Oito milhões de brasileiros não enxergam direito — e o mais cruel é que a maioria dessas cegueiras dava para evitar

Oito milhões de brasileiros não enxergam direito — e o mais cruel é que a maioria dessas cegueiras dava para evitar

No Dia Mundial da Saúde Ocular, os números incomodam: a dificuldade de enxergar é a limitação funcional mais comum do país, e a OMS estima que 80% dos casos poderiam ser evitados ou tratados se pegos cedo. O vilão silencioso são doenças que não doem — até ser tarde.

SaúdeCidade ·

A visão é o sentido que a gente mais toma como garantido — até o dia em que ela começa a ir embora tão devagar que nem percebemos. E esse é exatamente o problema. As doenças que mais roubam a visão dos brasileiros fazem isso em silêncio, sem dor, sem aviso, apagando as bordas do mundo aos poucos, como quem baixa o brilho de uma tela um ponto por vez. Quando o incômodo finalmente chega, boa parte do estrago já foi feita.

O Dia Mundial da Saúde Ocular, instituído pela Organização Mundial da Saúde, serve para lembrar de um dado que envergonha: segundo o IBGE, cerca de 8 milhões de brasileiros declaram ter cegueira total ou severa dificuldade de enxergar. É a limitação funcional mais prevalente do país — mais comum do que qualquer outra. E, segundo a OMS, boa parte dela era evitável.

O número que deveria virar política pública

Guarde este: a OMS estima que aproximadamente 80% dos casos de deficiência visual poderiam ser evitados ou tratados se diagnosticados em estágios iniciais. Oitenta por cento. Não estamos falando de doenças misteriosas sem tratamento — estamos falando de gente perdendo a visão por falta de um exame que existe, é conhecido e, em muitos casos, é oferecido pelo SUS.

É a diferença entre uma tragédia inevitável e uma tragédia evitável que ninguém evitou. E a única coisa que separa os dois cenários costuma ser uma consulta que não foi marcada porque "estava enxergando bem".

As quatro doenças que mais cegam

Quatro condições concentram a maior parte da perda de visão evitável. A catarata, que embaça o cristalino e tem cirurgia rápida e eficaz. O glaucoma, que aumenta a pressão dentro do olho e destrói o nervo óptico sem dar sinal — por isso é apelidado de "ladrão silencioso da visão". A retinopatia diabética, complicação do diabetes que danifica os vasos da retina. E a degeneração macular relacionada à idade, que ataca o centro da visão e rouba justamente a parte que a gente usa para ler e reconhecer rostos.

O que todas têm em comum é a traição da assintomática. "Deve-se fazer diagnósticos em todas as faixas etárias para detecção precoce das doenças oculares, para evitar cegueiras reversíveis e irreversíveis", alerta a oftalmologista Núbia Vanessa. Ela é direta sobre quem não pode adiar: "Pacientes com diabetes, pressão alta e doenças autoimunes devem procurar oftalmologista".

Saúde ocular no Brasil — os números e os alvos:

8 milhões de brasileiros com cegueira ou severa dificuldade de enxergar (IBGE)
• É a limitação funcional mais comum do país
• Até 80% dos casos seriam evitáveis com diagnóstico precoce (OMS)
• Principais causas: catarata, glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular
• Maior risco: diabéticos, hipertensos e portadores de doenças autoimunes
• Muitas dessas doenças são assintomáticas no início

Enxergar bem não é o mesmo que estar saudável

O caso de Alexandre de Menezes, administrador, resume o perigo. Ele descobriu catarata aos 49 anos, num exame de rotina — sem nunca ter percebido que estava enxergando menos no dia a dia. Operou numa quarta-feira e voltou ao trabalho na segunda seguinte, relatando uma melhora que ele nem sabia que precisava. A moral da história é desconfortável: a ausência de sintoma não é sinal de saúde ocular. É, muitas vezes, só o início da doença antes de ela avisar.

É por isso que a recomendação dos oftalmologistas não é "vá ao médico quando notar algo errado". É "vá antes de notar". Especialmente depois dos 40, e especialmente se você tem diabetes ou pressão alta — as duas condições que mais alimentam a cegueira evitável no Brasil.

O que fazer (além de marcar a consulta)

A prevenção não termina no consultório. Evitar a automedicação e o uso indiscriminado de colírios — sim, aquele colírio que "clareia o olho" e que você compra sem receita pode esconder ou agravar um glaucoma. Usar óculos de sol com proteção ultravioleta de verdade, não só de estilo. E fazer pausas no uso prolongado de telas, que não causam as doenças graves, mas cobram seu preço em cansaço e ressecamento.

No fim, a saúde ocular é um dos raros lugares da medicina onde a matemática é generosa: oito em cada dez cegueiras dava para evitar. O que falta não é ciência nem tratamento — é a consulta que a gente adia porque, afinal, ainda está enxergando bem. Esse "ainda" é a palavra mais perigosa da frase.

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