Você não sente sede no inverno — e é exatamente por isso que seu rim está em risco

Você não sente sede no inverno — e é exatamente por isso que seu rim está em risco

Com o frio, a sensação de sede cai e a ingestão de água despenca junto. O resultado aparece semanas depois: cistite, infecção urinária de repetição e cálculo renal. A recomendação segue a mesma de janeiro — 2 a 3 litros por dia.

SaúdeCidade ·

Faça um teste honesto: quantos copos de água você bebeu ontem? Se a resposta veio com um "acho que" na frente, você já entendeu o problema. E se você tem mais de 65 anos, ou cuida de alguém que tem, a resposta provavelmente é pior do que você imagina — porque no inverno o corpo simplesmente para de avisar.

A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro fez o alerta esta semana, e ele merece atenção justamente por ser sem glamour. Com menor sensação de sede, as pessoas — principalmente as idosas — acabam reduzindo a ingestão de água durante o inverno, o que favorece a ocorrência de doenças como cistites e até a formação de cálculos renais. A recomendação não muda com a estação: 2 a 3 litros por dia.

A sede é um alarme, e ele é mal calibrado

A gente cresceu acreditando que sede é o medidor confiável de quanta água o corpo precisa. Não é. A sede é um alarme que só dispara depois que o incêndio começou — quando você a sente, já existe um grau de desidratação instalado. No calor, ela toca alto e cedo, porque você está suando e o corpo percebe rápido. No frio, o mecanismo fica preguiçoso: você sua menos, o alarme quase não toca, e você passa o dia inteiro em déficit sem perceber nada.

No idoso, esse alarme já vem de fábrica com o volume mais baixo. A sensibilidade à sede diminui com a idade, os rins ficam menos eficientes em concentrar a urina e muita gente ainda bebe menos de propósito para não ter que levantar à noite ou enfrentar o banheiro gelado. Some tudo: um corpo que avisa pouco, um rim que perdoa menos e uma pessoa que evita beber por logística. É a tempestade perfeita, e ela acontece todo mês de julho.

Sinais de que seus rins e vias urinárias pedem socorro:

Dor lombar intensa — a cólica renal clássica, que não passa de jeito nenhum
Dificuldade para urinar
Sangue na urina
Infecções urinárias de repetição
Perda involuntária de urina
Alteração no jato urinário

Meta de ingestão: 2 a 3 litros de água por dia — inverno inclusive.

Como pouca água vira pedra

A física aqui é constrangedoramente simples. Sua urina é uma solução: água com sais, cálcio, oxalato, ácido úrico dissolvidos dentro. Tire água da equação e a concentração sobe. Suba o suficiente e os sais não conseguem mais ficar dissolvidos — eles se organizam, cristalizam e crescem. É o mesmo princípio do açúcar que se deposita no fundo do copo quando você põe demais no cafezinho. Só que o fundo do copo, aqui, é o seu rim.

E o cálculo renal é famoso por um motivo. A cólica renal é rotineiramente descrita por quem já teve como a pior dor que a pessoa sentiu na vida — mulheres que passaram por parto normal e por cálculo costumam apontar a pedra. Beber água é, por larga margem, a intervenção de melhor custo-benefício da medicina inteira. Se um medicamento prevenisse a pior dor da sua vida com essa eficácia, teria fila na farmácia e custaria R$ 300 a caixa.

Quando a pedra já está lá

Nem toda pedra sai sozinha. Para as que não saem, existe a litotripsia extracorpórea por ondas de choque — um procedimento minimamente invasivo que fragmenta o cálculo de fora do corpo, sem corte, para que os pedaços sejam eliminados na urina. No Rio, o atendimento é feito em unidades como o Rio Imagem e em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Repare no detalhe da Baixada. Serviço de alta tecnologia costuma se concentrar na Zona Sul e ficar a três conduções de quem mais precisa dele. Colocar litotripsia em Nova Iguaçu é o tipo de decisão que não vira manchete e resolve a vida de muita gente — desde que essa gente saiba que existe.

O que fazer nesta semana, de verdade

Não espere sentir sede: beba em horários fixos, como quem toma remédio. Deixe uma garrafa à vista, porque água que você não vê é água que você não bebe. Aproveite que é inverno e coloque chá e água morna na conta — hidratação não precisa vir gelada, e para o idoso que rejeita água fria isso muda tudo. E use o marcador mais honesto que existe: se sua urina está escura e com cheiro forte, você está bebendo pouco. Urina clara é o exame que você faz de graça, várias vezes por dia, e quase ninguém lê.

Se você cuida de alguém idoso, não pergunte "está com sede?". A resposta vai ser não, e ela vai estar errada. Ofereça o copo.

Seu rim filtra cerca de 180 litros de sangue por dia sem reclamar e sem pedir nada em troca — a não ser água. É o funcionário mais dedicado do seu corpo, e o único pagamento que ele aceita está saindo da torneira agora.

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