Anvisa vai regular as canetas emagrecedoras — e já era hora

Anvisa vai regular as canetas emagrecedoras — e já era hora

Com ônibus de Paraguai sendo interceptados com mil canetas de tirzepatida e produtos falsificados espalhados pela internet, a agência finalmente propõe normas para a manipulação de GLP-1

SaúdeCidade ·

No dia 13 de abril, a Polícia Rodoviária Federal parou um ônibus vindo do Paraguai com uma carga discretamente escondida: mil canetas injetáveis de tirzepatida, misturadas com esteroides anabolizantes. Dois dias depois, a Anvisa determinou a apreensão de dois produtos não registrados — Gluconex e Tirzedral — proibindo sua venda em todo o território nacional. E em 29 de abril, a agência se reúne para discutir uma instrução normativa que vai, finalmente, estabelecer regras claras para quem manipula e vende medicamentos GLP-1 no Brasil.

É muito? É pouco? Depende do ponto de vista. Para quem acompanha o mercado de semaglutida, tirzepatida e liraglutida nos últimos dois anos, a pergunta mais honesta é outra: por que demorou tanto?

O que a norma vai regular (e por que isso importa)

A instrução normativa que a Anvisa discutirá em 29 de abril não vai proibir a manipulação de GLP-1 — isso já está proibido para a maioria dos casos, ao menos no papel. O que a norma quer é estabelecer procedimentos técnicos claros para a cadeia inteira: importação de insumos, qualificação de fornecedores, controle de qualidade, estabilidade, armazenamento e transporte dos princípios ativos.

Em linguagem não-burocrática: criar um padrão mínimo para que quem vende semaglutida manipulada não esteja simplesmente colocando água com corante numa seringa e chamando de "ozempic composto". Porque, acredite, isso acontece. Com frequência que vai de perturbadora a assustadora.

O que a nova norma propõe regular:

• Importação de insumos farmacêuticos ativos (APIs) de GLP-1
• Qualificação de fornecedores de semaglutida, tirzepatida e liraglutida
• Testes de controle de qualidade e estabilidade
• Condições de armazenamento e transporte
• Obrigatoriedade de receita com retenção

Quatro entidades assinaram a carta de intenções: Anvisa, CFM, CFF e CFO — Conselhos de Medicina, Farmácia e Odontologia.

O tamanho do problema que criamos

O Brasil é o terceiro maior mercado de obesidade do mundo — atrás apenas de Estados Unidos e China. E a febre das "canetas" criou um ecossistema paralelo de proporções difíceis de mensurar: farmácias de manipulação que vendem semaglutida sem avaliação médica adequada, importadores clandestinos abastecendo clínicas de emagrecimento às toneladas, e um mercado digital onde você encontra tirzepatida entregue em 24 horas com mais facilidade do que um dermatologista particular em dia de chuva.

O problema não é ideológico. O problema é de segurança. Os medicamentos GLP-1 genuínos — Ozempic, Wegovy, Mounjaro — passam por processo rigoroso de fabricação que garante concentração, esterilidade e estabilidade. Um produto manipulado sem controle pode ter concentração errada (levando a hipoglicemia grave ou ineficácia total), contaminação microbiológica, ou simplesmente não conter o princípio ativo anunciado.

A guerra nos bastidores do mercado

Existe um conflito de interesse enorme nessa regulação que raramente aparece nas manchetes. De um lado, as farmácias de manipulação, que faturaram bilhões com a febre dos GLP-1. De outro, as multinacionais Novo Nordisk (Ozempic/Wegovy) e Eli Lilly (Mounjaro), que defendem que nenhuma versão manipulada deveria existir. No meio: a Anvisa, que tentou proibir a manipulação em 2023, recuou após pressão política, e agora tenta criar uma regulação de meio-termo que satisfaça todo mundo — o que, na prática, geralmente não satisfaz ninguém direito.

A decisão da Suprema Corte de extinguir a exclusividade da semaglutida em março de 2026 complicou ainda mais o tabuleiro. Com a patente vencida, genéricos e similares podem chegar ao mercado — o que, em tese, tornaria a manipulação menos necessária. Mas "em tese" é o tipo de frase que tem meses de distância da realidade nas prateleiras das farmácias brasileiras.

O que você deveria saber antes de injetar qualquer coisa

Se você usa ou considera usar semaglutida ou tirzepatida, há perguntas que você deveria fazer antes de pressionar o êmbolo. De onde vem esse produto? Qual é o número de lote e o certificado de análise do insumo? A farmácia tem BPF (Boas Práticas de Fabricação) auditada? O médico que prescreveu fez avaliação completa ou só emitiu receita num formulário de cinco linhas?

Não é paranoiaque perguntar isso. É o mínimo que você merece saber quando está se injetando com algo que interfere no funcionamento do seu pâncreas, estômago e intestino.

A Anvisa chegou atrasada nessa regulação — o mercado já está inflado, os produtos clandestinos já circulam há anos, e o dano de saúde pública já foi feito em partes. Mas tarde é melhor que nunca. E se a instrução normativa de 29 de abril criar de fato um padrão mínimo de qualidade para esses produtos, será um passo real. Pequeno diante do problema, mas real.

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