Vinte e quatro anos de vida separam o Alto de Pinheiros da Anhanguera — na mesma cidade, com o mesmo prefeito

Vinte e quatro anos de vida separam o Alto de Pinheiros da Anhanguera — na mesma cidade, com o mesmo prefeito

O Mapa da Desigualdade 2025 mostra que o acesso à saúde em São Paulo continua colado ao CEP: hospitais de alta complexidade no centro expandido, periferia dependendo de poucas unidades locais. Na Região Metropolitana, o abismo chega a 70 pontos percentuais — a cobertura vacinal vai de 99,88% a 29,1% dependendo do município.

SaúdeCidade ·

Existem duas São Paulos, e a diferença entre elas não é de renda, de sotaque ou de time. É de tempo de vida.

No Alto de Pinheiros, a expectativa de vida é de 82 anos. Na Anhanguera, distrito do extremo noroeste da mesma cidade, é de 58. Vinte e quatro anos de diferença — mais do que separa o Brasil da Suíça, mais do que separa a Nigéria do Japão. Tudo dentro do mesmo município, sob a mesma prefeitura, na mesma rede de saúde.

O dado vem do Mapa da Desigualdade, publicado anualmente desde 2013 pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis, que compara 45 indicadores entre os 96 distritos da capital.

Em 2025, quase nada mudou — e esse é o problema

Comparando as edições de 2024 e 2025, o levantamento encontra pouca coisa nova no quesito saúde. Os melhores índices seguem concentrados nos bairros centrais; os piores, na periferia.

Jardim Paulista, Moema e Pinheiros permanecem no topo dos indicadores de saúde. Vila Maria, Vila Medeiros, Artur Alvim e Ponte Rasa continuam na base — com barreiras no atendimento básico, na qualidade do pré-natal e no tempo de espera.

Estabilidade, aqui, não é boa notícia. É a confirmação de que a desigualdade não é um resíduo histórico em processo de dissolução. É uma estrutura que está funcionando exatamente como foi montada.

Onde estão os hospitais (spoiler: não é onde estão as pessoas)

A explicação mais direta cabe numa frase: os hospitais de alta complexidade estão, em sua grande maioria, no centro expandido.

Isso deixa os distritos periféricos dependentes de poucas unidades locais — o que se traduz em demora para agendar exame, fila mais longa na Atenção Primária e, quando o caso é grave, uma travessia de ônibus e metrô que pode consumir duas horas de cada lado.

E antes que alguém sugira que o plano de saúde resolve: cerca de 70% dos paulistanos dependem exclusivamente do sistema público. Convênio particular não é realidade em Artur Alvim, Vila Maria ou Ponte Rasa. É realidade em Jardim Paulista, Moema e Pinheiros — os mesmos bairros que, por coincidência absolutamente não coincidente, também têm os hospitais.

A saúde pública paulistana funciona, nesse desenho, ao contrário da necessidade: mais equipamento onde menos gente depende dele.

O abismo em números:

82 anos de expectativa de vida no Alto de Pinheiros x 58 anos na Anhanguera
~70% dos paulistanos dependem exclusivamente do SUS
Brás tem o pior índice de mortalidade infantil da capital (20,07)
• Gravidez na adolescência: 0,14 no Jardim Paulista x 11,09 em Cidade Tiradentes
• Região Metropolitana: idade média ao morrer de 76 anos em São Caetano do Sul x 60 em Francisco Morato
• Cobertura vacinal: 99,88% em Vargem Grande Paulista x 29,1% em Rio Grande da Serra
45 indicadores analisados em 96 distritos da capital e 39 municípios da Grande São Paulo

Mortalidade infantil e gravidez precoce: os dois lados da mesma moeda

A mortalidade infantil é o indicador que mais depende de coisas que não estão no hospital: qualidade do pré-natal, do parto, do cuidado neonatal — e, atrás disso, saneamento, habitação e cobertura vacinal. Não por acaso, seus piores números aparecem nas zonas norte e leste. O Brás registra o pior índice da capital, com pontuação de 20,07.

Do outro lado dessa mesma moeda está a gravidez na adolescência. O índice geral do município vem caindo de forma consistente — de 11,4% para 6,3%, e agora para algo em torno de 6% em 2025. Mas a média esconde o mapa: Jardim Paulista aparece com pontuação 0,14; Cidade Tiradentes, com 11,09. Parelheiros também supera 11% do total de nascimentos.

