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A ashwagandha do TikTok é proibida no Brasil — e a Anvisa resolveu lembrar

A ashwagandha do TikTok é proibida no Brasil — e a Anvisa resolveu lembrar

A erva indiana vendida como calmante natural e alívio da perimenopausa não está na lista de ingredientes autorizados para suplementos. Fabricar, vender e usar é proibido. O alerta veio depois de uma britânica de 44 anos precisar de transplante de fígado, e a Europa já discute o que fazer com a planta.

SaúdeCidade ·

Você abre o TikTok para ver um vídeo de receita e, três rolagens depois, uma moça de quarenta e poucos anos jura que dorme como um bebê, que a ansiedade sumiu e que os calorões da perimenopausa deram uma trégua. O segredo, diz ela segurando um pote de gomas coloridas, é a ashwagandha. Link na bio, frete grátis, cupom de desconto.

Só que, no Brasil, esse pote não deveria existir. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou esta semana um alerta para reforçar uma proibição que muita gente nem sabia que existia: a ashwagandha não tem registro no país e não integra a lista de ingredientes autorizados para suplementos alimentares. Nas palavras da agência, "sua fabricação, comercialização, distribuição e uso são proibidos no país".

O que a Anvisa disse, traduzido

Suplemento alimentar no Brasil não é terra de ninguém. A RDC 243/2018 define que esses produtos só podem ser feitos com substâncias que constam numa lista positiva, ou seja, uma relação fechada do que está liberado. Fora dela, não entra. A ashwagandha (nome científico Withania somnifera) nunca entrou.

Traduzindo do burocratês: não é que a Anvisa analisou e achou perigosa agora. É que ninguém nunca demonstrou à agência que ela é segura o bastante para entrar na lista. O que você compra no marketplace ou no perfil da influenciadora é, por definição, produto irregular.

A agência aproveitou para lembrar outra regra que o algoritmo ignora solenemente: é "terminantemente proibido" vincular suplemento a alegações de cura, tratamento ou prevenção de doenças. Vídeo prometendo acabar com ansiedade, insônia ou sintomas da menopausa já nasce fora da lei, com ou sem ashwagandha no rótulo.

O caso que acendeu o alerta

A nota da Anvisa cita o caso de Lois Kinder, uma britânica de 44 anos. Segundo a família contou à imprensa do Reino Unido, ela começou a tomar gomas de ashwagandha em julho de 2025, depois de conhecer o produto no TikTok. Um ano depois, no início de julho de 2026, vieram os vômitos e a icterícia, aquele amarelado na pele e nos olhos que é o fígado pedindo socorro.

Em 13 de julho, ela foi encontrada desacordada em casa. Diagnóstico: insuficiência hepática aguda. Coma induzido, transferência para um centro de doenças do fígado em Birmingham, transplante. Complicações durante o atendimento deixaram o cérebro sem oxigênio, com danos neurológicos graves.

Convém ser honesto com você: um caso isolado não prova que a planta causou a lesão. O próprio Conselho Federal de Farmácia, ao repercutir a história, lembrou que a relação depende de investigação clínica e da exclusão de outras causas. Mas o caso não está sozinho, e é aí que a conversa fica séria.

Ashwagandha: o que já se sabe
• No Brasil: sem registro e fora da lista de ingredientes de suplementos; fabricação, venda e uso proibidos (Anvisa, RDC 243/2018)
• Dinamarca: venda proibida desde março de 2026, após a Universidade Técnica da Dinamarca concluir que não há nível de consumo seguro definido
• França, Alemanha e Países Baixos: avaliações de risco publicadas em 2024 com conclusões semelhantes
• União Europeia: 27 notificações no sistema de alerta rápido de alimentos em cinco anos envolvendo suplementos com a planta
• Riscos descritos: lesão no fígado, excesso de hormônio da tireoide (tireotoxicose), taquicardia e arritmia, risco na gravidez
• Interações: antidiabéticos, anti-hipertensivos, imunossupressores e sedativos
(Fontes: Anvisa, Agência Brasil, CFF, DECO PROteste, TGA da Austrália)

A Europa também está desconfiada

A Dinamarca foi a primeira a fechar a porta: desde março, alimentos e suplementos com ashwagandha não podem ser vendidos no país. A justificativa da avaliação dinamarquesa foi direta: não dá para dizer qual quantidade é segura, e há preocupação com efeitos sobre hormônios sexuais, reprodução, metabolismo, sistema imune e sistema nervoso.

Em Portugal, a planta ainda é vendida, mas a autoridade de saúde já a sinalizou à Comissão Europeia, e a decisão deve sair em bloco. A agência reguladora da Austrália, a TGA, emitiu aviso sobre casos raros de lesão hepática, incluindo relatos internacionais de transplante e morte. Na França, foram documentados casos de arritmia.

Repare no padrão: os países que olharam com lupa não encontraram uma bomba, mas também não encontraram o certificado de inocência. Para uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica, isso pode soar exagero. Não é. Uso tradicional em chá de raiz, em dose de curandeiro, é uma coisa. Extrato concentrado em goma sabor morango, tomado todo dia por um ano porque a influenciadora mandou, é outra completamente diferente.

Funciona? A resposta honesta é "talvez, um pouco"

Os estudos mais favoráveis sugerem efeito modesto, de curto prazo, sobre a percepção de estresse e a qualidade do sono. São ensaios pequenos, curtos e feitos com extratos tão diferentes entre si que comparar um com outro é como comparar café coado com energético e chamar os dois de "bebida com cafeína".

O termo "adaptógeno", estampado em metade dos rótulos, soa científico mas não é um conceito reconhecido pela farmacologia. É marketing com jaleco. E nenhuma das alegações de saúde que acompanham esses produtos foi validada pela autoridade europeia de segurança alimentar.

Ou seja: você está trocando um benefício incerto e pequeno por um risco raro, mas grave, e sem saber a dose do que está tomando. Se um remédio fosse lançado com esse perfil, a fila na porta da Anvisa seria de advogados, não de clientes.

O que fazer se o pote já está na sua gaveta

Primeiro, pare. Não há razão para esvaziar o frasco por pena do dinheiro gasto. Se você usa remédio para diabetes, pressão, tireoide, ansiedade ou insônia, a chance de interação é real, e vale contar ao seu médico ou farmacêutico que tomou o produto.

Segundo, conheça os sinais de alerta do fígado: pele ou olhos amarelados, urina escura, fezes claras, vômitos persistentes, coceira no corpo e cansaço fora do comum. Qualquer um deles depois de usar um suplemento é motivo para procurar atendimento, não para esperar passar.

Terceiro, se a sua dificuldade é dormir, a ansiedade ou os sintomas da perimenopausa, existe tratamento com evidência, inclusive no SUS. Terapia hormonal, quando indicada, tem décadas de estudo. Psicoterapia e higiene do sono também. Nada disso cabe num vídeo de 30 segundos, e talvez por isso não viralize.

A ashwagandha não ficou proibida esta semana. Ela sempre foi. O que mudou é que o algoritmo passou a vender mais rápido do que a vigilância sanitária consegue avisar. E, entre o vídeo e o aviso, quem paga a diferença é o seu fígado.

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