentícia.
Agora olhe o outro lado da prateleira: 68% das famílias consideram legumes e verduras caros. 76% veem frutas como caras. 94% acham carne cara. Enquanto isso, 67% consideram suco de caixinha, salgadinho e refrigerante baratos. A matemática é cruel: quando o dinheiro é curto, a caloria barata vence a caloria nutritiva. Sempre.
A mãe faz tudo — e o pai, cadê?
Se tem um dado que deveria estar em outdoor, é este: 87% das mães compram e servem os alimentos. 82% cozinham. Entre os pais, 40% compram, 27% cozinham e 31% servem. Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, traduziu sem rodeios: "Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais."
É fácil falar em "educação alimentar" quando se tem tempo de ir à feira, lavar, descascar, cozinhar e servir. Quando a mãe sai às seis da manhã e volta às oito da noite, o miojo não é preguiça — é sobrevivência logística.
O biscoito recheado como afeto
Aqui está o achado mais perturbador da pesquisa — e o mais humano. Nas entrevistas aprofundadas, o Unicef descobriu que muitos pais compram ultraprocessados porque não podiam comprá-los na própria infância. Stephanie Amaral explica: "Essas pessoas não tinham dinheiro para comprar os alimentos que elas queriam quando eram crianças, então agora elas se sentem felizes por poder comprar o que a criança quer comer."
O biscoito recheado não é só farinha e gordura hidrogenada. É a prova de que a vida melhorou, de que o filho terá o que o pai não teve. Aquele pacote com personagem de desenho na embalagem é uma declaração de amor embalada em plástico. Tentar combater isso com tabela nutricional é trazer uma faca para um tiroteio emocional.
• 84% das famílias se dizem preocupadas com alimentação saudável
• 50% dos lares incluem ultraprocessados no lanche
• 25% incluem no café da manhã
• 55% nunca observam os avisos de rotulagem frontal
• 62% nunca deixam de comprar por causa dos avisos
• 26% não entendem o que os avisos significam
• 67% consideram refrigerante e salgadinho "baratos"
• 76% consideram frutas "caras"
O rótulo que ninguém lê
O Brasil adotou a rotulagem frontal obrigatória — aquelas lupas pretas que dizem "alto em açúcar", "alto em sódio", "alto em gordura saturada". Em tese, é para o consumidor saber o que está comprando. Na prática: 55% dos entrevistados nunca observam os avisos. 62% nunca deixaram de comprar um produto por causa deles. E 26% simplesmente não sabem o que significam.
Pior: muitas famílias acham que iogurte com sabor e nuggets fritos na airfryer são saudáveis. A indústria alimentícia gastou décadas e bilhões de reais construindo essa percepção. Uma lupinha preta no canto da embalagem não vai desfazer isso em dois anos.
O que funciona (de verdade)
A pesquisa do Unicef não se limita ao diagnóstico — traz recomendações que, para variar, fazem sentido. A primeira: regulação pesada. Publicidade infantil de ultraprocessados precisa acabar. Tributação diferenciada precisa existir. Ambientes escolares precisam ser zonas livres de porcaria industrial.
A segunda: creches e escolas em tempo integral. As famílias confiam enormemente na alimentação escolar — é a única refeição que muitas crianças fazem sem ultraprocessado. Cada escola em tempo integral é uma mãe com menos sobrecarga e uma criança com mais feijão no prato.
A terceira: parar de culpar a mãe. Quando 87% da responsabilidade alimentar recai sobre uma pessoa que também trabalha fora, o problema não é individual — é estrutural. Stephanie Amaral é clara: a mudança precisa considerar "a realidade das famílias, com linguagem simples" e identificar os "falsos saudáveis" que a indústria empurra como se fossem comida de verdade.
Ultraprocessado não vicia por acidente. Ele é engenhado para viciar — sabor intenso, preço baixo, prazo de validade eterno e uma embalagem que promete felicidade. Combater isso exige mais do que informação. Exige que o brócolis custe menos que o salgadinho. Enquanto não custar, a mãe da Pavuna vai continuar fazendo o que pode com o que tem — e o que ela tem é um salário mínimo e uma criança com fome.