Aos 69 anos, ele recebeu de volta as próprias células treinadas para caçar o câncer

Aos 69 anos, ele recebeu de volta as próprias células treinadas para caçar o câncer

O IBCC Oncologia realizou seu primeiro tratamento com CAR-T Cell num paciente de Maceió com mieloma múltiplo que havia voltado após transplante de medula. A terapia pega os soldados do seu sistema imune, os reprograma num laboratório e os devolve caçadores. Ainda é caro e complexo — mas está deixando de ser exceção.

SaúdeCidade ·

Denis Monteiro de Carvalho tem 69 anos, é de Maceió, e já tinha feito quase tudo o que a medicina oferecia contra o seu câncer. Diagnosticado com mieloma múltiplo — um tumor das células do sangue —, ele passou por um transplante de medula óssea. A doença voltou mesmo assim. É o momento em que, não faz muito tempo, o médico começava a falar em cuidados paliativos. Denis, em vez disso, recebeu de volta as próprias células, reprogramadas para fazer o que não estavam conseguindo sozinhas: reconhecer e destruir o câncer.

Foi o primeiro tratamento com CAR-T Cell realizado no IBCC Oncologia, em São Paulo. Não é o primeiro do Brasil — a terapia já vinha sendo feita em alguns centros de ponta —, mas cada hospital que passa a oferecê-la é uma porta a mais que se abre para quem estava sem saída. E entender como isso funciona ajuda a dimensionar por que a comunidade médica trata o CAR-T como uma das maiores viradas da oncologia em décadas.

O que é, sem o jargão

O sistema imune tem soldados chamados linfócitos T, cuja função é patrulhar o corpo e eliminar ameaças. O problema do câncer é que ele aprende a se disfarçar — passa pela patrulha como um espião com crachá falso. A terapia CAR-T resolve isso na marra: os médicos coletam os linfócitos T do próprio paciente, mandam para um laboratório e inserem neles um receptor artificial (o tal "CAR") que funciona como um retrato falado do inimigo. Devolvidos ao corpo, esses linfócitos passam a enxergar o câncer que antes estava camuflado — e o destroem com precisão.

Repare na elegância do conceito: o remédio não vem de fora, de uma fábrica. O remédio é o próprio paciente, editado. Como explica a hematologista Maria Cristina Martins de Almeida Macedo, do IBCC, o processo transforma as células de defesa em versões turbinadas, capazes de reconhecer e destruir o tumor com uma pontaria que a quimioterapia — que atira em tudo — nunca teve.

CAR-T Cell — como funciona na prática:

• Coleta dos linfócitos T do próprio paciente
• Reprogramação em laboratório com um receptor que "enxerga" o câncer
• Reinfusão das células turbinadas de volta no paciente
• Todo o processo leva de 45 a 60 dias entre a coleta e a devolução

Durante a espera, o paciente costuma precisar de "terapia-ponte" para manter a doença estável até as células ficarem prontas.

Não é mágica: os riscos são reais

Reprogramar o sistema imune para atacar com força total tem um preço. O principal risco é a síndrome de liberação de citocinas — uma reação inflamatória em cascata que pode causar febre, queda de pressão, dificuldade respiratória. Há também efeitos neurológicos: confusão mental, tremores. Não são efeitos colaterais de bulinha; são intercorrências que exigem estrutura para serem enfrentadas.

Por isso o CAR-T não se faz em qualquer lugar. A unidade do IBCC tem quartos de isolamento com pressão positiva e ar filtrado — para proteger um paciente com o sistema imune desmontado — e uma UTI dedicada a esse perfil. É o tipo de retaguarda que separa o hospital capaz de oferecer a terapia com segurança daquele que só teria como oferecer a esperança.

O intervalo mais angustiante

Entre coletar as células e devolvê-las treinadas passam-se 45 a 60 dias. Parece pouco no calendário; é uma eternidade para quem tem um câncer em progressão. Nesse intervalo, o paciente frequentemente precisa da chamada "terapia-ponte" — um tratamento para segurar a doença estável até as células ficarem prontas. É uma corrida contra o relógio em que o carro está sendo montado enquanto a pista já começou.

Esse detalhe explica por que o acesso importa tanto. Não basta a terapia existir; ela precisa existir perto, a tempo, com estrutura. Cada novo centro habilitado encurta a distância entre o diagnóstico de recaída e a chance real de tratamento — e, para pacientes como Denis, distância é tempo, e tempo é tudo.

O horizonte, e a ressalva

O CAR-T ainda é caro, complexo e restrito a alguns tipos de câncer do sangue — mieloma, leucemias e linfomas que não responderam aos tratamentos convencionais. Não é para todo mundo, não cura todo mundo, e o SUS ainda engatinha na oferta pública dessa tecnologia. Seria desonesto vender a terapia como o fim do câncer. Mas seria burrice ignorar o que ela representa.

Um homem de 69 anos, cujo câncer tinha voltado depois de um transplante, hoje segue em tratamento com as próprias células fazendo o serviço. Faz uma década, essa frase seria ficção científica. Hoje é o prontuário de mais um paciente — e a cada hospital que aprende a fazê-lo, um pouco menos exceção.

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