O Brasil bateu recorde de transplantes — e mesmo assim quase metade das famílias diz não à doação

O Brasil bateu recorde de transplantes — e mesmo assim quase metade das famílias diz não à doação

O maior obstáculo para quem espera um órgão no Brasil não é falta de estrutura nem de doadores em potencial: é a recusa familiar, alimentada por um conceito que quase ninguém entende direito — a morte encefálica.

SaúdeCidade ·

O coração bate. O peito sobe e desce. A pele está morna. E o médico, do outro lado do leito, diz que o paciente morreu. Se essa cena parece contraditória para você, saiba que ela é o epicentro do maior gargalo dos transplantes no Brasil — e que a sua reação a ela pode, um dia, decidir se alguém na fila recebe um órgão ou não.

O país alcançou em 2025 um recorde histórico de transplantes, segundo o Sistema Nacional de Transplantes. Deveria ser só comemoração, mas os mesmos dados escondem um número constrangedor: quase metade das famílias brasileiras recusa a doação de órgãos quando o momento chega. Não por maldade. Por não entender — ou não acreditar — no que a medicina está dizendo.

Morto com o coração batendo: como assim?

A confusão tem lógica. Passamos a vida inteira associando morte a coração parado, e de repente uma equipe médica declara o óbito de alguém que está quentinho, com monitor apitando em ritmo regular. "Muitas famílias perguntam se o coração pode voltar a bater sozinho ou se os reflexos podem reaparecer", relata a médica intensivista Fernanda Resende, do Hospital Angelina Caron, na região metropolitana de Curitiba.

A resposta é não — e entender o porquê muda tudo. Na morte encefálica, o cérebro inteiro, incluindo o tronco cerebral, parou de funcionar de forma irreversível. O coração ainda bate porque tem seu próprio marca-passo natural e porque as máquinas da UTI seguem empurrando oxigênio para os pulmões. Desligue os aparelhos e tudo para em minutos. "Estamos tratando do óbito do paciente. Diferentemente do coma, em que ainda existe atividade cerebral", explica Resende. Coma é cérebro em silêncio parcial, com chance de retorno. Morte encefálica é o fim da atividade — sem exceções documentadas, sem milagre de novela.

O diagnóstico mais auditado da medicina brasileira

Aqui vale desmontar o medo mais comum — o de que os médicos "desistem" do paciente para aproveitar os órgãos. O protocolo brasileiro, definido pelo Conselho Federal de Medicina, é deliberadamente redundante: são dois exames clínicos, feitos por médicos diferentes e habilitados, um teste de apneia e ainda um exame de imagem comprovando ausência de fluxo sanguíneo no cérebro. E um detalhe que pouca gente sabe: nenhum dos médicos que declaram a morte encefálica pode ter qualquer ligação com a equipe de transplantes. Quem diagnostica não é quem transplanta.

Morte encefálica no Brasil — o que diz o protocolo do CFM:

Dois exames clínicos realizados por médicos habilitados e independentes
Teste de apneia — verifica se há qualquer esforço respiratório próprio
Exame de imagem confirmando ausência de fluxo sanguíneo cerebral
• Diagnóstico definitivo e irreversível — não há registro de reversão
• Após confirmação e autorização da família, a UTI mantém oxigenação e circulação para preservar coração, pulmões, fígado e rins

O trabalho invisível da UTI depois do fim

Confirmada a morte encefálica e autorizada a doação, a UTI muda de missão sem mudar de aparência: médicos, enfermeiros e fisioterapeutas seguem cuidando do corpo — mantendo circulação e oxigenação — não mais para salvar aquele paciente, o que já não é possível, mas para preservar os órgãos que podem salvar outros quatro, cinco, às vezes mais. Psicólogos e assistentes sociais entram em cena para segurar a mão da família. É talvez o plantão mais estranho da medicina: cuidar de quem já se foi para proteger quem ainda pode ficar.

A conversa que ninguém quer ter (e que resolve tudo)

"Quando a morte encefálica é explicada de forma clara e acolhedora, a família consegue entender melhor", diz Resende. Mas há um limite para o que uma boa conversa consegue fazer às 3 da manhã, no pior dia da vida de uma família. A decisão sobre doação, no Brasil, é sempre dos parentes — não existe doador "de carteirinha" com validade legal. O que existe é algo mais simples e mais poderoso: dizer em vida, em voz alta, na mesa do domingo, "se eu morrer, quero doar".

Famílias que ouviram essa frase raramente recusam — não estão decidindo nada, apenas cumprindo uma vontade. Famílias que nunca ouviram carregam sozinhas uma escolha impossível, no meio do luto, cercadas de dúvidas que o WhatsApp adora alimentar.

O recorde de 2025 prova que o sistema funciona. A recusa de quase 50% prova que a informação, não. Você não precisa esperar a UTI para resolver a sua parte: a fila de transplantes do Brasil anda uma conversa de jantar por vez.

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