Anvisa apreende a United Labz — que vendia no Brasil um remédio que ainda não existe em país nenhum

Anvisa apreende a United Labz — que vendia no Brasil um remédio que ainda não existe em país nenhum

A marca, que se apresenta como "empresa americana de Delaware" e jura seguir "rigorosamente as normas da Anvisa", anunciava canetas de tirzepatida e retatrutida com "99,7% de pureza". A tirzepatida tem patente da Eli Lilly no Brasil. A retatrutida não foi aprovada por nenhum regulador do planeta — a própria Lilly só pretende pedir o registro nos EUA em 2027. Alguém vendeu, e alguém comprou.

SaúdeCidade ·

Existe um tipo de fraude que exige esforço: falsificar a caixa, copiar o lacre, imitar a caneta do Mounjaro. E existe um tipo que exige só um site bonito e a certeza de que o cliente não vai conferir. A United Labz escolheu o segundo. Vendia, para brasileiros, um medicamento que não está registrado no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, no Japão nem em lugar nenhum — porque ele ainda está em fase de testes.

Nesta terça-feira, 1º de setembro, a Anvisa publicou no Diário Oficial a Resolução-RE 3.440, que determina a apreensão de todos os produtos da marca. Fica proibido fabricar, armazenar, distribuir, vender, importar, transportar, divulgar e usar qualquer coisa com o nome United Labz. Os produtos, diz a agência, são "fabricados por empresa desconhecida" e não têm registro, notificação nem cadastro sanitário. A medida veio "após a comprovação de propaganda e anúncios de venda".

O remédio que ainda é hipótese

A tirzepatida você conhece: é o princípio ativo do Mounjaro, aprovado no Brasil para diabetes tipo 2 e obesidade. No país, a patente segue com a Eli Lilly — o que significa que nenhuma outra marca pode vender a molécula legalmente, ponto. Qualquer "tirzepatida" que não venha numa caneta da Lilly, comprada em farmácia com receita, é contrabando, falsificação ou manipulação irregular.

A retatrutida é outra conversa. É a próxima aposta da Lilly: uma molécula que age em três receptores em vez de dois e que, nos estudos de fase 2, produziu perdas de peso na casa de 24% — número que fez a imprensa financeira babar e os grupos de emagrecimento no Telegram entrarem em êxtase. Só que ela ainda está em ensaios clínicos. Não tem aprovação de nenhum órgão regulador do mundo. A Lilly pretende pedir registro à FDA, a Anvisa americana, apenas no primeiro trimestre de 2027. Ninguém sabe ainda, com certeza estatística, o que ela faz com o pâncreas, com a tireoide ou com o músculo de quem toma por dois anos.

E a United Labz vendia isso em caneta de 50 mg, com laudo de "99,7% de pureza" atribuído a "laboratórios independentes nos Estados Unidos". Pureza de quê, exatamente, não se sabe — porque não há nem como saber quem fabricou o pó.

O que a Anvisa proibiu — e por quê:

• Resolução-RE 3.440, de 31/08/2026: apreensão de todos os produtos da marca United Labz
• Fabricante desconhecido; sem registro, notificação ou cadastro na Anvisa
• Produtos anunciados: canetas de tirzepatida (patente da Eli Lilly no Brasil) e retatrutida (em pesquisa; não aprovada em nenhum país)
• Site afirmava "pureza" de 99,9% (tirzepatida 60 mg) e 99,7% (retatrutida 50 mg)
• Argumento usado: a RDC 81/2008, que permite importação para uso pessoal — mas não autoriza venda de produto sem registro
• Em agosto, a Lilly processou 6 empresas nos EUA por venda ilegal de retatrutida

(Fonte: Anvisa, Diário Oficial da União, Folha de S.Paulo, Reuters)

A desculpa jurídica que não fecha

O site da United Labz tinha uma defesa pronta, e ela merece ser desmontada porque vai reaparecer em outro site na semana que vem. A empresa citava a RDC 81/2008 da Anvisa para dizer que "todo cidadão brasileiro tem o direito legal de importar medicamentos para uso pessoal mediante prescrição médica". É verdade — em parte. A norma permite que uma pessoa física importe, para si, um medicamento com receita, em quantidade compatível com o tratamento.

O que a norma não permite é que uma empresa monte uma loja virtual em português, com preço em real, depoimento de "médico americano" e frete para o Brasil, e chame isso de "importação pessoal". Isso tem nome: comercialização de produto sem registro sanitário. A própria resolução desta terça proíbe, explicitamente, a importação. E o detalhe que ninguém no site mencionava: para importar retatrutida "com prescrição", seria preciso um médico prescrever um remédio que não existe na bula de nenhum país. Esse médico, se existir, tem um problema com o CFM.

Por que isso é diferente do Mounjaro falsificado

Nos últimos meses, a Anvisa apreendeu lotes de Mounjaro falso, cinco marcas de caneta pirata e uma coleção de "Ozempic natural" em cápsula. Essa história é outra categoria. Falsificação copia um produto aprovado — o risco é você receber solução salina, dose errada ou contaminante. Aqui, o produto "original" não existe. Mesmo que a retatrutida da United Labz fosse quimicamente perfeita, você estaria participando de um ensaio clínico sem consentimento, sem monitoramento, sem exame de sangue, sem médico e pagando pelo privilégio.

Nas palavras do diretor médico da Lilly, David Hyman, quando a empresa processou seis vendedores clandestinos nos EUA em agosto: "O que está sendo vendido no mercado clandestino não é um medicamento, é algo totalmente não verificado, não aprovado e que não vale o risco." É raro concordar integralmente com o diretor médico de uma farmacêutica com patente a proteger. Este é um desses momentos.

O motor por trás: a fila da caneta

Nada disso acontece no vácuo. Um dia antes da apreensão, a Anvisa aprovou o Yluméc, a segunda caneta de semaglutida da EMS, produzida em Hortolândia — a patente do Ozempic caiu em março e o mercado nacional está enchendo de similares. Na sexta anterior, a FDA aprovou o Mounjaro para reduzir infarto e AVC em diabéticos. A demanda por GLP-1 é a maior de qualquer classe de medicamento na história recente, e a Anvisa reconhece isso no próprio comunicado: "a procura por medicamentos voltados ao tratamento do diabetes e da obesidade está em alta em todo o mundo e o Brasil acompanha o interesse global".

Onde há demanda represada e preço de R$ 1.500 a R$ 2.500 por mês, há mercado paralelo. A United Labz não é a primeira nem será a última. A diferença é que, com a retatrutida, o mercado paralelo passou a vender o futuro — e cobrar por ele à vista.

O que fazer se você comprou

Pare de usar. Guarde a embalagem e o comprovante — servem para a notificação à Anvisa, pelo sistema Notivisa, e para o Procon. Procure um médico e conte exatamente o que aplicou, em que dose e por quanto tempo; peça exames de pâncreas, tireoide e função renal. Não existe "desintoxicação" a fazer — o risco não é o resíduo, é o que pode ter acontecido enquanto você usava.

E na próxima vez que um site prometer o remédio "mais avançado do mundo" antes de ele existir na farmácia, faça a pergunta que a United Labz não queria que você fizesse: se é tão bom e tão puro, por que a empresa que inventou a molécula ainda não conseguiu vender?

Compartilhar: