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A Anvisa aprovou mais um remédio para prevenir enxaqueca — e o número do anúncio não é o número que importa

A Anvisa aprovou mais um remédio para prevenir enxaqueca — e o número do anúncio não é o número que importa

O Aquipta (atogepanto), da AbbVie, saiu no Diário Oficial nesta terça e é para quem tem pelo menos quatro crises por mês. Nos estudos de fase 3, tirou 6,9 dias de dor por mês — contra 5,1 dias de quem tomou placebo. A diferença entre esses dois números é a matéria inteira.

SaúdeCidade ·

Se você tem enxaqueca de verdade — a que apaga o dia, não a dor de cabeça de fim de tarde —, já aprendeu a desconfiar de manchete de remédio novo. Aprendeu porque já tomou de tudo: o que servia para pressão, o que servia para depressão, o que servia para epilepsia, todos recrutados ao longo de décadas para uma função que não era a deles.

Então vale explicar direito o que a Anvisa aprovou nesta terça-feira, o que os números querem dizer e por que a parte mais importante da notícia ainda não aconteceu.

O que foi aprovado

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária registrou o Aquipta, nome comercial do atogepanto, em duas apresentações: comprimidos de 10 mg e de 60 mg, em caixas com 28 unidades. A fabricante é a AbbVie. A indicação é preventiva — para adultos com pelo menos quatro episódios de enxaqueca por mês, na forma episódica ou na crônica.

Preventivo é a palavra-chave e é onde mora a confusão mais comum. Não é o comprimido que você toma quando a crise chega. É o que você toma todo dia para que ela venha menos vezes. Se você tomar na hora da dor esperando resgate, vai concluir que não funciona.

Como ele age — e por que isso é diferente

O atogepanto bloqueia o receptor do CGRP, o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina. Traduzindo: o CGRP é um mensageiro que participa da transmissão da dor na enxaqueca. Bloquear o receptor dele é mexer no mecanismo da doença, não na consequência.

É a diferença entre tapar o vazamento e enxugar o chão. Os remédios antigos de prevenção — betabloqueador, antidepressivo, anticonvulsivante — enxugavam o chão de várias maneiras indiretas, cada uma com sua bagagem de efeitos colaterais, porque foi o que existiu por trinta anos. A família dos gepantes e dos anticorpos anti-CGRP é a primeira desenhada para a enxaqueca desde o começo.

Os números, sem maquiagem

Dois estudos de fase 3 sustentam o registro.

O Advance avaliou 910 participantes com enxaqueca episódica. Quem tomou 60 mg por dia teve redução média de 4,1 dias de enxaqueca por mês em relação ao placebo, e 59% dos pacientes conseguiram cortar pelo menos metade das crises — contra 29% de quem não tomou o remédio.

O Progress avaliou 778 adultos com enxaqueca crônica por 12 semanas. Aqui está o número que a manchete costuma dar sozinho: o grupo tratado perdeu 6,9 dias de dor por mês. O que a manchete costuma esconder é a linha seguinte: o grupo do placebo perdeu 5,1.

6,9 menos 5,1 dá 1,8. Esse é o ganho real do remédio sobre não tomar nada, na enxaqueca crônica: cerca de dois dias de dor a menos por mês. Parece pouco escrito assim. Para quem tem 15 dias de crise em 30, são dois dias de vida devolvidos por mês, todo mês. O que esse número também revela é o tamanho do efeito placebo na enxaqueca — 5,1 dias a menos só com o ritual de tomar um comprimido e ser acompanhado. É por isso que estudo sem grupo placebo, nessa doença, não vale nada.

Não é um número ruim. É um número honesto, do tamanho que os tratamentos preventivos de enxaqueca costumam ter. Quem prometer mais que isso está vendendo.

A parte que ainda não aconteceu

Registro na Anvisa não é remédio na prateleira. A AbbVie ainda não divulgou data de lançamento nem preço, e o preço não é decisão dela sozinha: passa pela CMED, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, que define o teto com base em critérios próprios e em referências internacionais.

É aí que essa notícia vira ou não vira alguma coisa para você. Os anti-CGRP que já chegaram ao Brasil entraram na faixa de tratamento caro, de uso contínuo e quase sempre fora da lista do SUS e das operadoras — o que empurra a conta inteira para o bolso do paciente, mês após mês, numa doença que dura décadas. Enquanto a CMED não publicar o preço, o Aquipta é uma boa notícia sem endereço.

Quem deveria estar prestando atenção

A enxaqueca atinge uma em cada dez pessoas no mundo, é a segunda doença neurológica mais prevalente do planeta e está entre as maiores causas de incapacidade para o trabalho. As mulheres são a maioria — flutuação hormonal ao longo da vida e diferenças no processamento da dor —, mas o diagnóstico vem crescendo entre homens e adolescentes: 58% em três décadas.

No Brasil, o problema maior nem é a falta de opção terapêutica. É que 27 milhões de brasileiros têm enxaqueca e metade não sabe — segue tratando como "dor de cabeça forte", tomando analgésico comum, e às vezes chegando à cefaleia por uso excessivo de medicação, que é quando o próprio remédio da dor passa a causar a dor.

Então a versão prática: se você tem quatro ou mais dias de enxaqueca por mês, o remédio novo não é a primeira providência. A primeira é ter o diagnóstico feito por alguém que trate disso, e um diário de crises de dois meses — data, duração, o que veio antes, o que você tomou. Sem esse diário, nenhum preventivo tem como ser avaliado, porque ninguém vai saber se os dois dias a menos apareceram.

Com ele, você chega na consulta com dados. E, quando o preço sair, saberá exatamente se vale a sua conta.

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