Anvisa aprova vacina de gripe com 73% de eficácia — agora começa a parte difícil
A Fluprevli, trivalente e liberada a partir dos 6 meses de idade, saiu no Diário Oficial em 13 de julho. Entre o registro sanitário e a agulha no braço de quem depende do SUS existe um caminho chamado Conitec.
Todo mês de julho o Brasil repete o mesmo ritual: as UTIs pediátricas enchem, os avós tossem, alguém na sua família diz que "pegou uma gripe forte" e passa duas semanas fora do trabalho. E todo mês de julho alguém pergunta por que a vacina da gripe não é melhor. Esta semana a Anvisa deu uma resposta parcial — e ela vem com asterisco.
No dia 13 de julho, publicada no Diário Oficial da União, a agência aprovou o registro da Fluprevli, uma vacina trivalente contra influenza A e B, liberada para qualquer pessoa a partir dos 6 meses de idade. Os estudos clínicos apresentados mostram eficácia de até 73% em adultos e até 65% em crianças. Aprovada, registrada, existe. Só que existir e estar disponível no posto são coisas diferentes.
Setenta e três por cento é bom ou é ruim?
Depende do que você estava esperando. Se a sua régua é a vacina de sarampo, que beira 97% de proteção, 73% parece decepcionante. Mas o vírus da influenza não joga o mesmo jogo do sarampo. Ele muda de casaco todo ano — literalmente, as proteínas da superfície se alteram numa velocidade que obriga o mundo a reformular a vacina anualmente, apostando em quais linhagens vão circular meses antes de elas circularem.
É o equivalente a acertar a previsão do tempo de um Carnaval em agosto. Nesse contexto, 73% de eficácia em adultos não é um consolo — é um resultado sólido. E vale lembrar o que "eficácia" mede aqui: reduzir o risco de adoecer. A capacidade de evitar hospitalização e morte, que é o que realmente importa em idoso e criança pequena, costuma ser ainda maior do que o número de infecções evitadas.
• Vacina trivalente contra influenza A e B
• Aprovada em 13 de julho de 2026, publicada no Diário Oficial
• Indicada a partir dos 6 meses de idade
• Eficácia de até 73% em adultos e até 65% em crianças
• Base: estudos com altas taxas de soroproteção e soroconversão
• Ainda não está no SUS — depende de avaliação da Conitec e decisão do Ministério da Saúde
Soroproteção, soroconversão e outras palavras que escondem o essencial
A aprovação se baseou em estudos que demonstraram "altas taxas de soroproteção e soroconversão". Traduzindo do burocratês: soroconversão é o seu sistema imune produzir anticorpos detectáveis onde antes não havia; soroproteção é esses anticorpos chegarem a um nível que a literatura associa a estar protegido. É o exame de sangue dizendo que a aula foi assimilada.
É importante saber que esse é um marcador indireto. Anticorpo no tubo de ensaio não é a mesma coisa que gripe que não aconteceu. Por isso os dois números convivem no mesmo comunicado: o laboratorial, que mostra que o corpo respondeu, e o clínico — os 73% —, que mostra quanta doença deixou de existir no mundo real.
A parte difícil: registro não é distribuição
Aqui está o asterisco. O registro da Anvisa autoriza a venda no Brasil. Ele não coloca a vacina na sala de imunização da sua UBS. Para isso ela precisa ser avaliada pela Conitec, a comissão que analisa a incorporação de tecnologias no SUS, e depois aprovada pelo Ministério da Saúde. É um segundo processo, com outra lógica: a Anvisa pergunta "isso é seguro e funciona?"; a Conitec pergunta "isso vale o que custa, comparado ao que já temos?".
São perguntas legítimas e diferentes. O SUS já oferece vacina de gripe gratuita todo ano na campanha nacional, e uma nova candidata precisa mostrar que entrega algo a mais pelo preço que cobra. Enquanto essa conta não é feita, a Fluprevli tende a existir onde vacina nova costuma existir primeiro no Brasil: na clínica privada, para quem tem R$ 100 e meia hora livre. É o padrão nacional — a inovação chega pelo topo e desce devagar.
Quem precisa dela é quem menos vai alcançá-la primeiro
A própria nota lembra quem são os vulneráveis: crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com comorbidades. Repare que é quase o retrato falado de quem depende do sistema público. A gripe não mata o executivo de 35 anos que tomou a vacina na farmácia do shopping — ela mata o senhor de 78 com insuficiência cardíaca que não conseguiu ir ao posto, e o bebê de 8 meses cuja mãe não sabia que ele podia se vacinar.
Se você está no grupo prioritário, não espere pela Fluprevli para decidir se vacina. A vacina que existe hoje, gratuita, no seu posto, é a que reduz sua chance de terminar o inverno numa maca de corredor. A melhor vacina contra a gripe continua sendo a que entra no seu braço em julho — não a que está aguardando parecer da Conitec.
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