A malária que o mundo ignorou ganha a primeira vacina — e ela é mineira
A Anvisa autorizou, em resolução publicada no Diário Oficial de 7 de outubro, o primeiro teste em humanos da Vivaxin, vacina contra o Plasmodium vivax desenvolvida pelo CTVacinas da UFMG com USP e Cristália. É o parasita de 85% dos 118 mil casos de malária que o Brasil teve em 2025 e o único sem vacina em lugar nenhum do planeta. A fase 1 terá 48 voluntários em Belo Horizonte e um ano de acompanhamento. Ainda não é hora de comemorar, mas é hora de prestar atenção.
Quando alguém fala em vacina contra a malária, a imagem que se forma é a de uma criança africana recebendo a dose numa fila de posto de saúde. A imagem está certa — e é exatamente esse o problema. As duas vacinas que a Organização Mundial da Saúde recomenda hoje, a RTS,S e a R21, foram feitas para o Plasmodium falciparum, a espécie que mata na África. Para o Plasmodium vivax, que responde pela esmagadora maioria dos casos no Brasil, nas Américas e em boa parte da Ásia, não existe vacina aprovada em país nenhum. Nunca existiu.
Essa lacuna começou a ser preenchida de um jeito pouco habitual: por um laboratório universitário de Minas Gerais. A Anvisa autorizou o início dos testes em humanos da Vivaxin, candidata a vacina desenvolvida pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da UFMG, em parceria com a USP e o laboratório Cristália. A decisão saiu na Resolução-RE 3.956, de 6 de outubro, publicada no Diário Oficial do dia 7, que deferiu dois pedidos da universidade: o do ensaio clínico em si e o do dossiê de desenvolvimento clínico do produto.
Traduzindo do burocratês: a agência leu a papelada dos testes em animais e concluiu que é razoável aplicar a vacina em gente. Só isso. Não é registro, não é aprovação, não é dose no SUS. É o primeiro degrau de uma escada que tem três e costuma levar anos para subir.
Por que ninguém tinha feito isso antes
O vivax não é uma versão mais branda do falciparum. É outro bicho, com uma peculiaridade cruel: ele deixa formas adormecidas no fígado, os hipnozoítos, que podem acordar semanas ou meses depois e provocar uma nova crise sem que a pessoa tenha sido picada de novo. Quem já teve malária vivax na Amazônia conhece a rotina — a febre volta, o trabalho para, o salário encolhe. Foi para atacar esses hipnozoítos que o SUS passou a oferecer a tafenoquina em 2024, em dose única, e a versão pediátrica em março deste ano.
Há ainda um motivo menos nobre para o atraso. O falciparum mata centenas de milhares de crianças por ano na África, o que mobiliza fundações, governos ricos e as grandes farmacêuticas. O vivax mata menos e adoece muito, numa região do mundo que não paga bem por vacina. Faça as contas de qualquer diretor de pesquisa e você entende por que, em 2024, dos cerca de 282 milhões de casos de malária no mundo, os 9,9 milhões causados por vivax ficaram sem um único imunizante para chamar de seu.
• Autorização: Resolução-RE 3.956, de 6/10, no DOU de 7 de outubro de 2026
• Desenvolvedores: CTVacinas/UFMG, com USP e Cristália; coordenador: Ricardo Gazzinelli
• Tecnologia: proteína recombinante que reúne variantes de uma proteína da superfície do parasita
• Fase 1: 48 adultos de 18 a 59 anos que nunca tiveram malária, vacina ou placebo, três dosagens diferentes
• Esquema: 3 doses com 28 dias de intervalo; acompanhamento por 360 dias
• Local: Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, Belo Horizonte
• Financiamento previsto: R$ 12 milhões do Ministério da Saúde para as fases 1, 2 e 3
• Malária no Brasil em 2025: 118.037 casos, cerca de 85% por vivax, 99% na Amazônia, 39 mortes
(Fontes: Anvisa, Agência Brasil, UFMG, Ministério da Saúde, OMS)
O que vai acontecer com os 48 voluntários
A fase 1 é a fase do medo. Ela não serve para saber se a vacina protege, serve para saber se ela faz mal. Os 48 participantes — adultos saudáveis de 18 a 59 anos, que nunca tiveram malária — serão sorteados entre vacina e placebo, sem que eles nem a equipe saibam quem recebeu o quê. Três dosagens diferentes serão testadas, em três aplicações com 28 dias de intervalo, e cada pessoa será acompanhada por 360 dias com exames periódicos no Hospital das Clínicas da UFMG.
