13,5 milhões de bebês não tomaram uma única vacina no ano passado — e o Brasil, dessa vez, está do lado certo da conta

13,5 milhões de bebês não tomaram uma única vacina no ano passado — e o Brasil, dessa vez, está do lado certo da conta

Um relatório da Unicef e da OMS mostra o mundo travado na cobertura vacinal infantil. O Brasil vem melhorando na contramão — mas carrega 50 mil crianças "dose zero" e uma lacuna perigosa: faz cinco anos que não olha para os próprios números com lupa independente.

SaúdeCidade ·

Existe uma categoria estatística na saúde infantil que deveria não existir: a criança "dose zero". É o bebê que passou o primeiro ano de vida — o ano em que ele é mais vulnerável a doenças que matam — sem receber uma única vacina. Nenhuma. No mundo, em 2025, foram 13,5 milhões de crianças nessa situação, segundo o novo levantamento da Unicef em parceria com a OMS.

Treze milhões e meio de bebês completamente desprotegidos, num ano em que a humanidade sabe exatamente como protegê-los e tem as vacinas na prateleira. Não é um problema de ciência. É um problema de chegar até a criança — e, cada vez mais, de convencer o adulto que a segura no colo.

O número que o Brasil pode comemorar (com ressalva)

Aqui vai a parte boa, que é rara nesse tipo de notícia. Enquanto boa parte do mundo estacionou ou piorou, o Brasil aparece em "melhora constante" na cobertura vacinal. Depois dos anos sombrios em que o país despencou nos rankings de imunização, a curva voltou a subir. A cobertura da DTP-3 — o esquema completo da tríplice contra difteria, tétano e coqueluche, o termômetro que a OMS usa para medir a saúde de um programa de vacinação — está em 86%.

A ressalva vem logo atrás. Oitenta e seis por cento ainda está abaixo dos 90% que se considera adequado, e bem longe dos 95% necessários para segurar doenças muito contagiosas. E o Brasil ainda carrega, segundo a estimativa, cerca de 50 mil crianças dose zero — bebês que, num país com Zé Gotinha, calendário gratuito e postos em quase todo município, mesmo assim não receberam nada. Cinquenta mil buracos numa rede que deveria ser uma malha fina.

A vacinação infantil no mundo em 2025 (Unicef/OMS):

13,5 milhões de crianças não receberam nenhuma vacina no 1º ano de vida
7,3 milhões não completaram o esquema básico de três doses da DTP
15% dos bebês do mundo estão sem cobertura adequada
• Sarampo: só 84% tomaram a 1ª dose e 77% a 2ª (o seguro é 95%)
411 mil casos de sarampo registrados em 57 países
• No Brasil: cobertura DTP-3 em 86% e cerca de 50 mil crianças dose zero

Mais da metade das crianças dose zero vive em zonas de conflito ou fragilidade — que concentram só um terço das crianças do planeta.

O sarampo é o canário na mina

Se você quer saber a saúde real de um sistema de vacinação, olhe para o sarampo. É a doença mais contagiosa que existe — tão transmissível que basta um bolsão de gente não vacinada para ela voltar a circular. E os números globais são um alerta: só 84% das crianças receberam a primeira dose e 77% a segunda, quando o piso seguro é 95%. Resultado: mais de 411 mil casos em 57 países no ano passado, de uma doença que já foi dada como derrotada em vários continentes.

O sarampo é o canário na mina porque ele reaparece antes de todas as outras. Quando ele volta, é sinal de que a muralha da imunidade coletiva rachou — e é questão de tempo até coqueluche, difteria e poliomielite testarem a mesma rachadura. O Brasil já sentiu isso na pele nos anos recentes, com surtos de sarampo em estados que tinham o certificado de eliminação. Cobertura vacinal não é um troféu que se ganha uma vez; é uma fila que precisa ser reabastecida todo ano, bebê por bebê.

O ponto cego que ninguém deveria ignorar

Tem um detalhe no relatório que passa fácil e não deveria. Apesar da melhora, o Brasil não faz um inquérito nacional independente de cobertura vacinal há cinco anos — algo que a própria OMS e a Unicef recomendam. O que isso significa na prática? Que a foto de "86% de cobertura" é montada com os dados administrativos do próprio sistema: quantas doses foram registradas, dividido por quantas crianças se estima que existam.

Esse método funciona, mas tem pontos cegos. Ele depende de o registro estar correto e de o denominador — o número de crianças — estar certo. Um inquérito independente vai à casa das pessoas, checa a caderneta, encontra os bebês que o sistema não viu. Sem ele, você melhora no escuro: pode estar melhor do que pensa, ou pior. Para um país que acabou de reconstruir a confiança na vacinação, voar sem esse instrumento é um risco desnecessário.

O que fazer com esse número

Do lado de quem lê isso com um bebê em casa, a lição é curta e ingrata de tão repetida: a caderneta de vacinação em dia é o seguro de vida mais barato e mais eficaz que existe. As doses do primeiro ano — BCG, hepatite B, pentavalente, pólio, pneumocócica, rotavírus, meningocócica — não são opcionais nem "coisa de quando der". São o que separa o bebê brasileiro de 2026 dos bebês que morriam às dezenas de milhares antes de as vacinas existirem.

Treze milhões e meio de crianças ficaram para trás no mundo no ano passado. O Brasil, dessa vez, está empurrando a fila na direção certa. Mas 50 mil crianças ainda começam a vida sem defesa nenhuma, num país que sabe fazer melhor. A diferença entre um surto e um ano tranquilo raramente é a vacina — ela existe, é de graça, está no posto. A diferença é o bebê que chegou até ela.

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