O Brasil ganhou seu primeiro genérico de semaglutida — e ele não é genérico do Ozempic

O Brasil ganhou seu primeiro genérico de semaglutida — e ele não é genérico do Ozempic

A Anvisa aprovou nesta segunda o primeiro genérico à base de semaglutida do país. Ele não terá marca, deve custar pelo menos 35% menos que o remédio de referência e, pela regra brasileira, na prática a diferença costuma passar de 60%. Só que o "referência" aqui não é o Ozempic — e essa distinção explica quase tudo.

SaúdeCidade ·

Se você acompanha o assunto há algum tempo, já ouviu a promessa umas quinze vezes: "quando a patente cair, o preço despenca". A patente do princípio ativo do Ozempic caiu. E nesta segunda-feira (17) a Anvisa registrou o primeiro medicamento genérico à base de semaglutida do Brasil.

Antes de comemorar ou de torcer o nariz, vale entender o que exatamente foi aprovado — porque o comunicado tem uma sutileza que muda o tamanho da notícia.

Genérico de quê, exatamente?

O produto será fabricado pela EMS. E o medicamento de referência dele não é o Ozempic: é o Ozivy, uma caneta de semaglutida lançada este ano pela própria EMS.

Sim, você leu certo. A empresa registrou um genérico do próprio remédio.

Não é malandragem regulatória — é consequência de uma regra que quase ninguém conhece. O Ozempic é um medicamento biológico: sua semaglutida é produzida dentro de sistemas vivos, em células. Já a semaglutida do Ozivy é feita por síntese química, num processo industrial completamente diferente.

E, no Brasil, "genérico" é uma categoria que só existe para medicamentos sintéticos. Biológicos seguem outra trilha regulatória, a dos biossimilares. Por isso o Ozivy não pôde ser registrado como genérico do Ozempic mesmo tendo o mesmo princípio ativo — teve de passar por processo próprio, como medicamento novo.

Uma vez aprovado, porém, o Ozivy virou o que a lei chama de referência. E aí, sim, versões genéricas podem se pendurar nele.

É um caminho tortuoso de três etapas para chegar num lugar que o público sempre achou que fosse uma só. O resultado prático, no entanto, é o que interessa: existe agora, na fila da farmácia, uma caixa sem marca escrita "semaglutida".

A régua dos 35% — e o que costuma acontecer de verdade

Pela legislação brasileira, um genérico precisa ser registrado com preço pelo menos 35% inferior ao do medicamento de referência. Esse é o piso legal, não o destino final.

Segundo o Conselho Federal de Farmácia, a diferença real entre genérico e referência costuma girar em torno de 67%.

E um estudo do Ipea mostra o efeito cumulativo, que é ainda mais interessante: a entrada do primeiro genérico derruba, em média, 20,8% do preço mínimo de um ingrediente farmacêutico ativo no mercado brasileiro. A partir do terceiro, a queda média chega a 55,2%.

Traduzindo do economês: o primeiro genérico é um empurrão. É do terceiro em diante que o preço realmente cede.

O que a Anvisa aprovou e o que já se sabe de preço:

1º genérico de semaglutida do Brasil, fabricado pela EMS, sem nome comercial
• Medicamento de referência: Ozivy (também da EMS), e não o Ozempic
• Na mesma resolução, a Anvisa registrou o Semaclique, similar do Ozivy, fabricado pela Germed — do mesmo conglomerado da EMS
• Preço atual do Ozivy: R$ 390 a R$ 553 (apresentação de 0,25 mg/0,5 mg) e R$ 618 a R$ 1.100 (1 mg)
• Piso legal do genérico: 35% abaixo da referência
• Diferença média observada na prática (CFF): cerca de 67%
• Efeito estimado pelo Ipea: -20,8% com o 1º genérico, -55,2% a partir do 3º

Faça a conta você mesmo

O Ozivy é encontrado hoje entre R$ 390 e R$ 553 na apresentação mínima, e entre R$ 618 e R$ 1.100 na versão de 1 mg. A fabricante ainda tem um programa de descontos próprio, o Vida + Leve, que reduz o valor em promoções e combos.

Aplique o piso legal de 35% sobre a faixa de 1 mg e você chega a algo entre R$ 400 e R$ 715 por mês. Aplique a média real de 67% e a conta cai para a faixa dos R$ 200 a R$ 360.

É muito dinheiro? Continua sendo. Para um tratamento de uso contínuo, que pode durar anos e cuja interrupção costuma ser seguida de reganho de peso, R$ 300 por mês é uma prestação permanente — não uma compra.

Mas é uma mudança de patamar em relação aos R$ 1.100 mensais que colocavam esse tratamento explicitamente fora da vida da maioria dos brasileiros. Doença crônica tratada com remédio caro tem uma característica cruel: ela não seleciona quem precisa, seleciona quem aguenta pagar até o fim.

O detalhe que ninguém deveria deixar passar

Na mesma resolução, a Anvisa registrou também o Semaclique, classificado como similar ao Ozivy. Ele é fabricado pela Germed — que pertence ao mesmo conglomerado da EMS.

Some tudo: o medicamento de referência é da EMS, o genérico é da EMS e o similar é da irmã da EMS.

Três produtos na prateleira, um grupo econômico. Se a lógica que derruba preço é a concorrência entre fabricantes — e é exatamente essa a lógica do estudo do Ipea —, é razoável perguntar quanta concorrência existe quando os três concorrentes almoçam juntos.

Isso não anula a notícia. O desconto de 35% é obrigação legal e vale independentemente de quem fabrica. Mas serve de aviso contra a euforia: o preço não cai porque alguém foi generoso. Cai quando aparecem o quarto, o quinto e o sexto registro — de gente que não tem interesse nenhum em proteger a margem do primeiro.

O que fazer com essa informação

Três coisas, e nenhuma delas é correr para a farmácia amanhã.

Primeiro: registro na Anvisa não é o mesmo que produto na gôndola. Entre a publicação no Diário Oficial e a caixa disponível há definição de preço na CMED, produção e distribuição. Levar semanas ou meses é o normal.

Segundo: genérico, por definição, tem a mesma concentração, forma farmacêutica, via de administração e indicação da referência, e precisa comprovar equivalência para ser registrado. Desconfiar do genérico por ser genérico é preconceito de marca, não avaliação técnica. Desconfiar de caneta vendida em grupo de WhatsApp e perfil de rede social, essa sim, continua obrigatório — o mercado paralelo de semaglutida já rendeu apreensões, falsificações e proibições no Brasil inteiro.

Terceiro, e mais importante: continua sendo medicamento com prescrição, com efeitos adversos reais e com indicação definida. Preço mais baixo amplia o acesso de quem precisa — e amplia, na mesma medida, o acesso de quem não precisa. Essas duas coisas chegam juntas, sempre.

A patente caiu. O preço vai ceder. A parte difícil — decidir quem realmente deveria estar tomando isso — continua exatamente onde estava.

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