E o que acontece depois da gravidez precoce é o que transforma um indicador de saúde num mecanismo de perpetuação da pobreza. Segundo a Rede Nossa São Paulo, 61% das jovens que engravidam na infância ou adolescência interrompem os estudos, contra 33% entre as que não passaram por isso. Elas têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não frequentar a escola e 21 pontos a mais de risco de não concluir a educação básica. E 83% das mulheres que engravidaram na adolescência afirmam ter perdido oportunidades de trabalho ao longo da vida por causa dos cuidados com os filhos.

Contraceptivo distribuído e informação disponível não resolvem isso sozinhos — e o levantamento é claro ao dizer por quê: o que falta, nas periferias, é perspectiva de vida e de carreira, além de rede de apoio. Sem creche de período integral, a adolescente escolhe entre o bebê e a sala de aula. Não é uma escolha; é um beco.

Nas zonas periféricas, os meninos saem da escola para trabalhar e as meninas saem para cuidar dos filhos. As mais atingidas são as jovens negras e pardas — que ainda são mais culpabilizadas pela gestação do que os pais dos bebês, e que sofrem isolamento familiar e social por isso.

Há também consequência clínica direta: a Secretaria Municipal da Saúde alerta para maior incidência de anemia, infecções urinárias e pré-eclâmpsia, além de mais partos prematuros, cesarianas de urgência e baixo peso ao nascer entre meninas de 10 a 19 anos.

A Grande São Paulo entrou no mapa — e é pior

Este ano, pela primeira vez, o levantamento se estendeu aos 39 municípios da Região Metropolitana. O resultado: disparidades de até 70 pontos percentuais em saúde e qualidade de vida.

Em São Caetano do Sul, a idade média ao morrer é de 76 anos. Em Francisco Morato, 60. Dezesseis anos de diferença entre duas cidades da mesma região metropolitana.

A cobertura vacinal é o indicador mais escandaloso da série. Vargem Grande Paulista imuniza 99,88% da população-alvo. Rio Grande da Serra, 29,1%. Setenta pontos percentuais de diferença entre municípios vizinhos, com acesso à mesma vacina, comprada pelo mesmo Ministério da Saúde, distribuída pela mesma rede federal.

Isso não é falta de imunizante. É falta de capacidade de gestão local — e, do lado de quem mora lá, falta de um posto aberto no horário em que dá para ir.

Pirapora do Bom Jesus (carência de infraestrutura básica), Francisco Morato (vazios assistenciais graves) e Juquitiba (pior cobertura de saneamento) lideram os piores índices de mortalidade infantil e materna. No outro extremo aparecem São Caetano do Sul, Santana de Parnaíba, Ribeirão Pires, Vargem Grande Paulista e Poá.

E municípios como Cajamar, Caieiras e Mairiporã sofrem com falta crônica de infraestrutura local de saúde — o que obriga o morador a percorrer longas distâncias por uma consulta ou um exame. Não é uma inconveniência; é um filtro. Quem tem carro e folga no trabalho atravessa. Quem não tem, desiste.

O que um mapa desses serve para fazer

É tentador ler esses números como fatalidade — como se expectativa de vida fosse clima, algo que simplesmente acontece com um território.

Não é. Todos esses indicadores respondem a decisões concretas e localizáveis: onde se constrói a UBS, onde se abre o pronto-socorro, quantas equipes de Saúde da Família cobrem cada território, qual distrito ganha a nova maternidade, qual posto abre aos sábados.

A diferença entre Vargem Grande Paulista e Rio Grande da Serra na cobertura vacinal não é biologia. É agenda de trabalho, busca ativa e sala de vacina funcionando. A diferença entre 82 e 58 anos de expectativa de vida não é genética. É esgoto, é distância até o hospital, é quantos anos você espera por um exame.

O Mapa da Desigualdade existe há 13 anos justamente para tirar essas escolhas do campo do inevitável e devolvê-las ao campo da política. Ele não descobre nada que quem mora em Cidade Tiradentes não saiba na pele. Ele só coloca em número — para que ninguém possa alegar que não sabia.

Numa cidade onde nascer a 30 quilômetros de distância custa 24 anos de vida, dizer que o problema é falta de recurso é uma explicação preguiçosa. O recurso existe. Ele só nunca fez a viagem.

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