Seis em cada dez brasileiros já nascem de cesárea — e quanto mais rico o CEP, maior o bisturi

Seis em cada dez brasileiros já nascem de cesárea — e quanto mais rico o CEP, maior o bisturi

O Brasil registrou 60,6% de partos por cesariana em 2024 — quatro vezes o teto recomendado pela OMS. Entre mulheres de maior renda, a taxa chega a 90%. Não é escolha informada em massa: é um modelo de assistência que opera no piloto automático.

SaúdeCidade ·

Se você nasceu no Brasil depois de 2020, é mais provável que tenha vindo ao mundo por uma incisão cirúrgica do que pelo caminho que a espécie usou nos últimos duzentos mil anos. Em 2024, foram cerca de 1,4 milhão de cesarianas em 2,4 milhões de nascimentos — 60,6% do total, segundo dados do DATASUS analisados pelo Observatório da Saúde Pública. A OMS recomenda entre 10% e 15%. Estamos operando a quatro vezes o teto.

E antes que alguém diga que é tendência mundial: em 2001, a taxa brasileira era de 38,5% — já altíssima — e os partos vaginais eram maioria. Em duas décadas, invertemos a curva. A cesárea deixou de ser o plano B da obstetrícia para virar o padrão de fábrica.

A cirurgia que virou item de status

O dado mais revelador da série não é a média — é quem puxa a média. Entre mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 74% dos partos foram cesáreas em 2024. Entre as que têm até 7 anos de escolaridade, 47,9%. Por raça, o mesmo desenho: 67% entre mulheres brancas, 58% entre pardas, 55% entre pretas. E nas Coortes de Pelotas, estudo que acompanha nascimentos há quatro décadas na cidade gaúcha, as mulheres de maior renda chegaram a 90% de cesarianas em 2015.

Em quase qualquer indicador de saúde, mais renda e mais estudo significam melhores desfechos. Aqui, o gradiente aponta para o lado errado — e Aluísio Barros, diretor do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas, faz questão de desfazer a leitura ingênua: "É importante não ver a maior proporção de cesáreas entre mulheres brancas e de maior escolaridade como vantagem. Essas desigualdades revelam maior riqueza desses grupos, maior acesso a planos privados de saúde e, por consequência, maior percentual de cesáreas." E arremata: todos os grupos estão muito acima do recomendado, "sendo imprescindível reduzir esses percentuais".

Por que o sistema empurra para o centro cirúrgico

Ninguém acorda querendo cirurgia abdominal de grande porte. O que existe é um sistema em que a cesárea agendada resolve a vida de todo mundo — menos, estatisticamente, a da mãe e a do bebê. Para o obstetra do plano privado, é a diferença entre um procedimento de 50 minutos marcado na agenda e um plantão de 14 horas imprevisíveis. Para o hospital, é rotatividade de leito. Para a gestante, é a promessa de controle — data marcada, médico de confiança presente, sem surpresa.

O resultado é uma profecia autorrealizável: como quase ninguém faz parto normal no privado, faltam equipes treinadas e disponíveis para acompanhá-lo, o que torna o parto normal ainda menos viável, o que gera mais cesárea. É o engarrafamento que se justifica pelo próprio engarrafamento.

O parto no Brasil em números (DATASUS/SINASC, 2024):

60,6% dos 2,4 milhões de partos foram cesarianas (~1,4 milhão)
• Recomendação da OMS: 10% a 15%
• Em 2001, a taxa era 38,5% — a curva só sobe
• Mulheres com 12+ anos de estudo: 74% de cesáreas
• Mulheres brancas: 67% · pardas: 58% · pretas: 55%
• Nas Coortes de Pelotas (2015), mulheres de maior renda: 90%

O que a OMS está tentando dizer (e ninguém escuta)

A cesariana é uma das cirurgias que mais salvam vidas no planeta — quando indicada. Sofrimento fetal, placenta prévia, descolamento, bebê atravessado: nessas horas, o bisturi é a diferença entre tragédia e aniversário. O problema é a cesárea sem indicação, que expõe mãe e bebê a riscos de infecção, hemorragia e trombose em troca de nada clinicamente mensurável. É assumir os riscos de uma cirurgia de grande porte para tratar uma condição — a gravidez — que não é doença.

Acima de 10-15%, diz a OMS, as taxas de cesárea param de reduzir mortalidade materna e infantil. Ou seja: os 45 pontos percentuais que o Brasil carrega acima do teto não estão salvando vidas. Estão apenas acontecendo.

Nascer virou procedimento eletivo

Há algo de muito brasileiro nessa estatística: transformamos até o nascimento em marcador de classe. O parto virou produto — e, como todo produto premium no Brasil, o pacote mais caro nem sempre é o melhor, só o mais vendido. Enquanto isso, países com sistemas de saúde robustos e mortalidade materna baixíssima — Suécia, Holanda, Japão — seguem com taxas de cesárea na casa dos 17% a 20%, sem que suas maternidades desabem.

Reverter duas décadas de cultura obstétrica não se faz com portaria. Passa por remunerar o parto normal de forma decente no setor privado, por equipes de plantão dedicadas, por enfermagem obstétrica valorizada e por informação honesta à gestante — não a que romantiza a dor, nem a que vende o bisturi como conforto. Seis em cada dez brasileiros nascendo de cirurgia não é escolha das mulheres. É o sistema escolhendo por elas — com hora marcada.

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