O mesmo remédio custa R$ 3,87 numa farmácia e R$ 98,05 em outra — bem-vindo à loteria dos medicamentos
Pesquisa do Procon-SP em farmácias físicas e online encontrou variação de até 2.433% no preço do mesmo genérico na mesma cidade. Atravessar São Paulo pode ser o investimento com melhor retorno da sua vida financeira.
Faça um teste mental: você aceitaria pagar R$ 98 por um produto que a loja do outro lado da cidade vende por R$ 3,87? Óbvio que não — se soubesse. O problema é que ninguém sabe. É exatamente assim que funciona o mercado de medicamentos em São Paulo, segundo pesquisa divulgada pelo Procon-SP: o mesmo genérico, com o mesmo princípio ativo, da mesma dosagem, pode custar 2.433,59% mais caro dependendo da porta que você empurrar.
Os números não são teóricos. Uma cartela com 30 comprimidos de 5 mg de um medicamento para disfunção erétil saía por R$ 98,05 numa farmácia da zona norte — e por R$ 3,87 numa da zona sul. Um remédio para hipotireoidismo, desses que a pessoa toma todo dia pelo resto da vida, variava de R$ 10,73 a R$ 41,43. Mesma molécula. Mesma caixa. Preço de universos paralelos.
Como a pesquisa foi feita
O Procon-SP não pinçou dois outliers para render manchete. Entre 19 e 20 de maio, a fundação comparou mais de 70 medicamentos — genéricos e de referência — em 10 farmácias da capital, em estabelecimentos de outros 10 municípios paulistas e em 10 sites de grandes redes. Entraram na cesta antitérmicos, anti-inflamatórios, ansiolíticos, antibióticos, anticoncepcionais, antidepressivos, remédios para colesterol e artrite reumatoide. Ou seja: a farmácia inteira da vida real.
E a conclusão incômoda é que não existe "farmácia barata" — existe preço barato para produto específico em loja específica. A rede que cobra pouco pelo seu antidepressivo pode estar cobrando uma fortuna pelo seu anti-hipertensivo. O sistema não é caro nem barato: é opaco.
Genérico: o desconto que muita gente ainda recusa
A pesquisa trouxe outro número que merece parede de consultório: os genéricos custam, em média, 63,05% menos que os medicamentos de referência. Mais de duas décadas depois da Lei dos Genéricos, ainda há quem desconfie da caixinha amarela — como se pagar o triplo pela marca fosse prova de amor à própria saúde. Não é. A Anvisa exige dos genéricos testes de bioequivalência: é o mesmo princípio ativo, na mesma dose, fazendo o mesmo efeito. A diferença de preço não está na química — está no marketing que você aceita financiar.
• Variação de até 2.433,59% no preço do mesmo genérico entre farmácias da capital
• Disfunção erétil (30 comp., 5 mg): de R$ 3,87 a R$ 98,05
• Hipotireoidismo (30 comp., 25 mcg): de R$ 10,73 a R$ 41,43
• Genéricos em média 63,05% mais baratos que os de referência
• Mais de 70 medicamentos pesquisados em farmácias físicas e online
• Relatório completo disponível no site do Procon-SP
Por que isso é um problema de saúde, não só de bolso
Preço de remédio no Brasil não é assunto de consumo — é assunto de adesão a tratamento. Quem toma levotiroxina, anti-hipertensivo ou antidepressivo compra o remédio todo mês, para sempre. Uma diferença de R$ 30 mensais são R$ 360 por ano, num país em que metade dos trabalhadores vive com menos de dois salários mínimos. Quando o preço aperta, o paciente não negocia com a farmácia: ele pula dose, parte comprimido ao meio, abandona o tratamento. E aí quem paga a conta — em internação, em AVC, em emergência — é o SUS. Sai muito mais caro.
Como não ser o otário da estatística
A recomendação do Procon-SP cabe numa palavra: pesquise. Com o nome do princípio ativo em mãos (está na receita), compare preços em dois ou três sites de grandes redes antes de sair de casa — a mesma pesquisa que você faz para comprar um fone de ouvido, aplicada a algo que importa mais. Pergunte pelo genérico, sempre. Verifique se o medicamento tem registro no Ministério da Saúde, cheque lote e validade.
E antes de tudo: veja se você precisa mesmo pagar. O programa Farmácia Popular oferece de graça remédios para hipertensão, diabetes, asma, colesterol e mais uma lista razoável. Muitos planos de saúde têm convênio com desconto em rede de farmácias, e os próprios laboratórios mantêm programas de fidelidade que pouca gente ativa. Dinheiro deixado na mesa, todo mês.
A variação de 2.400% tem uma única explicação: o setor cobra o que consegue de quem não compara. Cada consumidor que pesquisa antes de comprar estraga um pouquinho esse modelo de negócio. Seja essa pessoa.
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