O "alvejante natural" que virou febre na internet acabou de ser proibido — 12 vezes
A Anvisa baniu 12 produtos à base de percarbonato de sódio vendidos como alvejante e tira-manchas. Nenhum tinha registro sanitário e os fabricantes são de origem desconhecida. A palavra "natural" no rótulo não muda o que a substância faz com a sua pele.
Você já viu o vídeo. Uma pessoa joga um pó branco numa bacia de água quente, a espuma sobe, a camisa encardida sai branca como no primeiro dia e a legenda diz alguma variação de "alvejante natural, sem química, seguro para a família". O produto se chama percarbonato de sódio e virou item de prateleira digital nos últimos anos, vendido por marcas que ninguém conhece a preço de commodity.
Nesta semana a Anvisa encerrou parte da festa. Pela Resolução RE nº 3.147, de 11 de agosto de 2026, publicada no dia 12, a agência proibiu a fabricação, distribuição, comercialização, importação e uso de 12 produtos de limpeza — a maioria deles alvejantes e tira-manchas à base de percarbonato. A proibição já está em vigor.
O motivo é aquele que se repete com a monotonia de um refrão: os produtos não têm registro sanitário e as empresas fabricantes são de origem desconhecida, sem autorização de funcionamento. Traduzindo do burocratês: ninguém sabe quem fez, ninguém sabe onde fez, ninguém verificou o que tem dentro.
Os 12 produtos banidos
Confira a lista e revire o armário de limpeza. Foram proibidos: Oxypur (Quimpac), Percarbonato de Sódio (Los Chefs), Alvejante Natural Multiuso – nova fórmula, Percarbonato de Sódio (Vong Home), Boa Alvejante Percarbonato de Sódio em pó, Percarbonato Plus (ANS Agrária), Percarbonato de Sódio (Nativa), Yta Clean, Alvejante Tira Manchas (Amigos Distribuidora), Percarbonato de Sódio (Oxigen), Tira Manchas (FV Group) e Percarbonato Top Brilho.
Se algum deles está na sua casa, pare de usar. Não devolva para a pia, não misture com nada e descarte a embalagem fechada. E, se você comprou recentemente em marketplace, vale reportar a listagem — plataforma que segue vendendo produto proibido depois da publicação da resolução está descumprindo a lei, não fazendo curadoria de catálogo.
• 12 produtos de limpeza: alvejantes, tira-manchas e percarbonato de sódio em pó
• Motivo: ausência de registro sanitário e fabricantes sem autorização de funcionamento
• Proibidas fabricação, distribuição, comercialização, importação e uso
• Resolução assinada em 11 de agosto, publicada em 12 de agosto de 2026 — já em vigor
• Marcas atingidas: Oxypur, Los Chefs, Vong Home, Boa, ANS Agrária, Nativa, Yta Clean, Amigos Distribuidora, Oxigen, FV Group, Top Brilho e o "Alvejante Natural Multiuso – nova fórmula"
• Como conferir qualquer saneante: consulte o número de registro no site da Anvisa antes de comprar
"Natural" é a palavra mais mal-usada do varejo
Percarbonato de sódio não é um extrato de planta colhido ao amanhecer. É um composto químico industrial — carbonato de sódio combinado com peróxido de hidrogênio em forma sólida. Quando encontra água, ele se decompõe e libera exatamente aquilo: água oxigenada, o mesmo agente oxidante que descolore cabelo e faz espuma em ferida.
Isso não o torna vilão. Como alvejante sem cloro, ele é uma opção legítima, eficiente e, de fato, com decomposição ambientalmente mais benigna que a de outros produtos. O erro está na inferência preguiçosa: "se é natural, não faz mal". O pó em concentração alta irrita e pode queimar pele e olhos, e inalá-lo agride as vias respiratórias. Água sanitária também é composto simples e ninguém sugere lavar as mãos com ela.
Some a isso a soberba de misturar produtos vista em tanto tutorial caseiro. Percarbonato combinado com produtos ácidos — desinfetante à base de ácido, limpa-pedra, alguns removedores — libera gases e gera reações que ninguém quer respirar num banheiro fechado. Saneante domissanitário está entre os principais agentes de intoxicação registrados no Brasil, com peso desproporcional entre crianças pequenas, que confundem pó branco perfumado com açúcar.
O que o registro sanitário realmente significa
Existe uma leitura cínica, e bastante difundida, de que registro na Anvisa é papelada para dificultar a vida do pequeno empreendedor. Vale entender o que está de fato em jogo num saneante de uso doméstico.
Sem registro e sem autorização de funcionamento, ninguém verificou: a concentração real do princípio ativo — o rótulo pode dizer 30% e o pote conter 80%; a pureza da matéria-prima, que em percarbonato industrial de baixa qualidade pode carregar contaminantes metálicos; a rotulagem obrigatória, com advertências de risco e orientações de primeiros socorros; e a rastreabilidade do lote, sem a qual não há como fazer recall quando alguém se machuca.
É essa última que dói mais. Empresa de "origem desconhecida" significa que, se o seu filho de três anos abrir o pote e levar à boca, não existe fabricante a quem responsabilizar, não existe lote a recolher e não existe ficha técnica para orientar o pronto-socorro sobre o que exatamente ele ingeriu. O registro é, antes de tudo, um endereço para cobrar.
O que fazer (de verdade)
Antes de comprar qualquer produto de limpeza, principalmente os vendidos online por marcas desconhecidas, procure no rótulo o número de registro ou notificação na Anvisa e o CNPJ do fabricante. Produto sério traz os dois. Você pode checar o número no site da agência em menos tempo do que leva para ler as avaliações do anúncio.
Guarde saneantes na embalagem original, sempre — pó branco transferido para pote de sorvete é receita de acidente doméstico. Mantenha fora do alcance de crianças e longe de alimentos. Nunca misture produtos de limpeza diferentes na esperança de potencializar o efeito; você potencializa o gás. E, em caso de ingestão ou contato grave, ligue para o Centro de Informações Toxicológicas no 0800 722 6001, que funciona 24 horas em todo o país.
A palavra "natural" no rótulo não é um selo sanitário — é uma peça de marketing que custa zero e vende muito. O registro na Anvisa custa trabalho, e é justamente por isso que quem não tem prefere apostar na palavra.
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