Seu Mounjaro pode ser falso: Anvisa manda apreender quatro lotes — anote os números antes da próxima aplicação
A agência determinou a apreensão de lotes falsificados do medicamento mais cobiçado do país, com números de série incompatíveis e erros de grafia no rótulo. Na mesma canetada, proibiu uma coleção de produtos que vendem "Mounjaro Natural" e "Ozempic Natural" — coisas que não existem.
Quando um medicamento vira febre nacional, custa quase um salário mínimo por mês e falta na prateleira, a economia responde do jeito que sempre respondeu: alguém começa a fabricar mentira. A Anvisa determinou nesta semana a apreensão de lotes falsificados do Mounjaro (tirzepatida), a caneta injetável que disputa com o Ozempic o posto de produto mais desejado das farmácias brasileiras. A falsificação não foi descoberta por fiscal de plantão — foi a própria fabricante, a Eli Lilly, que encontrou no mercado unidades que ela nunca produziu.
Se você usa Mounjaro, pare e pegue a caixa. Os lotes proibidos são o 855044, na apresentação de 10 mg, e os lotes D880403, MJR 257 e D854901, na de 15 mg. A determinação está na Resolução 2.693/2026, publicada no Diário Oficial da União.
Como identificar a fraude
As unidades falsas não são cópias grosseiras — são boas o bastante para chegar ao balcão. As irregularidades identificadas incluem lotes que a fabricante não reconhece, números de série incompatíveis com os registros oficiais, dispositivos de aplicação fora dos padrões originais e, o detalhe que costuma entregar o crime, erros de grafia na rotulagem. Falsificador é caprichoso com a embalagem e desleixado com o português.
O problema de uma caneta falsa não é só não emagrecer. É que ninguém sabe o que tem dentro dela. Pode ser soro, pode ser insulina — o que já causou hospitalizações por hipoglicemia grave em casos de falsificação de análogos de GLP-1 mundo afora —, pode ser qualquer coisa produzida sem esterilidade, injetada direto no seu tecido subcutâneo. Você paga caro pelo risco de se envenenar com desconto.
• Mounjaro 10 mg — lote 855044
• Mounjaro 15 mg — lotes D880403, MJR 257 e D854901
Sinais de falsificação: número de série incompatível, dispositivo aplicador diferente do original e erros de grafia no rótulo. Comprou de fonte duvidosa? Não aplique — denuncie à Anvisa.
O submundo do "Ozempic Natural"
Na mesma resolução, a Anvisa proibiu uma lista de produtos que merece leitura em voz alta: "Mounjaro Natumix" e "Ozempic Natural Natumix", fabricados por uma empresa sem autorização de funcionamento, ao lado de pérolas como "Mega Viril Lótus Nutri", "Liberta Álcool Je's" e "Ouvido Bem Je's" — este último, presume-se, para o ouvido.
Vale dizer o óbvio que o marketing tenta embaçar: não existe Ozempic natural. Semaglutida e tirzepatida são moléculas sintéticas complexas, produzidas por biotecnologia, que custam bilhões em pesquisa. Um sachê de ervas com esse nome no rótulo tem tanta relação com o medicamento quanto um adesivo de Ferrari tem com o carro. O nome está ali para pegar carona na fama — e no seu desespero.
Por que esse mercado explodiu
A conta é simples. As canetas de tirzepatida custam entre R$ 1.400 e R$ 2.500 por mês nas farmácias brasileiras, não têm cobertura do SUS para obesidade e a demanda cresce mais rápido que a produção mundial. Escassez mais preço alto mais desejo é a receita clássica do mercado paralelo — foi assim com o Viagra nos anos 2000, é assim com as canetas agora.
A diferença é a via de administração. Um comprimido falso de Viagra geralmente era farinha prensada: ineficaz, raramente letal. Uma caneta injetável falsa fura sua pele com um líquido de origem desconhecida. O upgrade do crime acompanhou o upgrade da farmacologia.
O que fazer se você usa
Primeiro: confira o lote da sua caneta contra a lista acima. Segundo: só compre em farmácia estabelecida, com nota fiscal — caneta de rede social, de "representante" no WhatsApp ou de site sem CNPJ é roleta-russa com agulha. Terceiro: desconfie de preço milagroso. O medicamento que falta no estoque da maior rede do país não está sobrando com desconto de 40% no Instagram.
E se a suspeita aparecer depois da compra, não aplique. Fotografe, guarde a embalagem e notifique a Anvisa pelos canais oficiais — a agência depende dessas denúncias para puxar o fio das redes de distribuição.
A tirzepatida é provavelmente o medicamento mais eficaz já aprovado contra a obesidade. Mas nenhuma molécula é boa o bastante para compensar o risco de injetar algo que saiu de um fundo de quintal. Entre a caneta falsa barata e nenhuma caneta, fique sem — seu pâncreas agradece.
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