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Barriga d'água tem remédio para bebê — e ele é feito pela Fiocruz

Barriga d'água tem remédio para bebê — e ele é feito pela Fiocruz

A Anvisa registrou o Farmanguinhos Arpraziquantel, primeiro tratamento para esquistossomose pensado para crianças de 3 meses a 6 anos: comprimido que se dissolve, dose única, desenvolvido por um consórcio internacional e fabricado no Rio. Até agora, os menores ficavam sem formulação própria. Falta o SUS dizer quando ele chega aos postos.

SaúdeCidade ·

Imagine tratar uma criança de dois anos com um comprimido grande, amargo como fel, feito para adulto e partido ao meio no olhômetro. Ela cospe, vomita, chora — e você não sabe quanto do remédio ficou dentro. Durante décadas, foi isso, ou nada, que a medicina tinha a oferecer aos bebês e crianças pequenas com esquistossomose, a velha "barriga d'água" que ainda mata centenas de brasileiros por ano.

Nesta quarta-feira, 30 de setembro, a Anvisa registrou o Farmanguinhos Arpraziquantel, indicado para esquistossomose por Schistosoma mansoni ou S. haematobium em crianças de 3 meses a 6 anos. A Resolução RE nº 3.851/2026 saiu no Diário Oficial no mesmo dia. O fabricante é o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz, o Farmanguinhos — um laboratório público brasileiro que entrega um remédio que o mercado nunca teve pressa de inventar.

Um verme que entra pela pele e mora nas veias

A esquistossomose começa num banho de rio, de lagoa ou de açude. Caramujos do gênero Biomphalaria liberam na água larvas microscópicas, as cercárias, que atravessam a pele em minutos. Elas caem na circulação, amadurecem no fígado e vão morar, em casais, nas veias do intestino — o casal da foto acima. A fêmea põe centenas de ovos por dia. Parte sai nas fezes e, sem esgoto, volta para a água e reinfecta os caramujos. Parte fica presa no fígado.

É esse ovo preso que faz o estrago. O fígado reage com cicatrizes, a pressão nas veias sobe, o baço incha e o abdome se enche de líquido — a barriga d'água. Pode haver varizes no esôfago que sangram de uma vez. Nada disso acontece em semanas: é o resultado de anos de infecção silenciosa. Por isso tratar cedo, na infância, é o que separa um verme incômodo de uma doença crônica do fígado.

E criança pequena se infecta muito. Vai junto para o rio onde a mãe lava roupa, toma banho no açude, brinca na beira da água. Só que, até agora, o tratamento disponível era o praziquantel convencional, cuja formulação era indicada a partir dos 4 anos. Os menores ficavam num limbo: expostos à mesma água, sem remédio adequado para a idade.

Arpraziquantel e esquistossomose, em números
• Faixa aprovada pela Anvisa: 3 meses a 6 anos (Resolução RE nº 3.851/2026, DOU de 30/9)
• Formulação: comprimido dispersível, que se dissolve em água, em dose única calculada pelo peso
• Estudo de fase 3 na Costa do Marfim e no Quênia: cura acima de 85% para S. mansoni e de 95% para S. haematobium, com redução de ovos acima de 90%
• Dezembro de 2023: parecer científico positivo da Agência Europeia de Medicamentos; maio de 2024: pré-qualificação pela OMS
• Cerca de 50 milhões de crianças em idade pré-escolar com esquistossomose no mundo, segundo o consórcio que desenvolveu o remédio
• Brasil: média de 472 mortes por ano entre 2017 e 2021; transmissão estabelecida em AL, BA, PE, RN, PB, SE, ES, MA e MG
(Fontes: Anvisa, Agência Brasil, Pediatric Praziquantel Consortium, OMS, estudos epidemiológicos com dados do SIM/DataSUS)

Metade de uma molécula, o dobro de sentido

O praziquantel que se usa desde os anos 1980 é, na verdade, uma mistura de duas moléculas espelhadas — como a mão direita e a esquerda. Só uma delas, a "esquerda", mata o verme de fato. A outra pouco ajuda e responde por boa parte do gosto amargo. O arpraziquantel é só a metade que funciona. Resultado: comprimido menor, menos amargo e que se dissolve em água — algo que uma criança de um ano consegue engolir sem uma batalha campal.

O mecanismo é brutal na medida certa. Absorvido, o remédio provoca espasmos e paralisia no verme, que se solta da parede da veia, e danifica o tegumento, a "capa" que esconde o parasita do sistema imune. Desprotegido, o verme é destruído pelo próprio organismo da criança.

O caminho até aqui é um raro exemplo de cooperação que deu certo. A formulação foi desenvolvida no Japão pela Astellas, otimizada na Alemanha pela Merck e transferida para produção no Farmanguinhos, dentro do Consórcio Pediátrico do Praziquantel, uma parceria público-privada sem fins lucrativos. Os testes clínicos foram feitos na África, onde está a maior parte das crianças doentes. A fábrica escolhida para abastecer os países endêmicos fica em Jacarepaguá.

Doença de pobre, remédio de laboratório público

A própria Anvisa usou, na nota, a expressão certa: doença tropical negligenciada, que "afeta predominantemente populações de baixa renda". É a tradução técnica de uma frase mais simples — a esquistossomose existe onde falta esgoto. No Nordeste ela ainda mata em ritmo de século passado: Pernambuco e Alagoas têm taxas de mortalidade de 1,7 por 100 mil habitantes, várias vezes a média nacional. Nenhuma farmacêutica privada faria fila para desenvolver um comprimido infantil para esse mercado.

Por isso o registro importa além da bula. É um medicamento que existe porque um laboratório público e um consórcio sem fins lucrativos decidiram que existiria. E traz uma pergunta que a Anvisa não responde: quando ele chega aos postos de saúde? O cronograma de produção e a distribuição pelo SUS ainda não foram divulgados. Registro é licença para existir; sem compra e distribuição, o remédio fica na prateleira da fábrica.

O que fazer, se você mora em área endêmica

Desconfie dos sinais depois de contato com água doce parada ou de rio: coceira e manchas vermelhas na pele, e, de duas a seis semanas depois, febre, tosse seca, dor de cabeça e cansaço. Em criança pequena, barriga crescendo, emagrecimento e diarreia persistente merecem investigação.

Peça o exame de fezes na unidade básica de saúde. Ele é gratuito, e o tratamento também. Se a criança tiver menos de 4 anos, pergunte ao médico sobre a nova formulação — a demanda nos postos é, muitas vezes, o que acelera a chegada de um remédio novo.

Evite o banho em rios, lagoas e açudes de áreas com caramujo, especialmente com crianças. Mas não se iluda: o conselho de "não entrar na água" é fácil de dar e difícil de seguir onde a água do rio é a única que existe.

O Brasil acaba de fabricar o remédio que faltava para os bebês com barriga d'água. O que falta para que eles não precisem dele é mais velho, mais caro e mais simples: cano de esgoto.

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