O que se mede é prosaico: dor no braço, febre, quantas vezes e com que intensidade. Só depois disso vem a pergunta seguinte, se o corpo produz anticorpos contra o parasita. A eficácia de verdade — menos gente pegando malária — fica para as fases 2 e 3, que ainda não têm data e precisarão acontecer onde a doença circula, ou seja, na Amazônia.
A tecnologia é de proteína recombinante, a mesma família de vacinas como a da hepatite B. A proteína escolhida é a que recobre o esporozoíto, a forma do parasita que o mosquito injeta na picada. A sacada do grupo mineiro foi construir uma proteína quimérica que junta as variantes conhecidas dessa molécula, para que a vacina não funcione só contra a cepa que estava no tubo de ensaio. "Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território", disse Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas, à CNN Brasil.
Uma vacina para um problema que está encolhendo
Há uma ironia aqui que vale encarar. A Vivaxin chega num momento em que a malária brasileira está no ponto mais baixo em 47 anos. Em 2025 o país registrou 118.037 casos, queda de 15% sobre 2024, com 30% menos falciparum e 28% menos mortes. O Plano Nacional de Eliminação da Malária tem meta de interromper a transmissão local até 2035. Para que serve uma vacina se a doença está indo embora?
Serve justamente para o fim do caminho. Reduzir malária de 500 mil para 100 mil casos é trabalho de mosquiteiro, diagnóstico rápido e comprimido. Reduzir de 100 mil para zero é outra história: os casos que sobram estão em garimpo, aldeia e beira de rio, lugares onde o agente de saúde chega uma vez por mês, e o reservatório de hipnozoítos no fígado das pessoas fica reacendendo a transmissão. Sem uma ferramenta que impeça a infecção, a meta de 2035 vira slogan. Com uma vacina razoável, vira plano.
Há também o fator Venezuela, Peru e Colômbia, vizinhos onde o vivax circula sem a mesma queda, e de onde o parasita reentra pela fronteira. Uma vacina feita por quem convive com o problema, e produzida aqui, interessa a todo o continente — o vivax respondeu por 63% dos casos estimados nas Américas em 2024.
O que ainda pode dar errado
Muita coisa. A maioria das candidatas a vacina que entra na fase 1 não chega à prateleira. A própria RTS,S, hoje recomendada pela OMS, levou mais de 30 anos entre o laboratório e a primeira criança vacinada em programa de rotina, e sua eficácia fica em torno de 30 a 40% — útil, mas longe de uma vacina de sarampo. O vivax tem um complicador extra: como o parasita se esconde no fígado, a vacina precisa impedir a entrada, porque depois de instalado o hipnozoíto já era.
E tem o dinheiro. R$ 12 milhões do Ministério da Saúde para três fases de ensaio é um valor honesto para a fase 1 e simbólico para a fase 3, que exige milhares de participantes em área endêmica. Se a Vivaxin passar da primeira etapa, a pergunta seguinte não será científica, será orçamentária — e a resposta costuma demorar mais que o ensaio.
O que fazer enquanto a vacina não vem
Se você vai para a Amazônia, a trabalho ou a passeio, saiba que não existe vacina para levar na mala. A proteção é mosquiteiro impregnado, repelente ao entardecer e ao amanhecer, quando o Anopheles está ativo, e roupa comprida.
Febre depois de uma viagem a área de malária, mesmo semanas depois, é malária até prova em contrário. O diagnóstico é gratuito no SUS e o resultado da gota espessa sai no mesmo dia. Não tome antitérmico e espere passar.
Se já teve malária vivax, termine o tratamento completo. O comprimido que corta a febre não é o que mata o hipnozoíto. Parar no meio é garantir a recaída.
Um país que tem a maior parte da malária das Américas finalmente colocou sua própria vacina na fila da Anvisa, e ela passou pela porta. Faltam dois andares, muito dinheiro e alguns anos. Mas por 40 anos o mundo tratou o vivax como a malária dos outros. Agora, pelo menos, alguém está fazendo a lição de casa — e é a nossa.
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