No inverno, a asma manda quase o dobro de crianças para o hospital — e 7 de cada 10 internações têm menos de 14 anos
Em julho de 2024, foram 4.034 internações de crianças e adolescentes por asma no Brasil, contra 2.108 em janeiro. O frio não causa asma — mas cria a tempestade perfeita de vírus, ácaros e janelas fechadas que dispara as crises de quem já tem.
O inverno tem uma reputação injusta de estação aconchegante — cobertor, sopa, janela fechada. Para os cerca de 20 milhões de asmáticos do Brasil, e sobretudo para as crianças entre eles, esse mesmo aconchego é o cenário de uma emboscada. O ar frio e seco, os vírus que circulam mais, os ácaros que moram no cobertor guardado desde o inverno passado: junte tudo e você tem a receita das crises que enchem os prontos-socorros pediátricos nesta época.
Os números não deixam dúvida sobre quem paga a conta. Em julho de 2024, o Brasil registrou 4.034 internações de crianças e adolescentes por asma — quase o dobro das 2.108 de janeiro do mesmo ano. E, nesse mês de pico, os menores de 14 anos responderam por 70,5% de todas as hospitalizações por asma. A asma do inverno é, em boa medida, uma doença da infância.
Por que o frio dispara a crise
Vale dizer o que o frio não faz: ele não cria a asma. Quem tem crise no inverno já tinha a doença — o inverno só puxa o gatilho. O principal deles é a maior circulação de vírus respiratórios (influenza, covid e VSR). Como explica o pneumologista Emilio Pizzichini, coordenador da comissão de asma da SBPT, "se a asma não está bem tratada, bem controlada, o resfriado ou a virose adicionam mais uma inflamação" a uma via aérea que já vive inflamada. É fogo em cima de brasa.
Os outros gatilhos são domésticos e traiçoeiros. Janelas fechadas concentram poeira e aumentam a exposição a ácaros. Cobertores e casacos que passaram meses guardados voltam ao uso carregados desses ácaros. O mofo da parede úmida solta esporos. Tudo o que o frio nos faz querer — fechar, cobrir, aquecer — é exatamente o que a via aérea asmática detesta.
• 4.034 internações de crianças/adolescentes em julho (vs. 2.108 em janeiro)
• 70,5% das internações de julho foram de menores de 14 anos
• 52.087 internações por asma no ano; 73,7% em menores de 14 anos
• Cerca de 20 milhões de asmáticos no Brasil
A crise do inverno é evitável: tratamento contínuo, vacinação e ambiente arejado reduzem internações.
A parte que quase ninguém faz direito
Existe um erro tão comum que virou padrão: usar a bombinha só quando a crise chega. A asma bem controlada não se trata na crise — se trata o ano inteiro, com a medicação preventiva (os corticoides inalatórios) que mantém a inflamação sob controle e evita que o gatilho do inverno tenha onde pegar fogo. Quem só usa a bombinha de resgate está apagando incêndio em vez de tirar o combustível da sala.
A vacinação entra como reforço direto. Gripe, covid e VSR são os vírus que mais desencadeiam crise — e há vacina para os três, além da pneumocócica, que protege contra a pneumonia que costuma complicar o quadro asmático. Vacinar uma criança asmática não é sobre o vírus em si; é sobre impedir que o vírus vire crise e a crise vire internação.
O ambiente da casa importa mais do que parece
A pneumologista Marcela Marques, da Umane, dá a lista de tarefas que soa banal e faz diferença real: manter a casa arejada e iluminada mesmo no frio, eliminar mofo e umidade, limpar com pano úmido em vez de varrer (varrer levanta a poeira que você quer tirar) e tirar os bichos de pelúcia do quarto da criança — cada um é um condomínio de ácaros. Não é frescura de médico; é remover o combustível da crise.
E há o gatilho que muita gente ainda subestima: o cigarro. O fumo passivo é, nas palavras dos especialistas, um dos piores agravantes de crise — vale para o cigarro comum, o eletrônico e o narguilé. Uma criança asmática numa casa onde se fuma está respirando o gatilho todos os dias, com ou sem inverno.
O que fazer agora
Estamos no meio do inverno, o pior momento e ainda em tempo de agir. Se seu filho tem asma, cheque três coisas: se ele usa a medicação preventiva todos os dias (e não só na crise), se as vacinas de gripe, covid e VSR estão em dia, e se o quarto dele está livre de mofo, pelúcia e cobertor guardado sem lavar. As três medidas são baratas, chatas e comprovadamente eficazes.
A crise de asma que leva uma criança ao hospital quase nunca é uma fatalidade — é o desfecho de uma asma mal controlada encontrando um inverno cheio de vírus. Entre esperar a bombinha de resgate e prevenir a crise, a diferença não é conforto. É a madrugada no pronto-socorro que não acontece.
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