873 mil brasileiros já se tratam com cannabis — mas o acesso ainda passa por advogado, não por posto de saúde
Um simpósio na Assembleia do Ceará com 300 vagas esgotadas expõe um paradoxo: a cannabis medicinal virou terapia de quase 900 mil pacientes, movimenta perto de R$ 1 bilhão e custa R$ 100 milhões por ano em ações judiciais — porque o SUS ainda não fornece.
Um simpósio sobre cannabis medicinal abriu esta quinta-feira na Assembleia Legislativa do Ceará, em Fortaleza, com um detalhe que diz muito: as 300 vagas gratuitas se esgotaram antes de o evento começar. Não é curiosidade de nicho. É a ponta visível de um movimento que já mudou a vida de gente demais para continuar sendo tratado como assunto de maconha — e cedo demais para ser tratado como problema resolvido.
Porque os números pararam de ser modestos. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, mais de 873 mil brasileiros já usam produtos derivados da planta, presentes em 85% dos municípios do país. O que era exceção judicial virou fenômeno de saúde pública. E, como todo fenômeno de saúde pública no Brasil, chegou acompanhado de uma pergunta incômoda: acesso para quem?
O que se trata com isso (e por que a fila cresce)
O evento cearense escancarou a amplitude do uso: dor crônica, distúrbios do sono, epilepsias refratárias, quadros psiquiátricos, até aplicações em cuidados paliativos e medicina veterinária. Uma das mesas discutiu justamente "Cannabis no SUS: desafios legais e regulatórios" — o nó da história. A planta que a lei tratou por décadas como caso de polícia é hoje pauta de conselho de saúde, universidade e Fiocruz. A ciência andou. A regra, nem tanto.
• 873 mil brasileiros em tratamento, em 85% dos municípios
• 660 mil autorizações de importação individuais entre 2015 e 2025
• 49 produtos de 24 empresas aprovados pela Anvisa em farmácia
• Mercado estimado em R$ 970 milhões em 2025
• R$ 100 milhões/ano gastos com judicialização do tema
• Cerca de 315 associações de pacientes (47 já autorizadas a cultivar)
• Tratamento via associação: em torno de R$ 800 por mês
O tratamento que você compra com liminar
Aqui está o paradoxo que o simpósio deixou no ar. A cannabis medicinal explodiu — mas o SUS não a fornece de forma regular. Resultado: quem precisa vira personagem de uma via-crúcis conhecida. Ou importa o produto, pagando caro e enfrentando burocracia; ou entra numa fila de associação de pacientes, a cerca de R$ 800 por mês; ou faz o que virou rotina — vai à Justiça.
E a Justiça não sai de graça. O Brasil gasta mais de R$ 100 milhões por ano com processos ligados à cannabis medicinal. Pare para pensar no absurdo: o dinheiro público que poderia comprar o remédio é gasto no processo para obrigar o poder público a comprar o remédio. É pagar o táxi para ir buscar o ônibus que não passa.
A desigualdade embutida no CEP jurídico
Judicializar exige o quê? Advogado, laudo, informação, tempo. Ou seja: quem tem repertório e recurso consegue a liminar e o tratamento. Quem depende só do SUS, sem advogado à mão, fica na fila da fila. A mesma cannabis que num consultório particular é receita de rotina, na periferia é um direito que só existe no papel — e apenas para quem sabe cobrar. O acesso virou marcador de classe, como quase tudo na saúde brasileira.
Existe estrutura para mudar isso? Em parte. A Anvisa já aprovou 49 produtos de 24 empresas disponíveis em farmácia, e foram mais de 660 mil autorizações de importação individuais entre 2015 e 2025. As 315 associações de pacientes — 47 já com autorização judicial para cultivar — funcionam como uma rede de fornecimento que o Estado, na prática, terceirizou para a sociedade civil. Mercado tem: 2025 fechou perto de R$ 970 milhões. O que falta é o SUS entrar no jogo de forma organizada.
O que está em jogo em Fortaleza — e no Congresso
No plano local, o simpósio serve de vitrine para o Projeto de Lei estadual 1014/2023, que propõe uma política cearense de cannabis terapêutica, com pesquisa, capacitação da rede pública e acesso via SUS mediante prescrição. Iniciativas estaduais assim vêm se multiplicando justamente porque o vácuo nacional deixa cada ente correndo por fora.
A conta, no fim, é simples de entender e difícil de resolver: 873 mil pessoas não estão esperando a lei ficar pronta para se tratar. Elas já se tratam — pagando caro, importando, processando o Estado. A pergunta não é mais se a cannabis medicinal tem lugar na saúde brasileira. É quanto tempo o país vai insistir em transformar um tratamento em causa judicial. Enquanto insistir, o remédio continuará existindo para todos — e chegando só para alguns.
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